Publicado por: Nuno Gouveia | Abril 14, 2008

Comentário de HO – Leitor do Blogue

Está levantada a polémica sobre o “bittergate” também aqui. Excelentes comentários por parte dos leitores, que elevam o debate neste blogue. O meu obrigado a todos. A seguir coloco uma parte dos comentários de HO sobre a mais recente polémica que envolve Obama:

Eu não qualificaria as declarações de Obama como uma gaffe – pelo menos não na acepção tradicional, embora certamente como um tipo muito especial de gaffe, aquele em que os políticos dizem aquilo em que acreditam mas que, por razões eleitorais, escondem. Nem um fait-divers, já que classificar como tal a expressão de uma mundividência marxista por parte de um candidato presidencial é abusar repreensivelmente do direito à bonomia.

Neste post o Nuno recorre a uma versão adocicada das declarações de Obama – este post já é um produto do spin de Obama e dos media. É uma análise do que Obama disse ontem, não do que afirmou em San Francisco. Este texto do VDH explica bem as diferenças (que nem são especialmente subtis): http://corner.nationalreview.com/post/?q=ZDA5YTc3YmJjM2U2NTdhNDJhYTFhMDk1YmU3ZTIxOTI=
E é por isso mesmo, pelo grau de protecção de que Obama goza (outro indicador precioso: a forma como este affair começou imediatamente a ser enquadrado, pela MSM e pelos pundit, como um “ataque” da Senadora Clinton e do GOP), que eu concordo que os efeitos eleitorais não serão severos. Mas exclusivamente por essa razão.

Já as originais são um óptimo e esclarecedor exemplo prático da dialéctica marxista: a explicação dos hábitos, ideias, cultura, etc. (a superestrutura, no jargão da seita) como uma reprodução das contradições da esfera da produção material, da economia (a infra-estrutura, comme ils disent). A religião, por exemplo, seria assim um produto da alienação da consciência – “Die Religion ist das Opium des Volkes”, na famosa formulação. Foi isto que Obama explanou – não motivações de voto. É claro que as pessoas das small-towns da Middle America não se tornaram religiosas quando as fábricas de aço começaram a fechar, nem se transformaram em defensoras da 2ª Emenda por estarem desempregadas (já agora, mesmo que assim fosse, a referência à Pennsylvania seria um pouco descabida: o desemprego está pouco acima dos 4%). É uma tese ainda popular em Harvard, em San Francisco, na Europa e outros pardieiros, certamente. Mas por alguma coisa Obama a apresentou num jantar com bilionários – vedado as jornalistas e onde era proibido o registo de declarações, não numa pequena cidade do Midwest (onde ele é apaixonadamente anti-trade). O problema para Obama é que começa a ser demasiado evidente o abismo entre a persona que ele tentou construir – o conciliador, o compreensivo – e quem ele realmente é: mais um liberal proto-marxista e um que se arma em psicoterapeuta da nação. De um ser etéreo e semi-divino que pairava acima do pântano da luta política transformou-se, progressivamente, num políticos como os outros – um que se compromete por escrito a fazer uma coisa mas depois faz outra; e agora no típico político liberal e urbanítico, que fala com condescendência dos seus compatriotas com valores culturais diferentes dos dele e que julga que o “progresso” livrará as pessoas daquilo que ele entende como sintomas de atraso e incivilidade, a necessitarem de correcção.

Ou seja, se há uns meses era necessário desmontar a barreira que existia entre Obama e as ideias políticas que ele defende – à esquerda de praticamente toda a gente no mainstream político norte-americano, agora já não: transformou-se no seu mais emblemático representante.

Uma nota pessoal: naturalmente, nunca fiquei entusiasmado com o Obama. É e sempre foi um político muito medíocre e que defende ideias bastante diferentes das minhas. Mas os políticos nunca me suscitam sentimentos muito fortes; por outro lado em raríssimos momentos senti qualquer tipo de antipatia por um deles, mesmo daqueles em relação aos quais estou nos antípodas políticos. Regra geral gosto de políticos e, violando o zeitgeist, tenho-os em boa conta.

Pessoalmente, não fiquei incomodado com o affair do Reverendo – não foi exactamente inesperado e percebo e aceito as motivações dele (do Obama). Serviu essencialmente para medir o double-standard de que goza Obama: fosse um político branco a pertencer a uma igreja neo-segregacionista e a ter um racista conspiracionista como guia espiritual e conselheiro político nem as eleições para presidente da associação de pais ganhava. Mas nunca esperei que um ambicioso jovem político negro de Chicago se convertesse ao Catolicismo. As coisas são como são e a política nem sempre é bonita. Do outro lado também há quem tenha de aturar semanalmente as patetices teológicas dos evangélicos e o infindável aborrecimento de jantares rotary semanais. A man’s gotta do what a man’s gotta do.

Ele também fez o que tinha a fazer com o discurso – o único aproveitável que já produziu (pelo menos não foi tão absurdamente auto-referencial como os de costume, conseguiu acrescentar qualquer coisinha ao ethos), papagueando a imundície verbal produzida por esse sphincterus maximus da academia que são os Estudos Afro-Americanos (designação capciosamente enganadora, a parte dos estudos). Discordei de todas as linhas, mas enfim, era o que ele tinha de dizer. A referência à avó, apesar da desfaçatez (e de poder ser legitimamente interpretada como uma sacanice), foi admirável.

Mas estarreceu-me a referência a Faulkner, à frase do Requiem for a Nun- pela forma desonesta como perverteu as palavras daquele. Faulkner diagnosticou, e bem, uma corrosiva patologia social na sociedade sulista, um desvio, um corpo estranho e canceroso, às nossas tradições morais ante bellum, e apontou a necessidade de a ultrapassar – no sentido da história tanto ser feita de memória como de esquecimento, a la Renain, propondo algo como uma “paz dos bravos”; Obama fez, e faz, a apologia do contrário – o uso do ressentimento como desculpabilização do ódio e da paranóia. Faulkner falava do futuro, e de um teste moral que tínhamos obrigação de passar; Obama do passado e de como devemos ser compreensivos para quem chumba no teste. A tese de Obama não me choca em particular, mas era escusado recorrer ao auxílio do Faulkner. Nessa passagem foi a primeira vez que senti alguma antipatia pessoal por um político – embora passageira.

Também me deixou indiferente o comentário do “typical white person”. Foi de extremo mau gosto e revela um fundo racista, mas a maioria dos políticos democratas, ou a maioria dos graduados de Harvard, acredita mesmo que o “branco típico” é racista.

Depois deste episódio… screw this guy. Não tenho os marxistas em má conta; tão pouco marxistas que escondem que o são; muito menos quem acredita na dialéctica marxista, uma tese intelectual muito respeitável. Até aprecio moderadamente o snobismo, que quase sempre traz mais benefícios do que malefícios à civilidade; e simpatizo francamente com o elitismo: um dos problemas actuais da América é o suicídio social das elites, não qualquer excesso de protagonismo. Para cripto-marxistas que provavelmente não são sequer suficientemente letrados para perceberem que o são e que para mais conseguem ser petulantes, hipócritas, armados em grandes educadores das massas e em médicos de almas (Obama will fix your souls, como dizia a mulher dele, não era?) e que para mais têm a extraordinária autoridade de quem nunca fez nada na vida sem ser política é que não tenho pachorra.

Com esta história o rapaz pode não ter perdido muitos amigos – mas ganhou uns quantos inimigos. E tenho a certeza que cometeu a proeza de ultrapassar o Ted Kennedy e a Hillary Clinton como o liberal que os conservadores adoram odiar. O que numas eleições que os democratas provavelmente ganhariam se nomeassem um cão (e em que as únicas hipóteses de perderem se nomeassem a Senadora seriam teóricas), dá imenso jeito.


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