Publicado por: Nuno Gouveia | Maio 6, 2008

O voto popular II

Comentário pertinente, de José Gomes André, sobre o “voto popular”:

Existem vários problemas no argumento do “voto popular”:

1) Todo o processo de nomeação assenta na lógica da obtenção de delegados e não de votos, tal como o define o próprio Partido. Se o voto popular fosse o critério central, a atribuição de delegados obedeceria apenas a um critério populacional, o que não é o caso.

Na verdade, os Democratas atribuem a certos Estados mais delegados do que a outros (tendo por exemplo em conta os resultados eleitorais recentes, premiando Estados mais “Democratas” que outros). Este facto é desde logo indicador que o voto popular não passa de um factor secundário no processo.

2) Para que o voto popular pudesse ter um significado real, todos os Estados teriam que ter primárias e não “caucus”, pois nestes últimos há muito menos votos. Obama sairia prejudicado? Talvez. Mas nunca o saberemos, já que o Iowa, Maine, Colorado, Idaho e mais uns quantos utilizam o sistema de “caucus” e não de primárias.

Dito de outro modo, os Estados com primárias e com uma grande população adquiririam uma importância enorme num sistema que virtualmente assentasse apenas no voto popular. Ora são esses Estados que Hillary tem justamente vencido. A isto não se chama “alterar as regras a meio do jogo”?

3) Que justiça há em considerar os resultados obtidos em “territórios” que não têm representação no Colégio Eleitoral? Como pode Hillary falar em elegibilidade socorrendo-se de uma eventual vantagem do “voto popular” para a qual contribuirão (e muito, seguramente) os resultados de Porto Rico?

Tudo isto se compreende. Perante a impossibilidade de ultrapassar Obama em número de delegados, o staff de Hillary tem naturalmente recorrido ao argumento do “voto popular”, que além do mais tem um grande peso “psicológico” entre os Democratas depois do que sucedeu em 2000. Mas a campanha de Obama não vai deixar de expor as incoerências deste argumento…

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Responses

  1. Fica-me uma questão neste aspecto. Os delegados que cada estado elege para a convenção democrata são proporcionais aos que são eleitos para o colégio eleitoral na eleição nacional? Ou seja, idpeendentemente de proporções da população, se um estado X eleger 6% dos delegados para a convenção democrata, também elegerá 6% para o colégio eleitoral? Se assim não for, interessaria saber quais as percentagens de delegados que ambos os candidatos teriam se as proporções do colégio eleitoral fossem tidas em conta.

    Relativamente ao voto popular, concordo que entrar por aquele caminho é mudar as regras do jogo. Há até um outro argumento: Hillary terá vencido em estados que até cairão facilmente para os republicanos, independentemente do candidato democrata. E, nos estados democratas, não interessa muito qual o candidato, uma vez que será de esperar a vitória desse candidato (posso estar errado, mas não espero vitória McCain em NY ou na Califórnia, por exemplo). Por outro lado, a escolha de um ou outro candidato poderá ser importante em swing-states e aí o argumento de quem venceu as primárias nesse estado poderá ser importante.

    Seja como for, o argumento do voto popular pode não ser muito importante para os comentadores mas sê-lo-à para os eleitores gerais. É umpouco o caso do que sucedeu com Al Gore em 2000, que terá “ganho” o voto popular (mais votos em todo o país) mas perdeu o voto eleitoral. Não sei se Clinton tem alguma hipótese de ultrapassar Obama em números absolutos de votantes, mas se não tem, então o argumento do voto popular até pode virar-se contra ela.

    Sinceramente, nesta guerra, o que Howard Dean deveria tentar fazer seria obrigar os superdelegados a seguir o voto dos seus estados ou então a abster-se. Claro que isto é irrealista, mas seria a melhor solução para os democratas…

  2. “Hillary terá vencido em estados que até cairão facilmente para os republicanos, independentemente do candidato democrata.”

    Acho que isso aplica-se mais ao Obama (que anda a ganhar o Sul, as Montanhas Rochosas e por aí)

  3. Uma análise´(entre outreas coisas) sobre quem está a ganhar o voto popular:

    http://www.slate.com/id/2190556/

    But what if the superdelegates decide the will of the people resides in the popular vote? I doubt they will, because the popular vote seriously undercounts Obama’s support in the caucus states. Even if they ignore that shortcoming, though, Hendrik Hertzberg has demonstrated that Obama right now has a plurality of 611,520 votes. That’s not likely to change, because all the big-population states have already voted. Even if you toss in the delegates from Florida’s unsanctioned primary, Obama maintains a plurality of 316,748. Add in Michigan and Clinton acquires a plurality of 121,783. But it’s insane to count Michigan, because Obama wasn’t even on the ballot there. (It is merely unfair to count Florida, because Obama was on the ballot there; in Florida, the problem is that neither candidate campaigned there.)

    Hertzberg posited that a mental compromise might be reached in counting Michigan’s popular vote by giving Obama all the “uncommitted votes.” Clinton has on occasion tried to argue that the Michigan primary wasn’t a Soviet-style election because most of the uncommitteds should be considered Obama supporters. OK, then, Hertzberg reasoned; let’s include Florida and Michigan in the tally but count the Michigan uncommitteds for Obama. That leaves Obama with a margin of 188,439. If Clinton were to win every remaining contest by 10 points on average, Hertzberg calculated that she still would lose the popular vote by 161,520 votes.

  4. “Fica-me uma questão neste aspecto. Os delegados que cada estado elege para a convenção democrata são proporcionais aos que são eleitos para o colégio eleitoral na eleição nacional?”

    Caro João André,

    Não é o caso. O DNC atribui o numero de delegados com alguns critérios, que não exclusivamente o dos votos eleitorais. Apesar de ser proporcional em relação ao número de habitantes, os estados que votaram Democrata nas últimas eleições presidenciais são favorecidos. Assim, os Blue States elegem mais delegados que os Red States, em termos propocionais. No GOP, também se passa isto. É a forma dos Partidos premiarem os estados que votam neles com mais delegados.

  5. Obrigado pelo destaque dado ao comentário, Nuno. Quanto à dúvida do João André, acrescentaria apenas que convém não confundir a convenção do partido com o colégio eleitoral. A composição da primeira depende dos resultados das primárias e serve (entre outras coisas) para escolher o candidato de cada partido. O segundo diz respeito apenas à eleição geral em Novembro (escolha do Presidente).

    Por outro lado, os votos do Colégio Eleitoral são atribuídos segundo uma lógica de winner-takes-all (com a excepção do Nebraska e Maine), enquanto as primárias Democratas se regem por um sistema proporcional.

  6. Obrigado aos dois pelo esclarecimento. Relativamente ao acrescento do JGA, já tinha conhecimento disso. A minha dúvida era apenas e só relativamente à atribuição do número total de delegados por estado, nada mais.

    Desta forma, perante as vitórias de Obama e Clinton, seria interessante saber que proporções do colégio eleitoral teriam, caso esta fosse a eleição geral (apenas para se ter uma real ideia daquilo que poderiam fazer na “real thing”).

    Miguel, falo essencialmente de um estado como o Texas, por exemplo.


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