Publicado por: Nuno Gouveia | Junho 30, 2008

“The southern strategy” de Obama

Foto retirada de: http://www.pbs.org

Na década de 60 ficou famosa a “The Southern Strategy” dos republicanos, que conseguiram tomar o lugar no Partido Democrata no Sul dos Estados Unidos. Depois da guerra civil americana, os democratas dominaram quase exclusivamente todas as eleições estaduais e federais. Durante a luta pelos direitos civis dos negros, apoiada e implementada por políticos democratas, como John Kennedy e Lyndon Johnson, os republicanos conseguiram inverter a situação política. Apesar de nunca terem apoiado os movimentos segregacionistas e racistas do Sul, conseguiram conquistar o apoio das maiorias dos habitantes do sul. Desde 1964 que os republicanos dominam politicamente esta zona dos EUA.

Mas Barack Obama parece apostado em desafiar a superioridade. Carolyn Lochhead escreve no San Francisco Chronicle sobre as reais possibilidades do candidato democrata vencer em algum estado que fez parte dos Confederados Estados da América. Sendo o primeiro candidato presidencial negro, seria de uma extrema ironia ser um destes estados a oferecer-lhe a entrada na Casa Branca. E a verdade é que pelo menos a Virginia, a Carolina do Norte e a Georgia oferecem algumas possibilidades de sucesso. Lochhead pensa ainda que o Mississipi, Carolina do Sul e Louisiana poderão oferecer uma hipótese mínima a Obama.

A sua estratégia é obter uma afluência recorde nas comunidades negras, ter o voto em massa dos mais jovens, dos brancos com formação universitária, e usufruir dividendos da divisão que poderá criar o candidato libertário Bob Barr, natural da Georgia. Outra esperança dos democratas é que John Mccain não consiga motivar os evangélicos, a base de suporte do GOP no Sul, e que fiquem em casa. Mccain venceu poucas primárias no Sul, tendo Mike Huckabee arrecadado a maior parte destas eleições. O desencantamento dos republicanos com Mccain poderá ser muito penalizador para o candidato. As sondagens que existem mostram que Mccain está à frente, mas nenhuma mostra uma grande superioridade. Na Georgia, Virginia e Carolina do Norte, surgem mesmo empates técnicos ou ligeiras vantagens para Obama.

Os sinais parecem indicar que Obama vai mesmo apostar em alguns destes estados. Mas exceptuando a Virginia, um estado onde os democratas têm vindo a ganhar influência nas últimas eleições, devido ao forte crescimento do estado na parte que faz fronteira o liberal District of Columbia, é difícil acreditar eu Obama consiga derrotar o GOP noutros estados. Uma vitória dos democratas em vários estados do Sul apenas significaria uma coisa: triunfo confortável de Barack Obama nas eleições de 4 de Novembro. E isso não é expectável. Pelo menos na actualidade!

Veja-se esta lista elaborada por Carolyn Lochhead:

Virginia: 13 votos eleitorais. População 73.3 % branca, 19.9% negra. Média de sondagens da RCP: Obama + 0,5%. Resultados de 2004. John Kerry 46%, George W. Bush 54%.

Carolina do Norte: 15 votos eleitorais. População 74 % branca, 21.7% negra. Média de sondagens da RCP: Mccain + 4,2%. Resultados de 2004. John Kerry 44%, George W. Bush 56%.

Georgia: 15 votos eleitorais. População 65.8 % branca, 29.9% negra. Média de sondagens da RCP: Mccain + 8,4%. Resultados de 2004. John Kerry 41%, George W. Bush 58%.

Mississippi: 6 votos eleitorais. População 60.9 % branca, 37.1% negra. Sondagem de Junho da Rasmussen: Mccain + 6%. Resultados de 2004. John Kerry 40%,George W. Bush 59%.

Carolina do Sul: 8 votos eleitorais. População 68.5 % branca, 29% negra. Sondagem da Rasmussen: Mccain + 9%. Resultados de 2004. John Kerry 41%,George W. Bush 58%.

Lousiana: 9 votos eleitorais. População 65.4 % branca, 31,7% negra. Média de sondagens da RCP: Mccain + 13,4%. Resultados de 2004. John Kerry 42%,George W. Bush 57%.

Texas: 34 votos eleitorais. População 82.7 % branca, 11.9% negra, 35.7% hispânica. Média de sondagens da RCP: Mccain + 11,3%. Resultados de 2004. John Kerry 38%, George W. Bush 61%.

Arkansas: 6 votos eleitorais. População 81.1 % branca, 15.9% negra. Sondagem da Rasmussen: Mccain + 9%. Resultados de 2004. John Kerry 45%, George W. Bush 54%.

Tennessee: 11 votos eleitorais. População 80.4 % branca, 16.9% negra. Sondagem da Rasmussen: Mccain + 15%. Resultados de 2004. John Kerry 43%, George W. Bush 57%.

Alabama: 9 votos eleitorais. População 71.2 % branca, 26.3% negra. Sondagem de Junho da AEA/Capital Poll: Mccain +24%. Resultados de 2004. John Kerry 37%, George W. Bush 63%.

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Responses

  1. Uma adenda à mudança do mapa político do sul americano. As coisas começaram a perfilar-se, tanto quanto me lembro, com as vitórias de F.D. Roosevelt que, depois de ser eleito, começou a virar o partido mais à esquerda com as suas políticas. As acções nos anos 60 apenas vieram cristalizar mais estes dados. Note-se ainda que Eisenhower era um presidente que poderia ser hoje democrata, perante as suas políticas e que foi o primeiro responsável pelo início do fim da segregação racial.

    Não deixa de ser irónico que os republicanos reclamem Lincoln para si (por ter sido republicono) quando eles cumpriam na altura o papel poítico que é hoje democrata.

  2. Outro ponto. Romney, se bem me lembro, não é necessariamente um grande angariador de fundos. Creio que uma enorme quantidade do dinehiro que gastou na sua campanha veio do seu próprio bolso.

  3. JA – ” As coisas começaram a perfilar-se, tanto quanto me lembro, com as vitórias de F.D. Roosevelt que, depois de ser eleito, começou a virar o partido mais à esquerda com as suas políticas.”

    Roosevelt teve mais de 80% em muitos estados sulistas (só em 1948, com Truman, é que os Democratas começaram a perder Estados no Sul, porque os Democratas locais apresentaram um candidato próprio).

    NG – “Desde 1964 que os republicanos dominam politicamente esta zona dos EUA.”

    Isto talvez seja picuinhice da minha parte, mas acho que seria mais correcto dizer “desde 1980” – em 1976 Carter ganhou os Estatos sulistas quase todos (menos a Virginia) e em 1968 penso que o mais votado foi o American Independent Party (o actual Constitution Party).

    Além que, pelo menos até há pouco tempo, na politica local quse só havia Democratas

  4. Não acredito nesta possibilidade, sinceramente. Os estados sulistas foram tradicionalmente democratas (antes ainda da guerra civil) porque os democratas demonstraram muito mais tolerância para a organização social aristocrática a assente na escavatura dos estados sulistas. Ao tomarem como seu o movimento dos civil rights, os democratas perderam o sul. Acho que muito dificilmente vão agora os sulistas inflectir decisões tradicionais destes estados e darem os seus votos a um afro-americano.

  5. “Além que, pelo menos até há pouco tempo, na politica local quse só havia Democratas”

    Miguel Madeira, regra geral os democratas sulistas são bastante conservadores.

  6. “Acho que muito dificilmente vão agora os sulistas inflectir decisões tradicionais destes estados e darem os seus votos a um afro-americano.”

    Não é preciso que “os” sulistas dêem o voto a um afro-americano: num estado como o Mississipi bastaria que pouco mais de um quinto dos brancos votasse em Obama para ele poder ganhar (assumindo, claro, que ele fizesse o pleno dos negros)

  7. De facto o domínio no Sul do GOP não é assim tão linear, mas desde que Johnson venceu no Sul em 1964, apenas em 1976 o GOP não ganhou a maior parte dos estados. E convém recordar que Jimmy Carter era ele próprio natural da Georgia.

    Em 1968, Nixon conquistou a maior parte dos estados (TX, FL, AR, SC, NC, TN, VA), tendo o candidato racista George Wallace, do AIP, ganho 4 estados (Lousiana, Mississippi, Alabama e Georgia).

    Mas a verdade é que Obama irá precisar de um turnout fantástico dos negros (que é muito provável) e ter mais votos dos brancos que John Kerry teve. Pelas sondagens conhecidas, apenas na Virginia, e talvez Carolina do Norte, isso será possível. Mas, ainda falta muito tempo.

    Num cenário de eleições renhidas, apostaria que Mccain irá vencer quase todos os estados que fizeram parte da CSA.

  8. http://www.nytimes.com/2008/07/01/opinion/01schaller.html?_r=1&ref=opinion&oref=slogin

    liguem-se a este link do NYT, onde se defende a impossibilidade matemática de Obama vencer o sul profundo.

    Miguel Direito

  9. […] artigo de Thomas F. Schaller no NY Times. Na prática, ele concorda com a ideia que defendi no “The Southern Strategy de Obama”, onde defendi que é improvável que Obama conquiste muitos estados que pertenceram aos Estados […]


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