Publicado por: Nuno Gouveia | Abril 1, 2008

Hillary ainda tem hipóteses?

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Esta é uma pergunta que deve andar a rondar todos aqueles que seguem atentamente esta campanha presidencial. Não falo, obviamente, de alguma imprensa e de comentadores portugueses, que têm demonstrado uma ignorância gritante relativamente a este tema.

Nos últimos tempos tem-se notado alguma desilusão a atingir o campo da senadora Clinton. O seu discurso não tem sido de vitória, mas sim de resistência. Aos constantes apelos para desistir, Hillary tem reafirmado a sua convicção que ainda pode vencer a nomeação democrata. A história dos Clinton é de contornar os obstáculos e derrotar os adversários. Mas desta vez, a sua situação é extremamente grave, ao ponto de haver sinais de derrota na sua facção. Há duas semanas, fontes anónimas do seu staff exprimiram a um jornalista do Politico que acreditavam que Hillary apenas teria apenas 10% de possibilidades de ser a nomeada. Esta semana, o congressista do Mississippi, Emanuel Cleaver, apoiante de Hillary Clinton, confessou a uma rádio canadiana que ficará muito surpreendido se Obama não for o próximo presidente dos Estados Unidos. A sua metáfora foi arrebatadora, e que pode resumir bem o estado de espírito de uma boa parte dos apoiantes de Hillary: “Even though I don’t expect the Kansas City Chiefs to beat the Indianapolis Colts, I cheer for the Kansas City Chiefs”.

Se olharmos para a matemática e calendário, verificamos que as coisas não estão nada fáceis para o seu lado. Faltam realizar-se dez eleições, algumas delas em estados favoráveis a Hillary, como a Pennsylvania, Kentucky, Puerto Rico ou West Virgínia. Mas mesmo que obtenha vitórias estrondosas, já sabemos que não vai recuperar o atraso na contagem de delegados. Mesmo ultrapassar Obama no número de votos parece ilusório, agora que sabemos que o Michigan e Florida não irão a votos novamente. Na questão dos Superdelegados, a sua única esperança de obter a nomeação, as coisas não lhe têm corrido favoravelmente. Desde a Superterça-feira, Barack Obama recebeu o apoio de 64 destes delegados especiais, contra apenas 9 de Hillary Clinton. Se é assim, então porque é que Hillary continua na corrida?

Hillary candidatou-se ao senado ainda Primeira-dama, mas já pensava em regressar à Casa Branca. Passou os últimos oito anos da sua vida a trabalhar para vencer esta eleição presidencial. Nos últimos anos, a imprensa, os media e os próprios colegas de partido, já a consideravam a provável sucessora de George W. Bush. A ambição de Hillary era legitima e tinha razão de ser. E as pessoas de fortes convicções não desistem assim dos seus sonhos facilmente. O problema é que a ambição pode cegar a razão. E quem sairá mais prejudicado será o próprio Partido Democrata. Mas porque é ainda é possível, Hillary não irá desistir. Apesar de ser duvidoso, estes são os factores que considero que têm de acontecer para Hillary ganhar a nomeação: 1) ultrapassar Obama no número de votos; 2) Obama ser atingido por algum escândalo e/ou grave crise, que mine a confiança do povo americano (e consequentemente do partido) em si; 3) Hillary obter vitórias arrasadoras na esmagadora maioria dos estados que ainda vão a votos, nomeadamente neste quatro: Pennsylvania, Carolina do Norte, Indiana e Puerto Rico; 4) por fim, os Superdelegados que têm vindo a atribuir o apoio a Obama mudar de campo.

Gostava de receber as vossas contribuições sobre o que pensam sobre este assunto. Hillary faz bem em continuar? Será que ainda pode ser a nomeada? Como? Estejam à vontade para enviar os vossos comentários.


Respostas

  1. Nuno
    Gostaria de lhe fazer uma pergunta, um pouco fora do tema dessa notícia, talvez possa me responder:

    Nova Iorque tem vice-prefeito?Pesquisei e não encontrei nada sobre o assunto, se tem você sabe o nome dele ou dela?Se não tem caso Bloomberg deixe o cargo(hipotese remota), quem assumiria?

    Um abraço.

  2. Caro Miguel,

    Penso que essa figura não existe. O Mayor é um dos membros do City Council. Penso que quem lhe sucede é alguém desse órgão. Mas não lhe sei responder com certeza…

  3. Eu faço minha a pergunta que o Nuno em tempos fez neste blogue: se a situação fosse a inversa, com Hillary à frente e Obama atrás, há quanto tempo estariamos a ouvir pedidos de desistência ao senador do lllinois?

    Se Hillary fosse à frente, alguma vez ela argumentaria que a corrida deve-se arrastar até ao final para que todos os Estados possam ser ouvidos? Se ela estivesse à frente, alguma vez teria insistido tanto no reconhecimento dos delagados da Florida e Michigan? Se Hillary estivesse à frente com o número de delegados que Obama tem neste momento, quantos superdelegados não teriam já declarado o seu apoio?

    Na minha opinião, o prolongar da corrida democrata deve-se a duas coisas: por um lado a ambição de Hillary, que já provou ser capaz de mesmo muita coisa para conseguir o que quer (lembremo-nos da campanha na Carolina do Sul), por outro a surpresa que foi e está a ser Obama, apanhando desprevenido um aparelho partidário onde os Clintons estão bem instalados e que hesita porque já quase tinha estendido a carpete vermelha para Hillary. E a inexperiência de Obama não ajuda a quebrar a hesitação de um partido que já se tinha acomodado à ideia de um dado candidato.

    Just my two cents.

  4. Nuno,
    Escrevo a partir do Brasil e revelo, antes de adentrar no tema do post, que pelo menos 50%das minhas informações sobre estas eleições americanas vêm do seu blog.
    Sobre as chances de Hillary, concordo integralmente com você. Acho, no entretanto, que ela seria melhor candidata no páreo de novembro.
    Com todas as feridas abertas nestas primárias, já começo a me alinhar com os que entendem que entre Hillary e Obama, o melhor candidato seja mesmo Al Gore.
    Abraços do Brasil.

  5. Hillary parece não ter hipóteses aritméticas, o que leva a que a “onda” passe a estar do lado de Obama, definitivamente.

    Acresce que já toda a gente percebeu que esta luta fratricida já feriu as hipóteses democratas em Novembro, tanto mais que o GOP escolheu o único candidato que, por ter a áurea de independente e centrista, apela aos independentes e, por ser directo e integro (ter “gutts”), apela aos homens WASP operários que poderiam votar democrata. Estados como New Jersey ou Michigan podem deixar de ser azuis, o que é o fim das hipóteses democratas, mesmo que o Obama possa vencer (o que duvido) no colorado ou Novo México.

    O problema é que OBAMA perde, a cada dia que passa, a chama da novidade e vai ficando acantonado ao velho liberalismo. é cada vez mais um Jesse Jackson polido…

    Vai ser atacado impiedosamente pelos republicanos. Chega a Novembro com as mesmas percentagens que o Dukakis…

    Falo por mim, que sempre pensei ser democrata e que agora nem me pareceria impossível votar McCain.

    Continuação do seu excelente trabalho

    Miguel Direito

  6. Ora aqui vai a minha opinião, que não é nada inovadora. Hillary tem muito poucas hipóteses de assegurar a nomeação excepto se houver algum acontecimento inesperado: revelações escabrososas sobre Obama ou vitórias muito acentuadas nas próximas primárias que lhe dêem grande vantagem no voto popular e, uma ou outra, levem os superdelegates a escolherem Hillary.

    Claro que esta indefinição prejudica os democratas, e eles estão a perceber-se disso. Há pouco tempo ainda argumentavam que a disputa democrata era boa porque tirava a atenção da comunicação social de McCain, só se falava de Hillary e Obama. Essa fase já passou e agora cada dia torna mais funda a divisão dos democratas (também já passou o tempo em que os democratas gostavam dos seus dois candidatos), os ataques das candidaturas são desagradáveis e só revelam os democratas a rebolarem-se na lama enquanto Mccain paira simpaticamente acima de tudo isto. Mais: mesmo que Obama consiga a nomeação, o que é provável, sai com a imagem de quem não se conseguiu impor facilmente, com a ideia de que as pessoas o consideram o menino bonito só porque não houve tempo de lhe conhecer bem as contradições, de um candidato liberal e nada centrista (como se apresentou de início).

    Dito isto, acho que e a culpa desta confusão democrata não é de Hillary. O sistema do número de delegados proporcionais aos votos traz complicações e dificulta a obtenção do número de delegados necessários, ao contrário do sistema republicanos do winner takes all. Além disto, os caucuses foram uma balbúrdia e andam a ser discutidos em tribunal.

    Há também uma variável que eu não referi: os delegados de Edwards. Chegarão, se ele endorsar alguém, para garantir a nomeação a algum dos candidatos sem necessidade de recorrer aos superdelegates?

  7. Parece evidente que Hillary Clinton não conseguirá vencer Barack Obama em termos de delegados eleitos.

    Apostará ainda numa reviravolta por via dos Superdelegados cuja tendência de voto será ainda, nesta fase, uma tendência mista, algo indefinida e que poderá cair para um ou outro candidato.

    Compreendo que – não obstante os danos que o arrastar da incerteza poderá provocar em Novembro ao candidato Democrata – seja muito difícil a Hillary Clinton abdicar de disputar a nomeação até ao fim (ainda hoje, veio reiterar que não desistirá!…), uma vez que não é líquido que a vantagem de Obama se mantenha quando forem contabilizados todos os Superdelegados (isto apesar do relativo equilíbrio que parece prevalecer actualmente).

    Talvez a “super-estrutura” do Partido devesse ter já actuado, no sentido de conciliar posições, procurando minimizar o efeito dos ataques entre ambos os candidatos, ou até, no limite, antecipando o desfecho destas Primárias, por exemplo “impondo” uma data-limite para que os Superdelegados “bloqueassem” o seu apoio (julgo que haverá essa ideia para 1 de Julho… só que, aí, poderá ser já demasiado tarde).

    A sensação que retenho é de que Obama será o candidato, mas, porventura, a cada dia que passa, cada vez mais desgastado e com as hipóteses de vitória em Novembro a reduzirem-se.

    Não me surpreende que surjam cada vez mais vozes a apelar a uma candidatura de consenso (outra vez o “Plano B”, com Al Gore), apesar de também para este cenário, se ter já perdido tempo em demasia.

  8. Pois é,

    Parece que estamos todos de acordo que as hipóteses de Hillary são diminutas, apesar de não ser impossível lá chegar. E claro, que este prolongar da corrida apenas prejudica os democratas.

    Uma das coisas que este blogue tem é leitores interessantes, inteligentes e acima de tudo, muito informados sobre a realidade política americana. Tenho-o constatado pela esmagadora maioria dos comentários feitos aqui. E ainda pelos emails recebidos. Uma boa pergunta é: que andam os media portugueses a fazer nesta cobertura? Andam a desinformar? Tenho tido algumas conversas com pessoas menos atentas ao fenómeno político americano e a maior parte delas converge no pensamento que isto está ainda muito equilibrado. Não está: pende para um dos lados…


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