A vitória de Barack Obama nestas primárias democratas terá certamente muitas causas, algumas das quais por mérito próprio, outras demérito dos adversários e também devido ao contexto eleitoral. Vou deixar aqui algumas delas, havendo certamente muitas mais.
Olhando para as últimas eleições primárias, raramente iniciamos um processo com um favorito tão claro como a senadora Hillary Clinton o era há um ano atrás. A sua candidatura era tida, pelos comentadores e analistas, como quase inevitável. Apenas os apoiantes mais fiéis de Obama, e alguns observadores mais pessimistas, acreditariam que ela não seria a nomeada. Hillary tinha a fama, o dinheiro, o Partido Democrata e mais do que isso, fazia parte da fabulosa máquina eleitoral Clinton. Apesar disso tudo, acabou por perder a nomeação para Obama.
A guerra do Iraque acabou por retirar apoio nas facções mais liberais Clinton. A senadora de Nova Iorque apoiou a invasão do Iraque em 2003, o que a colocou em maus lençóis no início destas primárias. Apesar de ter deixado de ser um dos principais temas desta campanha, o movimento anti-guerra foi um dos importantes apoios de Obama, que sempre tinha sido contra esta guerra, ao contrário de Clinton.
Um dos grandes embates nesta campanha foi a luta entra a mudança que Obama representava, contra a experiência de Clinton. No actual contexto, a sociedade americana, especialmente o eleitorado democrata, pede por mudança. Também aqui a decisão pendeu para Obama. Este era uma cara nova na arena nacional, tendo inspirado milhões de pessoas a entrar no processo político. O seu apelo, com um misto de John Kennedy e de Bill Clinton de 1992, conseguiu motivar o Partido e os Estados Unidos. A sua oratória fabulosa colocou as pessoas a sonhar, e foi isso que derrotou Clinton. Os percalços surgidos nos últimos dois meses abalaram um pouco essa realidade, mas não foi suficiente para terminar com a utopia.
A própria campanha, e a forma como ela foi conduzida por ambas as partes, não pode ser desligada desta vitória. O Iowa seria sempre um território difícil para Clinton. Em 1992, o seu marido não competiu neste estado, concentrando as suas forças no New Hamsphire. Apesar de algumas discordâncias internas, Clinton tentou vencer o Caucus, com os resultados que se conhecem. Obama venceu, apropriou-se de uma dinâmica nacional e cresceu como candidato. Esteve quase para assegurar uma vitória no New Hampshire, o que teria sido determinante para arrumar com a nomeação mais cedo. A vitória de Obama na Carolina do Sul, por mais de 20 pontos percentuais, acentuou o seu carácter de vencedor, entrando na Superterça-feira em crescendo. Este triunfo foi também importante para assegurar o voto esmagador dos negros, o que lhe conferiu uma vantagem assinalável em muitos estados. A organização da sua máquina eleitoral, com muitos voluntários no terreno e uma notável estrutura descentralizada, granjeou-lhe vitórias importantes em caucuses e primárias na Superterça-feira. Apesar de ter sido derrotado na maior parte dos grandes estados, obteve mais delegados nesse dia. Tudo estava preparado, da sua parte, para continuar a competir depois dessa data. A antiga Primeira-dama demonstrou uma inabilidade inacreditável, ao conceder dez derrotas consecutivas no mês de Fevereiro, oferecendo a Obama uma vantagem que este nunca mais desperdiçou. A dinâmica da corrida alterou-se, e a máquina do DNC aproximou-se de Obama, oferecendo-lhe muitos Superdelegados depois de 5 de Fevereiro. Hillary recuperou a sua áurea, e venceu os importantes estados do Texas, Ohio e Pennsylvania, mas nunca mais chegou perto de Obama, em termos de delegados. E era isso que interessava, independentemente do spin da sua candidatura.
O dinheiro também foi fundamental nesta corrida, e Obama conseguiu bater Clinton em cerca de 50 milhões de dólares (300-250). Nos últimos meses da campanha, a diferença de recursos foi abismal, com Clinton a ter de recorrer ao seu próprio dinheiro (fala-se em mais de 20 milhões de dólares) para poder continuar a competir. Uma grande vitória de Obama, que conseguiu estas somas fabulosas quase exclusivamente de pequenos contributos, a esmagadora maioria vinda da Internet.



































Como é habitual, excelente análise. Eu destacaria 4 pontos:
1) Obama e a sua equipa construíram uma organização formidável. Sao questões que passam sob o radar dos media e tendem a ser esquecidos rapidamente, mas a “implantação no terreno” foi muito competente. O número de “sedes de campanha” abertas em todos os Estados, a mobilização de voluntários, a organização de pequenos e grandes eventos um pouco por todo o país, orientada por anónimos, foi decisiva para tornar conhecido um candidato estranho para muitos eleitores. No meu entender, este foi o seu ponto mais forte.
2) Ligado a este, a estratégia global das primárias (orquestrada por Axelrod?). Perfeito, em todos os aspectos: apostar forte no Iowa, chamar os holofotes dos media, sobreviver à Super Terça-Feira (onde os Estados em questão eram favoráveis a Hillary) e desferir um golpe mortal nas eleições pós-Super Terça-Feira (para a qual Hillary não tinha absolutamente nenhum plano).
3) A aposta nos “caucus”, suplantando mais uma vez a inabilidade de Hillary (que os desvalorizou de forma ridícula). Excelente mobilização dos activistas e a percepção de que se podiam ganhar muitos delegados em Estados “menores”. Tratava-se apenas de 12% dos delegados eleitos? Pois bem, Obama conseguiu ganhar aí quase 200 delegados de vantagem – precisamente a diferença matemática entre as duas candidaturas.
4) Evidentemente, a notável campanha de angariação de fundos, baseada numa estratégia nova: os “pequenos doadores”, via Internet. Mais uma vez, bateu Hillary aos pontos.
Por: José Gomes André em Junho 4, 2008
às 3:26 pm
Concordo em absoluto.
Outra vítima de Obama foi John Edwards, que viu o efeito novidade, de que gozou em 2004, passar para aquele.
Estas primárias terão três casos de futuro estudo teórico: A campanha de Obama, no sentido positivo, e a de Giulliani e Hillary, para se aprender com os erros.
Miguel Direito
Por: Miguel Direito em Junho 4, 2008
às 5:00 pm
Concordo Miguel,
Obama fez história pela positiva, e Hillary e Giuliani pela negativa. HRC corrigiu alguma coisa nos últimos meses, mas aí já tinha perdido as primárias.
Por: Nuno Gouveia em Junho 4, 2008
às 5:04 pm
[...] razões da vitória de Obama II Uma contribuição de José Gomes André, nos comentários, sobre a vitória de Barack [...]
Por: Algumas razões da vitória de Obama II « Eleições Americanas de 2008 em Junho 4, 2008
às 5:08 pm
Olha Barack Hussein Obama, venceu as eleições americanas justamente por causa da péssima admistração ocorrido durante o governo Bush.
Os gastos militares que foram esbanjados durante a guerra no Iraqui, que é uma das consequências dessa crise,foi uma das razão que facilitou o primeiro presidente negro a ser eleito o presidente dos USA.
Por: Malam djau em Janeiro 31, 2009
às 10:45 pm
Olha Barack Hussein Obama, venceu as eleições americanas justamente por causa da péssima admistração ocorrido durante o governo Bush.
Os gastos militares que foram esbanjados durante a guerra no Iraqui, que é uma das consequências dessa crise,foi uma das razão que facilitou o primeiro presidente negro a ser eleito o presidente dos USA.
Malam djau estudante de ciência socias
Por: Malam djau em Janeiro 31, 2009
às 10:47 pm