* Por JOSÉ GOMES ANDRÉ, Investigador de Filosofia Política e autor de “Sistema Político e Eleitoral Norte-Americano: Um roteiro“. Co-autor do blogue Bem Pelo Contrário
O padrão de voto em eleições presidenciais americanas revela uma grande volatilidade durante a segunda metade do séc. XX, produzindo um fenómeno de alternância política e de indefinição na geografia eleitoral. Os resultados entre 1952 e 1996 mostram um equilíbrio entre Republicanos e Democratas (7-5 a favor dos primeiros), com vitórias intercaladas quase matematicamente e marcadas por mudanças constantes nas preferências eleitorais dos Estados.
Curiosamente, na última década assistimos a um novo ciclo, verificando-se uma surpreendente fixação geográfica do eleitorado. Os Republicanos mantiveram uma forte base de apoio no Sul, no Oeste não-costeiro e em alguns Estados do Midwest. Os Democratas, por sua vez, são mais fortes no Nordeste, na Costa do Pacífico e na região dos Grandes Lagos. Note-se por exemplo que a eleição de 2004 trouxe pouquíssimas mudanças face a 2000, com apenas três Estados (Novo México, New Hampshire e Iowa) a alterarem as suas preferências – a menor alteração na geografia eleitoral desde 1936.
Recentemente, o Nuno Gouveia escreveu sobre a improbabilidade de a eleição deste ano trazer uma revolução no mapa eleitoral. Tendo a concordar com esta opinião, mas julgo que a natureza especial do duelo Obama-McCain pode levar a uma clara alteração do (inflexível) paradigma geográfico que marcou as eleições de 2000 e 2004.
Esta possibilidade deriva das personalidades, ideologias e do apelo político destas duas figuras verdadeiramente singulares. De Obama já quase tudo foi dito: o seu carisma faz prever uma mobilização invulgar dos jovens e de independentes habitualmente desligados da política; a comunidade afro-americana pode também comparecer em números recordes (devido ao facto de, pela primeira vez, estar representada etnicamente no ticket presidencial); por fim, através de uma notável angariação de fundos, Obama reuniu condições para conduzir uma campanha geograficamente multifacetada, podendo competir em Estados antes negligenciados pelos Democratas.
McCain é igualmente um candidato transversal, capaz de apelar ao eleitorado independente como nenhum outro Republicano; é popular entre os hispânicos (devido às suas posições moderadas sobre a imigração) e largos sectores das classes operárias (o que o torna muito competitivo em Estados do Midwest); e previsivelmente dominará entre os mais idosos (que compõem uma grande fatia do eleitorado).
O que resulta de tudo isto? Uma eleição disputada muito além dos chamados “Big Three” – Ohio, Pensilvânia e Florida – Estados que concentraram as atenções em 2000 e 2004 (por serem tradicionalmente competitivos e pelo seu peso no Colégio Eleitoral, que os tornava decisivos num cenário geográfico muito rígido).
A força de McCain no Midwest promete grandes indefinições no Michigan, Wisconsin e talvez no Minnesota (Estados que votaram Democrata em 2000 e 2004). Atenção também ao Connecticut (onde McCain dispõe do apoio do senador Liebermann), a Nova Jérsia e ao New Hampshire (este já um habitual Estado equilibrado). Por outro lado, as características específicas do “fenómeno Obama” conferem-lhe possibilidades onde Gore e Kerry quase nem se atreveram a fazer campanha: Virgínia, Carolina do Norte, Geórgia, Missouri, Colorado, Indiana e Nevada – além dos tradicionais Novo México e Iowa.
Assim sendo, dois elementos estão desde já praticamente garantidos nesta eleição presidencial: uma inovadora e imprevisível campanha (a exigir uma reapreciação das tácticas que dominaram as disputas de 2000 e 2004) e uma noite eleitoral muito emotiva. Um cenário com o qual só têm a ganhar os eleitores americanos e os observadores interessados, onde nos incluímos.