Posted by: Nuno Gouveia | Março 22, 2008

Story behind the story: The Clinton myth

Aconselho a ler este excelente artigo de Mike Allen e Jim Vandehei no Politico. Eu inclino-me a concordar com a análise destes dois comentadores. Sejamos honestos: a única possibilidade de Hillary Clinton obter a nomeação é através dos Superdelegados. Será que os dirigentes democratas não vão seguir a vontade dos eleitores? Ou Obama é arrasado nas eleições que faltam e sucedem-se mais casos como o de Jeremiah Wright, ou então será acredito que será o candidato democrata em Novembro. E caso consiga unir o Partido Democrata, será o claro favorito a ser o próximo Presidente dos Estados Unidos. (excelente gráfico do WSJ sobre os superdelegados)

One big fact has largely been lost in the recent coverage of the Democratic presidential race: Hillary Rodham Clinton has virtually no chance of winning.

Her own campaign acknowledges there is no way that she will finish ahead in pledged delegates. That means the only way she wins is if Democratic superdelegates are ready to risk a backlash of historic proportions from the party’s most reliable constituency. Unless Clinton is able to at least win the primary popular vote — which also would take nothing less than an electoral miracle — and use that achievement to pressure superdelegates, she has only one scenario for victory. An African-American opponent and his backers would be told that, even though he won the contest with voters, the prize is going to someone else. People who think that scenario is even remotely likely are living on another planet.

As it happens, many people inside Clinton’s campaign live right here on Earth. One important Clinton adviser estimated to Politico privately that she has no more than a 10 percent chance of winning her race against Barack Obama, an appraisal that was echoed by other operatives.

Respostas

Suspeito que o que se passa é a sobrevivência de um reflexo mental herdado dos tempos em que as primárias democratas eram WTA: como Hillary “ganhou” os maiores estados (coisa que, no modelo actual das primárias, é quase absolutamente irrelevante), o que, há uns 20 anos, lhe daria a nomeação de bandeja, é dificil às pessoas assimilar a ideia que ela, para todos os efeitos, já perdeu.

Caro Nuno Gouveia,
Acompanho seu trabalho: excelente!
Com esse artigo voce foi no ponto central. A propósito, escrevi há dias o seguinte comentário que remeto para voce:

Os superdelegados e o dilema democrático americano

A grande questão das eleições americanas, hoje, é a seguinte: Mr. Obama está na frente de Ms. Clinton no que se refere aos candidatos eleitos, permanecendo atrás da senadora quando se trata dos superdelegados. Ora, se essa questão permanecer dessa forma, a decisão será tomada na Convenção Democrata. O dilema político é que esta Convenção escolha o candidato por meio dos superdelegados, não eleitos.
De que valeria, então, o voto dos eleitores? Configurar-se-ia a situação constantemente denunciada pelo Sem. Obama, de a política americana ficar submetida ao “esquema de Washington”, isto é, as decisões políticas que vinculam a maioria serem tomadas por um pequeno número de pessoas.
A CNN já tinha captado essa questão, dias atrás, citando a frase de Mr. Obama:
“Os problemas são grandes e as mudanças também são muito grandes para jogar o velho jogo de Washington com os mesmos velhos jogadores de Washington e esperar que disso resulte uma diferença”. Disse Obama para uma multidão em Richmond, Virgínia. “As pessoas esperam virar a página. Elas desejam escrever um novo capítulo na história da América”.
Site: http://edition.cnn.com/2008/POLITICS/02/10/feb.9.contests/index.html, em 10/02/2008

Ora, é evidente que se a indicação do candidato democrata à eleição presidencial dos EUA for decidida pelos superdelegados obviamente que se colocará a seguinte questão: e os votos dos eleitores de nada valem? Pra que servem as primárias se, no final, são delegados não eleitos que decidem? Realmente, nesse caso, estaria em cheque todo o sistema pré-eleitoral para escolha de candidatos na América. Além disso, um grande sentimento de frustração tomaria conta de boa parte dos eleitores que se mobilizaram tão intensamente nesse processo das primárias, repercutindo sobre as fontes de legitimação do poder naquele país.
Assim, o dilema americano se coloca da seguinte forma: se permanecer a diferença entre delegados eleitos e superdelegados, como foi colocado acima, será que estes últimos deixarão que Obama e seus eleitores realmente escrevam “o capítulo novo da história da América”? Ou manterão um modelo em que um pequeno número de pessoas decidem mesmo contra a vontade da maioria?
Joberto

Obviamente que Barack Obama, se nada mudar radicalmente nestas primárias, deverá ser o candidato Democrata. Uma decisão contrária seria dizer aos eleitores que o seu voto não contou para nada, e que quem decide são as elites do partido, um enorme retrocesso na democracia interna conquistada depois da reforma Mcgovern.

As vitórias nos grandes estados de Hillary não significam grande coisa com a distribuição proporcional dos votos. Nas primárias do Texas ela teve mais dois delegados que Obama (nos caucuses perdeu). Obama venceu no pequeno estado do Nebraska com uma margem folgada e teve mais oito delegados que Hillary.

Hillary não desiste porque ainda tem uma réstia de esperança. Para quem passou a última década a trabalhar para chegar à Casa Branca, deve ser difícil assimilar que foi derrotada por um jovem Senador com três anos de experiência na arena nacional. Os Media, a quem interessa este arrastar das primárias, também estão a fazer a sua parte, não ressalvando que a desvantagem de Hillary é quase irrecuperável.

Quem ganha? Nós, os que gostam de seguir este fenómeno político, e claro, os Republicanos, que vêm aumentar de dia para dia as suas possibilidades de vencer as eleições de Novembro.

Assumamos, como hipótese de trabalho, que as coligações eleitorais - e os índices de participação de cada uma - se mantêm estáveis.

Nesse caso, a hipótese da Senadora vencer no voto popular não é trivial. É provável (50/50?, mais?). Caso a corrida se mantenha competitiva até Puerto Rico, e aí se replicarem os padrões de voto dos latinos católicos (não faço ideia se será assim; de qualquer maneira a Senadora é muito popular entre a comunidade puertoriqueña de NY - que constitui para aí 1/4 da população), então não só vencerá como o fará forma relativamente substancial (mantendo-se a tradicionalmente formidável apetência dos puertoriqueños pela ida às urnas) - mesmo excluindo os votos na Florida.

No mesmo pressuposto, diminuirá sensivelmente a vantagem de Obama nos delegados (HRC vence claramente em PA, WV, KY, e PR; em IA os delegados são alocados por distritos e, em voil d’oiseau, parece-me que Obama corre riscos de só vencer em 3 deles: 7,9… 1?). Estes 5 estados valem 370 delegados, 2/3 do que resta.

Assumamos também (mas não é essencial) que em Junho as sondagens mostram a Senadora Clinton melhor colocada para vencer na GE do que Obama (e, podendo não ser nítido ou evidente, é isso que acontece hoje).

Neste cenário - que basicamente só depende da manutenção de coligações de voto que se têm mantido sólidas desde o Iowa (com excepção do Wisconsin) -, a Senadora Clinto não teria um forte caso moral para reclamar a nomeação? Utilizando precisamente os argumentos «democráticos» expostos no comentáriodo Joberto Sales? A vantagem de Obama na contagem delegados dever-se-ia à recusa em efectuar novas primárias em MI e FL, aos delegados recolhidos em caucuses - um sistema electivo muito pouco democrático e que não será utilizado em Novembro -, muitos deles em estados onde terá hipóteses negligenciáveis de vencer nas gerais e a um sistema bizantino de alocação de delegados, em que 200 eleitores no Wyoming valem tanto como 12.000 na California ou 2.000 eleitores num distrito do Nevada valem tanto como 20.000 noutro.

Já HRC teria para mostrar a preferência dos eleitores, a dos votantes democratas (onde já lidera), a dos grandes estados (Obama só ganhou em casa), a dos votantes em primárias, a do apoio da base tradicional democrata - e é esta que vota nos congressistas - e, acessoriamente, uma candidatura mais forte.

Alguém quer tentar explicar:

- porque neste cenário, é tão evidente que os SDs deveriam escolher, ou escolheriam, Obama? Exclusivamente por ter mais delegados? Se os SDs só servissem para ratificar a escolha do candidato que recolhesse mais delegados, não era necessário existirem. Estão lá precisamente para reverterem, caso entendam, a decisão daqueles ( e evitar a repetição de casos como o do McGovern, cuja coligação de voto era, aliás, muito semelhante à de Obama - jovens, extrema-esquerda, pretos). Porque razão deverá um SD apoiar um candidato que só lidera na métrica dos delegados devido a regras técnicas e administrativas, algumas de natureza profundamente anti-democrática e à recusa em contar o voto de dois dos maiores estados da União?;

- ou, em alternativa, porque é a probabilidade da premissa que descrevi no primeiro parágrafo tão baixa que transforma a nomeação da Clinton numa conjuntura tão remota.

Respondendo, em parte mas não satisfatoriamente, à segunda questão, se a narrativa deste artigo do Politico ganhar asas então a probabilidade diminuirá acentuadamente.

Se isso não acontecer e se HRC vencer na PA por uma vantagem superior a 2 dígitos (o que, obviamente, não é nada certo) então as primárias na NC (que será aberta, o que permite o cross-voting) podem ser decisivas: se Obama ganhar de forma folgada, então a Senadora precisará mesmo de um milagre; mas se o resultado for próximo ou a Clinton vencer, as coisas mudam completamente.

HRC ainda não desistiu precisamente porque ainda tem uma possibilidade de arrebatar a nomeação. Certamente não será por capricho. Mas teria de haver uma grande conjugação de factores, a maior parte deles expressos no primeiro comentário de HO.

Mas, ou Obama continua a afundar-se nas sondagens, ou será mesmo difícil ser superado no voto popular. E sem Hillary ter mais votos, será difícil ganhar a nomeação. Mesmo que tenha mais votos, certos sectores do PD, como Nanci Pelosi, já vieram a público defender que deve-se escolher precisamente quem tiver mais delegados (claro que já se percebeu para que candidatura Pelosi se inclina). Claro que a intenção de dar poder aos superdelegados era para poder corrigir alguns erros do processo de nomeação. Mas será que eles vão querer usar esse poder?

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