Publicado por: Nuno Gouveia | Abril 13, 2008

“Bittergate”

Há uns meses, Barack Obama era considerado como o mais independente democrata, que seria capaz de roubar muitos votos republicanos e independentes. Os “Obamacans” eram um das imagens de marca desta candidatura, que entusiasmou a América e o mundo. Apesar de continuar a ser o favorito à nomeação, e consequentemente, a vencer as eleições de Novembro, Obama tem cometido pequenos pecados que podem vir a prejudicá-lo.

Concordo com o comentário de José Gomes André quando diz que uma campanha presidencial é extremamente longa, e o debate centra-se, na maior parte das vezes, em não-assuntos. Estas polémicas são exploradas pelos media e pelos adversários, porque não há muito mais para dizer. Os candidatos estão há mais de um ano na estrada, e por vezes desviam-se da linha pré-definida das suas estratégias. Mas nem por isso devem dar azo a estas controvérsias. Analisemos as palavras de Obama.

Ele disse que os americanos estão frustrados com os políticos de Washington e que viram a sua vida andar para trás nos anos de Clinton e Bush; que por não acreditarem nas soluções económicas dos políticos, começaram a virar-se para a religião; que por estarem frustradas começaram a fazer as suas opções políticas baseando-se em assuntos sociais como o direito ao uso de armas, os casamentos homossexuais ou por questões de fé. Acrescentou ainda que compreende que muitas pessoas tenham sentimentos anti-imigrantes e contra acordos de comércio livre, por estarem amarguradas e frustradas com a sua vida.

O “bittergate” pode ser problemático, porque encosta Barack Obama a um discurso muito à esquerda, que pode ser perfeitamente brilhante em San Francisco, Austin ou Nova Iorque, mas que na América profunda pode suscitar sérias dúvidas sobre o seu posicionamento político. Não é por acaso que nos últimos tempos os adversários republicanos tentam associar a candidatura de Obama aos sectores mais “liberais” do Partido Democrata.

O senador do Illinois preocupa imenso os estrategas republicanos pelo seu apelo sedutor ao seu eleitorado mais moderado. O charme da candidatura de Obama “assustou” imenso em Janeiro e Fevereiro, mas agora surgem sinais que pode ser mais favorável a John Mccain enfrentar Obama que Clinton. Não sejamos ingénuos e percebe-se perfeitamente que os republicanos estão a conseguir qualificar Obama como mais um candidato “liberal”, o que intimida uma parte da América. Em 1988, Michael Dukakis chegou a ser o candidato favorito, mas devido a alguns erros próprios, e a uma campanha negativa por parte dos republicanos, acabou por ser mais um George Mcgovern e foi facilmente derrotado por George H. Bush.

Obama precisa de recentrar o discurso, mas estes erros/polémicas/gaffes (Michelle disse que era a primeira vez que sentia orgulho em ser americana, o discurso racista de Jeremiah Wright, a recusa em usar o pin americano ou estes comentários) vão ser material para utilizar nos anúncios negativos dos republicanos, caso ele seja o nomeado. Disso não tenhamos dúvidas.

Claro que se formos analisar verdadeiramente estas situações, aos olhos de um estranho ao fenómeno político americano, não são perceptíveis os erros e até podem ser consideradas ridículas. Mas a política americana é feita, em parte, por estes pequenos fait-divers que conduzem o rumo das campanhas. E os políticos sabem, melhor que ninguém, que podem influenciar o resultado final das eleições. Quando ainda se discutia a questão da famosa visita à Bósnia de Hillary Clinton (não esquecer que foi o próprio Bill que reavivou essa questão), Obama oferece este brinde. Veremos o que se segue…

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Responses

  1. Concordo com o Nuno, é claro que os media e a máquina partidária Republicana vai tentar capitalizar com estas declarações infelizes. Mas quanto ao dito impacto na “América profunda” tenho as maiores dúvidas.

    Primeiro, porque 90% da “América profunda” vota nos Republicanos. O Obama fazer o melhor discurso do mundo ou confessar que é um espião marciano tem um impacto nulo entre este segmento eleitoral.

    Segundo, porque os 10% restantes estão muito mais afastados da realidade política do que se pode pensar. Claro que para os “analistas” e “comentadores” (nos quais nos incluímos modestamente) todas estas declarações são escrutinadas ao máximo, mas o eleitor comum em meados de Abril está-se maribando para os discursos políticos. Os Democratas ainda nem têm candidato!…

    Há umas semanas dizia-se que a “polémica do pastor” iria acabar com a candidatura de Obama. Ora, menos de um mês depois todos os estudos de opinião revelam que o impacto foi quase nulo. E sinceramente, acredito que esta pseudo-polémica vai acabar por ter o mesmo (não)efeito.

  2. Nota adicional: o que dá pena nesta história é mesmo Hillary Clinton. É quase patético assistir aos ataques de Hillary, com um tom de “coitadinha”, falando da sua paixão pela caça, pelo seu amor ao campo, pela sua simpatia pelos pobres e pelo seu fervor religioso… Hipocrisia pura.

    Como se diz neste vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=4G8dRMofHNs&eurl=http://ruralvotes.com/thefield/?p=1037), uma discussão na CNN, quanta ironia há em tudo isto? Obama, abandonado pelo pai e criado em condições adversas, é o “elitista”? E Hillary, que ganhou 110 milhões de dólares em meia dúzia de anos, que vive no “topo do mundo” há quase duas décadas, é a “candidata dos operários”? Meu Deus…

  3. Talvez esta polémicas não venham a ter impacto nas eleições de Novembro. Mas estes pequenos episódios vão contribuir para a imagem que os republicanos vão construir dele como um “liberal” elitista de Chicago. Dukakis e Kerry foram os liberais do Massachussets. Não nos esqueçamos que num país que continua dividido ao meio, pequenas polémicas podem fazer a diferença.

    Sinceramente, até penso que os comentários dele não têm nada de mais. É apenas uma análise social ao sentimento de uma parte da “América”. Claro, que os ataques de Hillary Clinton, como “caçadora”, de profundas convicções religiosas e pessoa do povo também não convencem. Mas também não era o milionário John Edwards que conduziu uma campanha populista? A hipocrisia faz parte da genética da política. Neste aspecto, não há muitas diferenças…

  4. Por outro lado, se este tema começar a exercer muita pressão sobre Obama, ainda sai para os noticiários mais um discurso do candidato à imagem e semelhança do que sucedeu aquando da polémica racial com as palavras de Wright. E, se isso acontecer, o tiro de Hillary ou de McCain pode sair pela culatra. Ou não?

  5. Eu até tenho uma certa dificuldade em perceber as acusações de “elitismo” que têm sido feitas a Obama a propósito desse discurso – quando o li (no post anterior), antes de ler as reacções, o meu pensamento até foi “o Obama está a tentar abandonar a imagem de candidato da esquerda intelectual e apelar à classe operária”.

    E, em termos de juízos de facto (não de juízos de valor), nem vejo grande diferença entre o que Obama disse e o que a direita “populista” (estilo Buchanan) diz.

  6. A respeito da “América profunda”, de ser 90% republicana, etc., depende muito do que definirmos como “América profunda” (se considerarmos que um dos requisitos para ser “América profunda” é votar Republicano, aí a “América profunda” será, por definição, 100% republicana)

    Mas julgo que os swing states (Pennsilvania, Ohio…) até são muito “América profunda”, se usarmos a expressão no sentido de “pequenas cidades do interior”

  7. Caro Miguel, claro que para ser América profunda não é um requisito votar Republicano; isso seria uma inversão dos termos… Não é “América profunda” por votar Republicano; vota Republicano por ser “América profunda”. Ou acha que esse é território Democrata?

    Tomando a definição que o próprio Miguel avançou (“pequenas cidades do interior”) – e que eu subscrevo na íntegra – chegaremos às mesmas conclusões (que 90% da América profunda vota Republicano), pois esse é um segmento geográfico/político muito favorável aos Republicanos.

    A Pensilvânia é um swing state justamente pela ambivalência geográfica que a caracteriza. De um lado Filadélfia, do outro Pittsburgh – onde os Democratas têm 65-70% dos votos. Mas entre estes dois aglomerados urbanos “temos o Alabama”, nas célebres palavras de um comentador. Pequenas cidades, eleitorado rural, conservador, fortemente Republicano.

  8. E o problema da edicao, se lermos o discursso inteiro de Obama vemos umas tese corajosa: que a falta de um discursso economico que engage a midwest working class, esse segmento do eleitorado fundamental pra os democratas acabam votando em “questoes de fe” que fogem a cotidiano imediato. Claro que ninguem gosta de ser chamado de amargo e ver suas conviccoes tao pobremente questionadas. O papel de palhaco no entanto, ficou com a Hillary, que em vez de admitir que grande parte da culpa por esse estado de coisas (estagnacao economica no midwest, fabricas indo pro estrangeiro) e da politica economica do maridao nos anos 90, fica falando como seu avo operario a ensinou a atirar quando ela era pequena e otros populismo do tipo

  9. Concordo com José Gomes André, e acho que grande parte da população americana sabe “que Hillary ganhou 110 milhões de dólares em meia dúzia de anos, que vive no “topo do mundo” há quase duas décadas”

  10. “Tomando a definição que o próprio Miguel avançou (”pequenas cidades do interior”) – e que eu subscrevo na íntegra – chegaremos às mesmas conclusões (que 90% da América profunda vota Republicano)”

    Estamos a falar de concelhos ou de pessoas?

  11. Mas as duas coisas são exclusivas? Fiquei baralhado, Miguel. A minha ideia, suportada pelos resultados, é que os Republicanos têm votos esmagadores nas áreas rurais. Diria pois que nos concelhos de natureza rural (as “tais pequenas cidades do interior”), os Republicanos usufruem do apoio da maioria das pessoas. Tem opinião diferente?

  12. A minha questão é se estamos a dizer que 90% dos condados rurais são maioritariamente Republicanos, ou se 90% dos eleitores desses condados são Republicanos (imagino que seja no primeiro sentido).

    É verdade que se estivermos a falar de estados (estilo Wyoming) que sejam todos eles “América profunda” isso é irrelevante; mas, em estados de transição não é indiferente para os Democratas perderem por muitos ou por poucos votos nas pequenas cidades (pode fazer a diferença entre ganhar ou perder o Estado)

  13. Obrigado pelo esclarecimento. Estou de acordo consigo, claro que numa eleição equilibrada como a que se prevê todos os votos serão importantes. Eu apenas quis referir que me parecia exagerado dizer que as declarações de Obama teriam um enorme impacto no eleitorado.

    Primeiro, porque o eleitorado urbano (que perfaz a maioria do eleitorado votante nos Democratas) não acha nada escandaloso o que Obama disse. Segundo, porque o eleitorado “rural” não só é menos expressivo como à partida já não é propriamente “território Democrata”.

    Mas claro que se Obama não conseguir ser competitivo MESMO nessas áreas rurais no Wisconsin, Ohio, Pensilvânia e Michigan terá sérias dificuldades em Novembro.

  14. Há quem diga que o grande problema do Partido Democrata foi ter perdido força entre a classe operária branca, à medida que a politica norte-americana foi-se centrando mais nas questões “fracturantes” e menos na economia; a ser assim, perder ou ganhar uma certa “América profunda”, a das pequenas cidades industriais (e parece-me que era sobretudo esse o grupo referido por Obama), pode ser relevante para os Democratas.

    Mas também não sei como esses operários da “rustbelt” reagirão aos comentários de Obama (num furum a que eu dei uma olhada, as reacções dos comentadores que se diziam “nascidos e criados em pequenas cidades” oscilavam entre o “Obama demonstrou que é um liberal elitista de Hollyood e de jantares de caviar” e o “finalmente alguém que nos compreende”)

  15. Bela discussão.

    Tem razão o Miguel Madeira quando diz que um dos problemas dos democratas é terem descolado de uma das suas alas tradicionais, que era a dos “homens operários das pequenas cidades”, sobretudo os católicos, que sempre foram socialmente conservadores ou, pelo menos, não são liberais.

    Um livro engraçado sobre isto é o “Why the Democrats are Blue: Secular Liberalism and the Decline of the People’s Party ” de Mark Stricherz, que bem explica a opção dos democratas pelo liberalismo universitário, desde pelo menos 1968, e o fim da coligação do New Deal.

    O voto democrata é agora muito mais urbano, a nível de condados, e “litoral”, a nível de Estados. Negligenciar o interior profundo foi um erro. Somente um democrata economicamente populista e moderado a conservador nos valores poderá ganhar eleições, na minha modesta opinião. Se vier de um estado estilo Virginia (não muito sulista mas também pouco liberal) terá ainda mais hipóteses.

    Na convenção democrata de 1968 assistimos a tumultos entre, de um lado, jovens liberais ricos e, de outro, jovens policias pobres e socialmente conservadores, os democratas escolheram os primeiros, perderam os segundos, que passaram a votar, uns anos depois, em Reagan (que também fora democrata…)

    Vemos assim que o Obama vai perder muitos estados azuis (New Jersey ou Michigan) e outros tremidos, como o Main ou New Hampshire.

    Os Clinton estão a descobrir quantos inimigos têm junto dos democratas. E o povo está farto de dinastias.

    Abraços

  16. Desculpem lá, mas vocês pensam que o Obama estava a referir-se aos eleitores republicanos? Ele estava precisamente a explicar porque tem tantas dificuldades em penetrar numa demografia que tem votado em Clinton.

    90% de republicanos? Quem é que o José Gomes André pensa que vota nos democratas na Pennsylvania? Os gays e bien-pensants que bebem lattes no Starbucks e os junkies dos subúrbios de Philadelphia? Esse também, claro; mas essencialmente o proletariado, o little guy das small-towns. Esse é que é o voto que ele tem tido dificuldades em conquistar, e esses é que são religiosos, pro-guns, anti-trade, xenófobos. (Por acaso, não são exactamente muito religiosos ou anti-imigração, a la Bible Belt: na PA esse eleitorado é essencialmente católico, descendente de imigrantes do leste europeu – o Obama, também aqui, não sabia exactamente do que estava a falar). Trata-se da Pennsylvania, o estado do Gov. Casey que foi impedido de discursar na Convenção Democrata por ser demasiado pro-life e o Jack Murtha, que é provavelmente o congressista preferido da NRA.

    Miguel, já ontem uns amigos meus de esquerda argumentaram precisamente aquilo que escreveu ali em cima – que as declarações de Obama se enquadravam na linha do populismo e do jacksonianismo nativista. Algo que poderia ser dito pelo Buchanan, pelo William Jennings Bryan, pelo Huey Long. Receio que tenham abandonado o marxismo mas que marxismo não vos tenha abandonado. Os jacksonianos a explicarem a religião via dialéctica da alienação? O que Obama fez foi precisamente uma espécie de psicanálise daquilo que ele obviamente considera uma sociopatia – aquilo em que o Buchanan & al acreditam.

    Quanto ao post, e ao tom geral dos comentários, já tentarei escrever alguma coisa. Só têm alguma razão quanto aos efeitos eleitorais – mas não devido ao facto de o assunto ser um fait-divers, ou insignificante de per si.

  17. Caro HO, a expressão “90%” terá sido exagerada e tinha objectivos retóricos, mas não fiquei convencido pelo seu argumento de que uma grande fatia dos votos Democratas na Pensilvânia vêm das “small-towns”.

    Os dados indicam precisamente o contrário. Eleição presidencial de 2004: Kerry triunfou apenas em 12 dos 67 condados, e mesmo assim venceu no Estado. Porquê? Porque teve 80% dos votos em Filadélfia, e triunfo em Erie, Allegheny e Delaware, os centros urbanos! Nestes quatro condados obeteve 1 milhão de votos, mais de um terço da sua votação total!

    E nos condados pequenos? Vitórias claras de Bush e resultados pobres de Kerry… Se excluíssemos os 4 condados referidos, Bush teria ganho a Pensilvânia por mais de 6%…

    Não sei se é tecnicamente possível, mas espreite este mapa com os resultados nos condados: uma enorme mancha vermelha na zona rural e apenas umas pontinhas azuis (onde ficam situadas Filadélfia e Pittsburgh): http://en.wikipedia.org/wiki/Image:Pennsylvania-2004-by_county.PNG

  18. José Gomes André,

    Mas onde é que o Kerry foi buscar os restantes 2/3 dos votos? Ao proletariado das pequenas cidades industriais, ao Lehigh Valley, à Coal Region, que o Clinton recuperou para os democratas. É essa a zona economicamente deprimida pelo fim da indústria pesada, não as áreas rurais. São os eleitores com rendimentos inferiores a $60.000 ano, com uma educação high school ou menos, católicos, pro-life e pro-guns e extremamente proteccionista. Era destes que o Obama falava, e é uma demografia chave na PA para qualquer candidato democrata (e note que o Kerry nem conseguiu um resultado decisivo entre eles; o Bush é que perdeu os votos dos republicanos upscale e moderados dos exurbs de Pittsburgh e Philadelphia). Elegem normalmente democratas, e, com algumas excepções, democratas pro-life e pro-guns. Um candidato democrata que perca uma grande fatia destes votos, à Mondale ou Dukakis, fica reduzido a vitórias em Philadelphia, Pittsburgh e Erie , com o voto dos pretos e dos liberais cosmopolitas e perde o estado.

  19. A polémica de Obama também aqui tem suscitado muitos comentários. O que significa que realmente estas declarações estão a dar que falar. Ou pelo menos, as interpretações que foram feitas. Acima de tudo, este discurso foi um erro estratégico de Obama. A radicalização da campanha de Obama num discurso mais à esquerda será um erro, que lhe poderá custar caro em Novembro. O último presidente democrata foi eleito ao centro e todos os que vinham da ala esquerda foram totalmente esmagados nas urnas (George Mcgovern e Walter Mondale). Michael Dukakis também foi derrotado por ter sido arrumado à esquerda pelos republicanos. Isto é um facto.

    Caro Miguel Madeira,
    As acusações de elitismo não seriam feitas em Portugal. Mas quando um candidato assume que os “outros” viram-se para a religião ou para as armas, porque estão amarguradas com a sua vida económica, não será menosprezar as crenças religiosas das pessoas? “A religião é o ópio do povo” não é uma frase elitista para aqueles que a consideram como central nas suas vidas? Uma afirmação deste tipo em Portugal talvez não levantasse polémica, mas nos Estados Unidos….

    Sobre a América profunda:
    Também não considero que 90% vote Republicano, apesar de ter lido que era em sentido figurado. O problema de Obama, e ai concordo com HO, é que lhe tem escapado o voto dos Blue Collar Workers, os tais com menos formação e menos posses económicas. Quem se relembrar das votações que já tivemos, lembremo-nos que Obama, normalmente tem tido melhores resultados nas cidades e Hillary nos condados rurais. Como disse o Miguel Madeira, as classes menos favorecidas foram atraídas pelo discurso conservador de Reagan, que abandonaram o Partido Democrata e começaram a votar no GOP. Se o voto era ditado por questões económicas, estas pessoas tenderiam a votar nos Democratas. Mas como estas classes são tendencialmente conservadoras e têm votado segundo as suas posições sociais. Bill Clinton ganhou duas eleições porque tinha um discurso moderado, e em muitos aspectos, correspondia aos anseios destas pessoas (segurança na escola, luta contra a violência na TV, luta contra droga, etc). Por isso concordo com a ideia de Miguel Direito, e é por isso que estas declarações de Obama lhe poderão ser prejudiciais. Ele tem de centrar o seu discurso, pois os últimos acontecimentos mostram que pode ficar refém da esquerda. Também concordo que isto não será um fait divers nesta campanha. Muitos menos até Novembro

  20. Eu não qualificaria as declarações de Obama como uma gaffe – pelo menos não na acepção tradicional, embora certamente como um tipo muito especial de gaffe, aquele em que os políticos dizem aquilo em que acreditam mas que, por razões eleitorais, escondem. Nem um fait-divers, já que classificar como tal a expressão de uma mundividência marxista por parte de um candidato presidencial é abusar repreensivelmente do direito à bonomia.

    Neste post o Nuno recorre a uma versão adocicada das declarações de Obama – este post já é um produto do spin de Obama e dos media. É uma análise do que Obama disse ontem, não do que afirmou em San Francisco. Este texto do VDH explica bem as diferenças (que nem são especialmente subtis): http://corner.nationalreview.com/post/?q=ZDA5YTc3YmJjM2U2NTdhNDJhYTFhMDk1YmU3ZTIxOTI=
    E é por isso mesmo, pelo grau de protecção de que Obama goza (outro indicador precioso: a forma como este affair começou imediatamente a ser enquadrado, pela MSM e pelos punditt, como um “ataque” da Senadora Clinton e do GOP), que eu concordo que os efeitos eleitorais não serão severos. Mas exclusivamente por essa razão.

    Já as originais são um óptimo e esclarecedor exemplo prático da dialéctica marxista: a explicação dos hábitos, ideias, cultura, etc. (a superestrutura, no jargão da seita) como uma reprodução das contradições da esfera da produção material, da economia (a infra-estrutura, comme ils disent). A religião, por exemplo, seria assim um produto da alienação da consciência – “Die Religion ist das Opium des Volkes”, na famosa formulação. Foi isto que Obama explanou – não motivações de voto. É claro que as pessoas das small-towns da Middle America não se tornaram religiosas quando as fábricas de aço começaram a fechar, nem se transformaram em defensoras da 2ª Emenda por estarem desempregadas (já agora, mesmo que assim fosse, a referência à Pennsylvania seria um pouco descabida: o desemprego está pouco acima dos 4%). É uma tese ainda popular em Harvard,em San Francisco, na Europa e outros pardieiros, certamente. Mas por alguma coisa Obama a apresentou num jantar com bilionários – vedado as jornalistas e onde era proibido o registo de declarações, não numa pequena cidade do Midwest (onde ele é apaixonadamente anti-trade). O problema para Obama é que começa a ser demasiado evidente o abismo entre a persona que ele tentou construir – o conciliador, o compreensivo – e quem ele realmente é: mais um liberal proto-marxista e um que se arma em psicoterapeuta da nação. De um ser etéreo e semi-divino que pairava acima do pântano da luta política transformou-se, progressivamente, num políticos como os outros – um que se compromete por escrito a fazer uma coisa mas depois faz outra; e agora no típico político liberal e urbanítico, que fala com condescendência dos seus compatriotas com valores culturais diferentes dos dele e que julga que o “progresso” livrará as pessoas daquilo que ele entende como sintomas de atraso e incivilidade, a necessitarem de correcção.

    Ou seja, se há uns meses era necessário desmontar a barreira que existia entre Obama e as ideias políticas que ele defende – à esquerda de praticamente toda a gente no mainstream político norte-americano, agora já não: transformou-se no seu mais emblemático representante.

  21. Uma nota pessoal: naturalmente, nunca fiquei entusiasmado com o Obama. É e sempre foi um político muito medíocre e que defende ideias bastante diferentes das minhas. Mas os políticos nunca me suscitam sentimentos muito fortes; por outro lado em raríssimos momentos senti qualquer tipo de antipatia por um deles, mesmo daqueles em relação aos quais estou nos antípodas políticos. Regra geral gosto de políticos e, violando o zeitgeist, tenho-os em boa conta.

    Pessoalmente, não fiquei incomodado com o affair do Reverendo – não foi exactamente inesperado e percebo e aceito as motivações dele (do Obama). Serviu essencialmente para medir o double-standard de que goza Obama: fosse um político branco a pertencer a uma igreja neo-segregacionista e a ter um racista conspiracionista como guia espiritual e conselheiro político nem as eleições para presidente da associação de pais ganhava. Mas nunca esperei que um ambicioso jovem político negro de Chicago se convertesse ao Catolicismo. As coisas são como são e a política nem sempre é bonita. Do outro lado também há quem tenha de aturar semanalmente as patetices teológicas dos evangélicos e o infindável aborrecimento de jantares rotary semanais. A man’s gotta do what a man’s gotta do.

    Ele também fez o que tinha a fazer com o discurso – o único aproveitável que já produziu (pelo menos não foi tão absurdamente auto-referencial como os de costume, conseguiu acrescentar qualquer coisinha ao ethos), papagueando a imundície verbal produzida por esse sphincterus maximus da academia que são os Estudos Afro-Americanos (designação capciosamente enganadora, a parte dos estudos). Discordei de todas as linhas, mas enfim, era o que ele tinha de dizer. A referência à avó, apesar da desfaçatez (e de poder ser legitimamente interpretada como uma sacanice), foi admirável.

    Mas estarreceu-me a referência a Faulkner, à frase do Requiem for a Nun- pela forma desonesta como perverteu as palavras daquele. Faulkner diagnosticou, e bem, uma corrosiva patologia social na sociedade sulista, um desvio, um corpo estranho e canceroso, às nossas tradições morais ante bellum, e apontou a necessidade de a ultrapassar – no sentido da história tanto ser feita de memória como de esquecimento, a la Renain, propondo algo como uma “paz dos bravos”; Obama fez, e faz, a apologia do contrário – o uso do ressentimento como desculpabilização do ódio e da paranóia. Faulkner falava do futuro, e de um teste moral que tínhamos obrigação de passar; Obama do passado e de como devemos ser compreensivos para quem chumba no teste. A tese de Obama não me choca em particular, mas era escusado recorrer ao auxílio do Faulkner. Nessa passagem foi a primeira vez que senti alguma antipatia pessoal por um político – embora passageira.

    Também me deixou indiferente o comentário do “typical white person”. Foi de extremo mau gosto e revela um fundo racista, mas a maioria dos políticos democratas, ou a maioria dos graduados de Harvard, acredita mesmo que o “branco típico” é racista.

    Depois deste episódio… screw this guy. Não tenho os marxistas em má conta; tão pouco marxistas que escondem que o são; muito menos quem acredita na dialéctica marxista, uma tese intelectual muito respeitável. Até aprecio moderadamente o snobismo, que quase sempre traz mais benefícios do que malefícios à civilidade; e simpatizo francamente com o elitismo: um dos problemas actuais da América é o suicídio social das elites, não qualquer excesso de protagonismo. Para cripto-marxistas que provavelmente não são sequer suficientemente letrados para perceberem que o são e que para mais conseguem ser petulantes, hipócritas, armados em grandes educadores das massas e em médicos de almas (Obama will fix your souls, como dizia a mulher dele, não era?) e que para mais têm a extraordinária autoridade de quem nunca fez nada na vida sem ser política é que não tenho pachorra.

    Com esta história o rapaz pode não ter perdido muitos amigos – mas ganhou uns quantos inimigos. E tenho a certeza que cometeu a proeza de ultrapassar o Ted Kennedy e a Hillary Clinton como o liberal que os conservadores adoram odiar. O que numas eleições que os democratas provavelmente ganhariam se nomeassem um cão (e em que as únicas hipóteses de perderem se nomeassem a Senadora seriam teóricas), dá imenso jeito.

  22. […] – Leitor do Blogue Está levantada a polémica sobre o “bittergate” também aqui. Excelentes comentários por parte de alguns leitores, que  elevam o debate neste blogue. O meu […]

  23. A discussão vai longa e não pretendo monopolizar as atenções na caixa de comentários. Sendo assim, fico-me com duas notas adicionais.

    1) Concordo em absoluto que Obama precisa do voto dos “blue collar workers”. O que me parece é que esse eleitorado encontra-se sobretudo nas cidades e duvido muito que se tenha sentido “ofendido” pelo discurso de Obama. A haver mal-estar ele centrar-se-á sobretudo no eleitorado rural, mas penso que aí as possibilidades de Obama já eram poucas, independentemente das suas declarações infelizes… Mas admito que possa estar enganado, como é óbvio.

    2) Caro HO, tenho as maiores renitências em aceitar a sua teoria sobre as alterações eleitorais na Pensilvânia, em particular a ideia de que a deriva liberal nos anos 80 levou os Democratas à derrota e que, pelo contrário, o “centrismo” de Clinton permitiu a vitória em 1992.

    Os dados não são nada consentâneos com esse argumento. Mondale, 1984: 2.228.000 votos. Dukakis, 1988: 2.194.000. Clinton, 1992: 2.239.000! Apenas mais 10 mil votos que Mondale e 40 mil que Dukakis num universo de 3 milhões! Onde está a super-recuperação de Clinton? Onde está o desastre provocado pelo discurso “liberal” e a vitória milagrosa graças à estratégia centrista de Clinton?

    Isso pode valer para outras regiões do país, mas não para a Pensilvânia, pelas razões que expus anteriormente (o grosso dos votos Democratas vem das cidades, liberais e progressivas, não do “Alabama” entre Filadélfia e Pittsburgh).

    Clinton venceu na PA? Pois venceu, mas graças a Ross Perot, que roubou 900 mil votos a Bush em 1992, e 430 mil a Bob Dole em 1996. As vitórias na Pensilvânia não se deveram a uma subida Democrata, mas a uma hecatombe Republicana! (2.584.000 em 1984, 2.300.000 em 1988, 1.800.000 em 1992 e 1996!).


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