Publicado por: Nuno Gouveia | Abril 15, 2008

Mudanças radicais na “Horserace”?

Há uma tendência nos analistas políticos para exagerar nos efeitos quando algo de relevante acontece numa campanha eleitoral. Nestas presidenciais americanas, essa hipérbole é levado ao extremo.

As últimas eleições foram a 5 de Março, há umas distantes seis semanas. Estes últimos tempos foram dominados por três polémicas: Reverendo Jeremiah Wright, mentira de Clinton sobre a visita à Bósnia, e mais recentemente, o já famoso “Bittergate” (curiosamente, este caso ainda não chegou a Portugal. Estranho!!!).

À parte destas polémicas, quero relembrar o que foi dito depois de 5 de Março. Hillary Clinton estava com um atraso considerável, e considerava-se que ela necessitava de três coisas: vencer na Pennsylvania com larga vantagem; aumentar no número de endorsements de Superdelegados; e conseguir demonstrar que Obama não é elegível em Novembro, convencendo as elites a virarem as costas ao voto popular. Depois destas semanas, será que está em melhor posição? Apesar das polémicas todas, não podemos esquecer que Obama lidera no número de delegados eleitos, na votação e nos estados. E continuo a defender que será preciso um grande escândalo (e o Bittergate, a meu ver, não o foi) para Hillary Clinton ser a nomeada.

Depois deste fim-de-semana, já foram publicadas três sondagens na Pennsylvania. A única que mostra uma erosão grande no apoio a Obama foi a da ARG, que dei conta em post anterior. Nas outras duas (Quinnipiac e Susquehanna) não existe um decréscimo acentuado nas intenções de voto em Obama. Apesar de ter havido quem defendesse que Obama poderia tentar o knockout já na Pennsylvania, esse cenário nunca foi muito realista, pois sempre considerei que Hillary acabaria por derrotar Obama. Provavelmente a diferença será de 10%, a mesma do Ohio. A seguir temos eleições em Indiana e Carolina do Norte. E será aí que vamos ver as consequências deste caso.

Eu não concordo que Obama está enterrado, ou sequer, que não continua a ser o favorito. O spin já começou e a vitimização também. Hillary Clinton tem feito uma verdadeira campanha negativa contra Obama, o que dá argumentos aos apoiantes de Obama. Arianna Huffington escreveu um artigo esta semana a destroçar a Senadora de Nova Iorque, pela utilização das chamadas tácticas republicanas de ataque, comparando-a com Lee Atwater e Karl Rove. Apesar de alguns comentadores quererem fazer já o funeral a Obama (talvez os mesmos que enterraram Hillary no New Hampshire, na Superterça-feira ou a 5 de Março), eu considero que estão a ser apressados. Esta é uma corrida de fundo, que começou logo após as eleições de 2006. Não se pense que o destino de uma campanha presidencial com dezoito meses decorridos termina assim. Pode ter sido um discurso mal concebido. Poderá ter sido prejudicial, mas não será impeditivo de arrebatar a nomeação. Serão os eleitores a decidir isso, e até às eleições de Junho, ainda vamos assistir a muitas destas polémicas. E será improvável assistirmos a uma hecatombe eleitoral de Obama nas restantes dez eleições que faltam.

Agora, contra os republicanos, isso será diferente. Se John Mccain conseguir demonstrar que Barack Obama é mais um candidato liberal, um George Mcgovern do século XXI, então, aquela campanha, que até um cão democrata venceria, poderá transformar-se num pesadelo para o Partido Democrata.

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Responses

  1. Subscrevo as suas observações na íntegra e louvo o Nuno pela moderação que tem adoptado neste blogue, em contraste com muitos dos observadores deste processo.

    Não sei se é por cansaço ou por pouca vontade de seguir uma luta emocionante, mas parece que toda a gente está desejosa de declarar óbitos políticos nesta corrida… Primeiro, Hillary era “inevitável”. Depois, Obama era o front-runner. A seguir vieram os triunfos no Ohio e no Texas e desabou outra vez a candidatura do Obama. E nestas semanas, cada vez que surge uma polémica, logo surgem os comentadores a anunciar o Armagedão…

    Era o pastor que tinha acabado com o Obama, era a história da Bósnia que matara Hillary, agora o “bittergate” (que vai figurar certamente como o maior non-sense político nos anais desta campanha) mudara tudo…

    Continuo a achar que o problema é esta campanha ser especialmente longa e os media estarem ansiosos por notícias frescas (que não existem). Eu também estou entusiasmado e sigo diariamente os acontecimentos, mas há que ser prudente e moderado quando depois fazemos a análise política. Caso contrário, andamos ao sabor do vento e acabamos por não dizer nada de consistente…

  2. Pergunto-me se, no caso de Obama ser o nomeado democrata, estes ataques de Clinton não lhe serão favoráveis. É verdade que os republicanos o atacarão com os mesmos temas, mas será que, por já ter sido confrontado com eles, não será até favorável a Obama que eles surjam agora? É um pouco a mesma argumentação sobre Clinton no início da campanha, em que se dizia que a sua vida já tinha sido tão escrutinada nos 8 anos de presidência do marido, nas campanhas para o Senado e na sua vida em geral, que não haveria forma de a atacarem com escândalos.

    É verdade que estão agora a tentar enterrar Obama sob o rótulo de marxista, elitista, etc, mas isso só lhe dará possibilidade de se defender dos mesmos ataques no futuro, caso seja o candidato. Por outro lado, McCain está a passar por um período de graça, sem que surjam manchas no currículo (muitas delas, pelo menos). Esse período acabará assim que houver nomeado democrata.

  3. Obama está a passar por aquele período negro, que qualquer candidato presidencial tem. Ninguém pense que uma campanha tão longa como esta não é feita de momentos como este. Concordo com o João André quando diz que este momento poderá ser positivo para Obama. E também acho que este período de “rosas” que Mccain está a viver vai terminar quando tivermos um nomeado democrata. Aí começará a verdadeira luta entre os dois partidos. E espero uma campanha muito dura dos dois lados. Não pelos candidatos, mas os dois partidos estão completamente em estado de guerra desde os anos dos Clinton e de Gingrich. E não me parece que vá ser nesta campanha que vá terminar…


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