Posted by: Nuno Gouveia | Março 17, 2008

Comentário sobre a polémica Ferraro-Wright

Uma perspectiva diferente da mais recente crise entre Hillary Clinton e Barack Obama. Este leitor advoga, ao contrário do que defendi, que as declarações do reverendo Jeremiah Wright poderão ferir a campanha de Barack Obama e que a raça tem sido um dos temas que a campanha de Obama tem utilizado para chegar a esta posição. Não concordo com tudo o que está escrito, mas muitos dos argumentos utilizados tem validade. Aqui fica o texto:

Qualquer analogia ou comparação entre as declarações da Ferraro e do Wright roça o absurdo.

A afirmação de Ferraro não é racista; tão-pouco somente verosímil. É verdadeira. Aliás, não deixa de ser perversamente divertido ver os apoiantes de Obama (e a própria campanha) considerarem as afirmações como racistas quando eles próprios, à falta de melhor, têm exibido ad nauseam a “herança étnica” de Obama, a sua “cara”, etc., como um atributo político. O próprio Obama, de forma cuidadosa e recorrendo a truques retóricos, o tem feito - “they said this day would never come”, afirma ele em cada discurso de vitória. Poderá questionar-se a autoridade da Ferraro para as proferir: é certo que ganhou alguma ao afirmar que fosse o seu nome Gerard nunca teria sido escolhida para VP - não sabendo quando o percebeu, não deixa de ser confrangedor que tenha demorado mais de duas décadas para o dizer publicamente. E há alguma justiça poética nesta história: depois de anos a patrocinarem políticas de preferência racial e de discriminação positiva, democratas como a Ferraro vêem a sua candidata preferida ser ultrapassada por uma pessoa menos qualificada por esta pertencer a minoria étnica.

Quanto ao Wright assumamos, por caridade, que o JPeC está mal informado. Antes de mais, sou incapaz de perceber a utilização do advérbio “alegadamente”: as diatribes estão gravadas e não houve qualquer desmentido. Doppo, e mais importante, o que incendiou a polémica não foi somente a frase que o JPeC cita. Admito que essa é apenas um disparate. De qualquer maneira não foi formulada com tanta nuance: a propos, “chickens coming home to roost” foi também a expressão utilizada pelo Malcolm X para fazer a apologia do assassinato do Kennedy (acredite quem quiser que tenha sido mero acaso).

Mas o Rev. Wright também afirmou “God Damn America” porque “the government gives them the drugs, builds bigger prisons, passes a three-strike law and then wants us to sing God Bless America”, equiparou o sionismo a “white racism”, assegurou que “the government lied about inventing the HIV virus as a means of genocide against people of color. The government lied”, declarou que os italianos (leia-se brancos) mataram um Cristo negro: “Jesus was a poor, black man who lived in a country, and who lived in a culture that was controlled by rich, white people. The Romans were rich, the Romans were Italians, which means they were European, which means they were white, and the Romans ran everything in Jesus’ country” e certificou que It just came to me within the past few week, y’all, why so many folk are hatin’ on Barack Obama. He doesn’t fit the model – he ain’t white, he ain’t rich, and he ain’t privileged” (Obama não é rico nem privilegiado?!? - aliás, agora compreende-se melhor como é que a campanha do marido foi para Michelle Obama a única ocasião em que se sentiu orgulhosa da America) e, genericamente, mensagens de ódio e divisão racial e religiosa - ou actos, como a viagem com Farrakhan, o prémio que lhe outorgou e as palavras apreciativas que lhe dedicou.

Todas isto pode ser arrumado como opinião e “discutível”? Talvez. Mas um mundo em que todo o tipo de discurso adquire respeitabilidade na arena pública por ser rotulado como opinativo é um mundo perigoso. As opiniões não são todas iguais e nem tudo pode ser opinião.

O que mais inflamou a polémica e torna incompreensível a menorização que o JPeC empreende: este escroque não é apenas um apoiante de Obama, nem um Pastor da igreja dele. É o seu líder espiritual, uma figura paternal, que lhe proporcionou o momento epifânico mais importante da sua vida (leia-se o Audicity of Hope - a propósito, título da autoria do Rev. Wright), é um mentor político - foi com ele que Obama se aconselhou antes de entrar na corrida, foi a ele que Obama primeiro agradeceu no discurso de vitória após as primárias do Illinois. E tinha um cargo oficial na campanha de Obama.

Mais: Obama fez da sua fé um assunto central da sua campanha - ao ponto de fazer discursos políticos na igreja do Rev. Wright (que está sob investigação do IRS por causa disso). E acabei de scanar um panfleto da campanha de Obama que se confunde facilmente com propaganda religiosa - uma fotografia dele no púlpito, a palavra FAITH em caixa alta a intitular o folheto, etc. Ora, se Obama trouxe a sua fé religiosa para o debate político, é natural e irremediável que ela se transforme num assunto político. E que a mundividência odiosa, violenta, conspiracionista e racista do seu guia espiritual, conselheiro e membro da sua campanha seja questionada.

Assim é legítimo que os eleitores se questionem: como é que Obama frequentou durante 20 anos a igreja de um homem que acredita que o HIV foi inventado pelo governo para promover a limpeza étnica dos negros? Como é que manteve uma relação tão próxima e íntima dele? E, francamente, a maneira como se disassociou provoca justificáveis perplexidades: começou por ser apenas um “crazy uncle”, depois condenou as declarações, depois então saiu da sua campanha. Para alguém que já tinha sido pouco convincente ao demarcar-se do Farrakhan… Diz que nunca teve conhecimento daquele tipo de declarações, que nunca ouviu aqueles sermões. Em 20 anos? Bizarro. E avolumam-se indícios em sentido contrário.

E toda esta história contradiz a fábula que Obama construiu em redor de si próprio: a de um conciliador, a de alguém para lá destas refregas. Isto não é uma questão menor para quem não use uma boa dose de hipocrisia. Aliás, depois da MSM e da esquerda (incluindo a europeia) ter dirigido tantas críticas ao Bush pela proximidade com líderes evangélicos, o que dirão agora?

E com uma legitimidade acrescida sabendo-se que a campanha de Obama nunca teve quaisquer escrúpulos em associar outros candidatos às declarações dos seus apoiantes (desde o John Edwards e os anúncios das 507 que o apoiavam), por vezes de forma completamente desonesta.

Se atingir a nomeação democrata, Obama enfrentará um político que corajosamente declarou: “Neither party should be defined by pandering to the outer reaches of American politics and the agents of intolerance, whether they be Louis Farrakhan or Al Sharpton on the left, or Pat Robertson or Jerry Falwell on the right”. O facto de Obama não ter feito, nem parecer capaz de fazer, uma declaração igual incluindo o Jeremiah Wright e o Farrakhan é reveladora.”

Quanto às consequências, eventualmente poderá ter razão. A MSM trata muito bem o Obama (o que comprova, uma vez mais, a validade da tese Ferraro: os jornalistas têm um poderoso incentivo - fazer a cobertura da eleição do primeiro presidente negro). Mas fosse o McCain (ou mesmo a Clinton) a pertencer a uma igreja que se afirmasse “Unashamedly White”…

No entanto, parece-me claro que o Obama terá de voltar a endereçar o assunto e, desta vez, melhor, de forma definitiva e convincente.

É óbvio que, como sempre, o Senador McCain está mais interessado em discutir ideias, propostas de políticas públicas e as qualificações políticas dos candidatos do que estes assuntos laterais. Uma boa lição para a campanha de Obama, aliás. Mas é legítimo e compreensível que este assunto suscite interrogações entre os eleitores.

Aliás, os efeito são já perceptíveis:

“Seventy-three percent (73%) of voters say that Wright’s comments are racially divisive. That opinion is held by 77% of White voters and 58% of African-American voters. In addressing the issue, Obama warned against injecting race into the campaign .

Most voters, 56%, said Wright’s comments made them less likely to vote for Obama. That figure includes 44% of Democrats. Just 11% of voters say they are more likely to vote for Obama because of Wright’s comments. ”

http://www.rasmussenreports.com/public_content/politics/people2/just_8_have_favorable_opinion_of_pastor_jeremiah_wright

The dialogue about Wright’s controversial comments appears to have had at least a short-term impact on public perceptions of Barack Obama. The Illinois Senator is viewed favorably today by just 47% of voters nationwide. That’s down five points since last Thursday (see recent daily results). The number with an unfavorable view of Obama has risen from 44% on Thursday to 50% today. Among White voters, Obama is now viewed favorably by 43% and unfavorably by 54%.

Looked at from a slightly longer perspective, Obama’s overall favorable ratings peaked at 56% on February 21, shortly after he won the Wisconsin Primary. At that point, Clinton began raising questions about Obama as part of the campaign that ultimately enabled her to win the Texas and Ohio Primaries. Since then, Obama’s net favorability ratings have fallen seventeen points (from plus 14 points on February 21 to minus 3 points today).

http://www.rasmussenreports.com/public_content/politics/election_20082/2008_presidential_election/daily_presidential_tracking_poll

Poderá recuperar, mas terá de fazer algo por isso. A prioridade da campanha de Obama terá de ser endereçar este assunto e então sim, contar com os bons ofícios da MSM.

Respostas

” e que a raça tem sido um dos temas que a campanha de Obama tem utilizado para chegar a esta posição”

Não me preocupei demasiado em explorar esse ângulo mas este artigo resume uma parte substancial do que penso sobre o assunto:
http://www.tnr.com/politics/story.html?id=aa0cd21b-0ff2-4329-88a1-69c6c268b304

“ao contrário do que defendi, que as declarações do reverendo Jeremiah Wright poderão ferir a campanha de Barack Obama”

Em última análise, eu tendo a concordar com o Nuno. Parece-me é que a campanha terá de endereçar o assunto (embora me pareça tarde para conseguir um Sister Souljah moment); e que apenas graças à benevolência com que a MSM tem tratado a campanha de Obama o efeito não será mais grave.

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