Publicado por: Nuno Gouveia | Janeiro 26, 2008

Os negros e Obama

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Hoje na Carolina do Sul, mais do que em qualquer outra eleição recente nos Estados Unidos, a raça vai ser determinante para o resultado final. Barack Obama desde o inicio que tinha recusado o epíteto do candidato negro, pois não ambicionava ser outro Jesse Jackson ou Al Sharpton. Pretendia apresentar-se com um candidato da nova América multicultural. Até ao final do ano anterior, as sondagens até indicavam não tinha grande ascendente na comunidade afro-americana, onde era ultrapassado nas intenções de voto por Hillary Clinton.

Mas em Dezembro, Oprah Winfrey apareceu na Carolina do Sul com Obama, junto de milhares de negros. Depois, em Janeiro, Barack Obama venceu no Iowa, um estado com 95% de brancos. Bem cotado nas outras raças, Obama começou a granjear o apoio esmagador dos negros. Estes começaram a acreditar que finalmente os Estados Unidos poderiam ter um negro como Presidente. No Nevada, Obama teve 70% dos votos da comunidade afro-americana. Na Carolina do Sul, 50% dos eleitores que participam nas primárias democratas são negros. Uma vitória é mais que esperada hoje. A dúvida está em saber qual a diferença que terá para os adversários.

Mas a questão racial não se esgota na Carolina do Sul. Os Clinton, depois de perderem no Iowa, sentiram o alarme a tocar. Obama surgia aos olhos do eleitorado como um candidato carismático, que reunia à sua volta a diversidade da América. E como tal, as famosas tácticas eleitorais dos Clinton, que tão bons resultados deram no passado, foram reactivadas. No New Hampshire, Hillary estava muito atrás e precisava desesperadamente do voto das mulheres. Vieram as lágrimas. Depois, no Nevada, Bill Clinton saiu a público e abalroou Obama pelo suposto “conto de fadas” sobre a sua oposição à guerra do Iraque. E finalmente surgiu a questão racial. Obama não pode ganhar sendo “o” candidato negro.

Os Clinton, que sempre foram apoiantes dos direitos civis dos negros, jogaram uma cartada inteligente. Obama teria que ser considerado o candidato dos negros. Uma derrota na Carolina do Sul seria compensada nos estados onde os brancos são maioritários. Dick Morris, que trabalhou com os Clinton, já descreveu o que se passou nas últimas semanas. Os Clinton estão a usar as velhas tácticas dos anos 90. Alguém tem de fazer o trabalho sujo, desviando as atenções do candidato. Bill Clinton tem feito esse papel, ora através de ataques, ora relevando que a sua mulher precisa de conquistar o voto dos negros. Esta última semana esteve sempre em campanha na Carolina do Sul. Ele sabe que isso não valerá de nada. Obama terá a maioria dos votos dos negros. Mas com isso garante a ghettização da candidatura de Barack Obama. O que lhe irá retirar votos dos brancos. Este é o pior pesadelo de Obama, ser encostado à sua raça. Vamos ver como se sai hoje. Esta semana Bill O´Reilly perguntava a Dick Morris se isso iria influenciar os supostamente liberais democratas. Afinal, eles são pela igualdade da raça. Uma boa questão para seguir nestas primárias.


Respostas

  1. [...] seguimento de algumas das questões que abordei no meu post anterior, ler o Nuno Gouveia, que tem estado a acompanhar, no âmbito de uma dissertação de mestrado, as eleições [...]

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