Publicado por: Nuno Gouveia | Junho 24, 2008

Poderá 2008 trazer uma nova geografia eleitoral?*

* Por JOSÉ GOMES ANDRÉ, Investigador de Filosofia Política e autor de “Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: Um roteiro“. Co-autor do blogue Bem Pelo Contrário

O padrão de voto em eleições presidenciais americanas revela uma grande volatilidade durante a segunda metade do séc. XX, produzindo um fenómeno de alternância política e de indefinição na geografia eleitoral. Os resultados entre 1952 e 1996 mostram um equilíbrio entre Republicanos e Democratas (7-5 a favor dos primeiros), com vitórias intercaladas quase matematicamente e marcadas por mudanças constantes nas preferências eleitorais dos Estados.

Curiosamente, na última década assistimos a um novo ciclo, verificando-se uma surpreendente fixação geográfica do eleitorado. Os Republicanos mantiveram uma forte base de apoio no Sul, no Oeste não-costeiro e em alguns Estados do Midwest. Os Democratas, por sua vez, são mais fortes no Nordeste, na Costa do Pacífico e na região dos Grandes Lagos. Note-se por exemplo que a eleição de 2004 trouxe pouquíssimas mudanças face a 2000, com apenas três Estados (Novo México, New Hampshire e Iowa) a alterarem as suas preferências – a menor alteração na geografia eleitoral desde 1936.

Recentemente, o Nuno Gouveia escreveu sobre a improbabilidade de a eleição deste ano trazer uma revolução no mapa eleitoral. Tendo a concordar com esta opinião, mas julgo que a natureza especial do duelo Obama-McCain pode levar a uma clara alteração do (inflexível) paradigma geográfico que marcou as eleições de 2000 e 2004.

Esta possibilidade deriva das personalidades, ideologias e do apelo político destas duas figuras verdadeiramente singulares. De Obama já quase tudo foi dito: o seu carisma faz prever uma mobilização invulgar dos jovens e de independentes habitualmente desligados da política; a comunidade afro-americana pode também comparecer em números recordes (devido ao facto de, pela primeira vez, estar representada etnicamente no ticket presidencial); por fim, através de uma notável angariação de fundos, Obama reuniu condições para conduzir uma campanha geograficamente multifacetada, podendo competir em Estados antes negligenciados pelos Democratas.

McCain é igualmente um candidato transversal, capaz de apelar ao eleitorado independente como nenhum outro Republicano; é popular entre os hispânicos (devido às suas posições moderadas sobre a imigração) e largos sectores das classes operárias (o que o torna muito competitivo em Estados do Midwest); e previsivelmente dominará entre os mais idosos (que compõem uma grande fatia do eleitorado).

O que resulta de tudo isto? Uma eleição disputada muito além dos chamados “Big Three” – Ohio, Pensilvânia e Florida – Estados que concentraram as atenções em 2000 e 2004 (por serem tradicionalmente competitivos e pelo seu peso no Colégio Eleitoral, que os tornava decisivos num cenário geográfico muito rígido).

A força de McCain no Midwest promete grandes indefinições no Michigan, Wisconsin e talvez no Minnesota (Estados que votaram Democrata em 2000 e 2004). Atenção também ao Connecticut (onde McCain dispõe do apoio do senador Liebermann), a Nova Jérsia e ao New Hampshire (este já um habitual Estado equilibrado). Por outro lado, as características específicas do “fenómeno Obama” conferem-lhe possibilidades onde Gore e Kerry quase nem se atreveram a fazer campanha: Virgínia, Carolina do Norte, Geórgia, Missouri, Colorado, Indiana e Nevada – além dos tradicionais Novo México e Iowa.

Assim sendo, dois elementos estão desde já praticamente garantidos nesta eleição presidencial: uma inovadora e imprevisível campanha (a exigir uma reapreciação das tácticas que dominaram as disputas de 2000 e 2004) e uma noite eleitoral muito emotiva. Um cenário com o qual só têm a ganhar os eleitores americanos e os observadores interessados, onde nos incluímos.

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Responses

  1. Um pequeno texto de muita qualidade que requer uma leitura com atenção.
    Obrigado Nuno.

  2. Caro Alberto,

    Não me agradeça a mim, mas sim ao JGA, que teve a gentileza de aceder a um pedido meu e contribuir para o blogue com este excelente post. Eu concordo em absoluto com o texto, que resume o que se poderá passar no mapa eleitoral dos EUA nestas eleições.

    Abraço

  3. Concordo excelente texto! vamos acompanhar.

  4. Adoro certas colocações:Aqui no Brasil,se eu escrevesse ..”não me agradeça a mim”,seria um digníssimo quadrúpede.Bom saber que certos pleonasmos são admitidos,sem alarde,pelos usuários da língua original.Esta frase vai para a minha agenda de curiosidades.Abraço.

  5. O texto é bom, mas creio que, no fim, não se verão enormes mudanças no mapa eleitoral. Surgirão novas tendências, com aumentos de votos em estados que, à partida, dariam maus resultados a um ou outro partido, mas não creio que muito mudará no fim.

    Apesar de preferir a vitória de Obama, creio que acabará por ser McCain a vencer e essa possível vitória será devida aos eleitores tradicionais. Os eleitores “obamanianos” são mais voláteis e menos fiáveis (tirando a comunidade afro-americana) enquanto que os eleitores tradicionalmente democratas não se têm entusiasmado muito com ele.

    Já no caso de McCain, mesmo engolindo alguns sapos, não estou a ver os eleitores tradicionalmente republicanos a deixar de ir votar no Grand Ol’ Party, ainda que MCain não seja exactamente “one of us”. Depois bastar-lhe-à ir buscar uns quantos votos ao eleitorado mais ao centro e poderá vencer as eleições. No fundo, o que precisa neste momento é de se colar à máquina eleitoral de Bush, mesmo que não à sua imagem. Para Obama inverter isto, precisará de um pequeno milagre.

    Nisso concordo com Clinton: ela estava mais bem colocada para vencer McCain que Obama. Falando pessoalmente, oxalá me engane.

  6. Bom texto de JGA.

    Em todo o caso, tendo a concordar, por agora, com o comentário de João André. Parece ser mais fácil a mudança de alguns Estados para o GOP do que o inverso.

    Miguel Direito

  7. Com as actuais sondagens, que podem ainda mudar muito até Novembro, e com o estado “desgraçado” da GOP’s Brand, continuo a acreditar que a possibilidade de mudança vai mais num sentido favorável aos Dems.
    Veja-se, por exemplo, as sondagens em Indiana, um estado que vota GOP desde 1964, e que agora pode ser um potencial alvo de Obama:
    http://www.realclearpolitics.com/epolls/2008/president/in/indiana_mccain_vs_obama-604.html
    Tudo isto pode ainda dar uma grande volta claro… Esperemos mais dois meses de sondagens.

    Caro Rómulo,

    Por vezes estas respostas em comentários contêm erros grosseiros, e bons “pontapés” na língua portuguesa. Não é o caso, visto que este apenas foi um exagerado e repetitivo reforço de uma ideia. Eu conversas informais, poderia usar esta frase. Em texto, não fica bem. De facto.
    Abraço


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