Publicado por: Nuno Gouveia | Junho 17, 2008

A locomotiva dos sonhos

Os europeus desdenharam dos Estados Unidos nos últimos oito anos, desde a vitória de George W. Bush, mas a realidade é que insistem a fantasiar com a política norte-americana. A Obamania, que atravessa a Europa e se faz sentir nos media e também nos cidadãos em geral, será um sinal que a obsessão anti-americana, era afinal, uma reacção anti-republicana e anti-W. Bush? Muitos europeus ficaram realmente furiosos com as políticas da actual Administração, mas a verdade é que muitos dos argumentos utilizados para criticar Bush também servem para reprovar Obama. Veja-se a posição deste em relação à guerra do Afeganistão (onde pede o reforço militar), na política em relação ao Irão (promete tudo fazer para impedir que obtenha armas nucleares) ou no apoio incondicional a Israel. Obviamente Obama é muito diferente de W. Bush, e também de John Mccain, nomeadamente sobre o Iraque; sobre o aumento do investimento federal na saúde e educação (mas recordo que a despesa federal nos últimos oito anos aumentou exponencialmente, como nos programas do Medicare, Medicaid e No Child Left Behind); nas políticas fiscais; nas politicas ambientais; sobre Guatanamo (Mccain e Obama concordam); e em muitos outros aspectos haverá diferenças abismais entre os republicanos e Barack Obama.

Mas porque será que os europeus andam tão extasiados com Barack Obama? Uma boa explicação poderá ser encontrada numa análise aos nossos próprios líderes. Será que temos um político em algum país europeu que consiga entusiasmar e apaixonar tantas pessoas como Obama?  Serão o cinzento Gordon Brown, o milionário Berlusconi ou o fracturante Zapatero capazes de aglutinar à sua volta tantos adeptos? Nicolas Sarkozy, o último político que granjeou o mínimo de entusiasmo, atingiu recentemente o seu pico negativo de popularidade, depois da sua vida privada o ter afectado publicamente. Angela Merkel consegue surpreender pela sua capacidade de trabalho, mas não consegue estimular muita gente fora do seu país.

Não é surpreendente que os europeus olhem para a América, e recuperem a esperança no futuro. Não é a primeira vez que tal sucede na história. A crise ameaça afectar ainda mais os europeus, mas a solução virá de Barack Obama. Será ingenuidade? Ou será o desespero de gente que se agarra a qualquer solução milagrosa? A política é feita de personalidades e das suas deliberações. Obama tem conseguido realizar uma campanha assente nos cidadãos comuns, que o catapultaram para a nomeação do Partido Democrata. Parte com grande vantagem para as eleições de Novembro. Provou ser um candidato sagaz, orador fabuloso e grande vendedor de sonhos. Se isso será suficiente para chegar a Casa Branca, não sei. Mas conseguiu deixar uma geração de americanos, e também muitos europeus, a sonhar com ele. Quem irá decidir o desfecho das eleições, como não poderia deixar de ser, serão os próprios americanos. E estes já demonstraram que nem sempre se seguem pela mesma norma dos europeus. Mas a América, ou parte dela, voltou a estar na moda na Europa. E isso deve preocupar os anti-americanos!

Sobre os perfis:

Não deixa de ser curioso o perfil dos dois candidatos a Presidente dos Estados Unidos. John Mccain é antigo veterano de guerra, esteve preso em Hanoi durante cinco anos, construiu uma carreira política baseada na sua independência em relação ao seu próprio partido. Barack Obama está na política nacional há pouco mais de três anos, tendo sido senador do Illinois durante oito anos. É inexperiente e com poucas capacidades conhecidas de liderar. Será que algum destes perfis teria possibilidade de liderar algum país europeu? Um deles vai ser Presidente dos Estados Unidos da América.

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Responses

  1. Pertinente, muito pertinente este seu post…

    Saudações

  2. A primeira razão para o entusiasmo é o partido. Convenhamos que ser-se democrata (do Partido Democrata, claro) dá jeito aos europeus. Isto porquê? Porque os democratas americanos, embora sejam o centro-esquerda nos EUA, seriam um óbvio centro-direita na Europa. Isto aproxima-os automaticamente do centro-direita europeu em termos de políticas. Por outro lado, o facto de serem “centro-esquerda” granjeia-lhes simpatias entre a esquerda europeia.

    Por outro lado, Obama é meio-negro (e não negro, como se diz por aí) e isso atrai o sentimento politicamente correcto europeu (apesar de ainda não termos tido fenómeno semelhante na Europa).

    A seguir vem a óbvia retórica. Obama é um excelente orador, mas também Reagan o era e não sucitou este entusiasmo generalizado. A parte importante é precisamente a sua mensagem optimista, de esperança e unificadora, que contrasta fortemente com a mensagem de divisão e de confronto que Bush transmitia.

    Quanto à questão sobre se McCain ou Obama poderiam ser eleitos na Europa, a resposta é sim. Mais para o primeiro, que seguiu um percurso longo na política e poderia ir criando uma legião de seguidores. No caso de Obama, 3 anos talvez fossem pouco, mas não terá um perfil muito distinto daquele que Tony Blair apresentou inicialmente, quando ganhou pela primeira vez as eleições no Reino Unido. Em Portugal seria mais complicado, mas também Cavaco Silva venceu eleições em 85 com um passado quase inexistente (era um quase desconhecido ex-ministro das finanças, posto que ocupara por cerca de um ano cinco anos antes).

  3. Caro João André,

    Concordo com os seus pontos de vista, nomeadamente no que diz respeito ao apoio dos europeus aos democratas. Nenhum republicano consegue obter o “respeito” na Europa. Enquanto nos Estados Unidos a balança cai para o lado direito, na europa esta tende invariavelmente para a esquerda.

    Na sua argumentação, apenas discordo um pouco da comparação entre Tony Blair e Barack Obama. O antigo PM britânico era já o delfim de John Smith, apesar da sua juventude, e era uma estrela do Partido Trabalhista. Era deputado desde 1983.

  4. Caro Nuno,

    Os anti-americanistas que por cá apoia em norma apoiam Obama, no dia seguinte à sua eleição (se ele for eleito) vão ser também anti-Obama. Razões?

    O Nuno mesmo disse: “Veja-se a posição deste em relação à guerra do Afeganistão (onde pede o reforço militar), na política em relação ao Irão (promete tudo fazer para impedir que obtenha armas nucleares) ou no apoio incondicional a Israel.”

    Não tenha ilusões de que o anti-americanismo vai passar com a eleição de Obama. Aliás o anti-americanismo, em geral, deriva daquilo que os EUA são e não daquilo que faz o seu Presidente. Mas isso já é outra conversa.

    cumprimentos

  5. “Por outro lado, Obama é meio-negro (e não negro, como se diz por aí) ”

    Parece-me mais escuro que o Jeremiah Wright (e, ao que sei, black/nigger/afro-american nos EUA é mais lato que o nosso negro/preto)

  6. Dois apontamentos: 1) Não me parece que na Europa haja um sentimento assim tão grande anti-guerra no Afeganistão e 2) Tenho para mim que Zapatero é um líder carismático e entusiasmante embora (e aí sim, estou de acordo consigo) fracturante e não unificador, como Obama.

    Sarkozy demonstrou que é um produto dos média (embora no plano europeu nem esteja a fazer um mau trabalho). E padece do problema que pode vir a ser o principal estigma de Obama: o “Backlash” do entusiasmo. Quando a campanha passar e for altura de passar à acção, se houver desilusão está será inversamente exponenciada pela expectativa gerada. Mas por vezes a capacidade oratória e o carisma conseguem suprimir em muito esta situação.

  7. “Os anti-americanistas que por cá apoiam em norma apoiam Obama”

    Sim, os anti-americanos apoiam Obama, como apoiariam sempre o candidato democrata. Mas o que é relevante é o apoio de muitas pessoas, que, não sendo anti-americanas, têm sido muito criticas dos últimos oito anos de W. Bush. Apesar do que possamos pensar de Obama, ele conseguiu por novamente a América na moda. Disso não tenho dúvidas.

    Caro Rui Pedro,

    Concordo que a oposição contra a guerra do Afeganistão não será tão grande. Mas a verdade é que critica que ouvimos à Administração Bush apanha quase sempre a intervenção de 2001.

    Sobre Zapatero, concordo com o que disse. Faltará qualquer coisa para se assumir com um lider europeu, e que nós sentimos falta. Sobre Sarkozy, os erros iniciais do seu mandato foram demasiados. As trapalhadas que trouxe para público feriram a sua imagem e o seu trabalho. Veremos se consegue recuperar a aura que detinha nas eleições. Veremos se Obama, caso vença, consegue manter o entusiasmo.

    Abraço


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