Publicado por: Nuno Gouveia | Julho 3, 2008

Não se pode agradar a todos

A recente viragem ao centro de Barack Obama poderá estar a ser prejudicial em alguns meios liberais, que foram fundamentais para a sua nomeação. As eleições ganham-se ao centro, e as recentes posições sobre a pena de morte, a religião, Israel, Irão, nas armas ou na questão da vigilância sobre os cidadãos parece indicar que Obama pretende fazer uma campanha para as eleições gerais ao centro.

Segundo o USA Today, a blogosfera liberal está a revoltar-se contra Obama, e 12 mil apoiantes formaram um grupo online para pressionar Obama a votar contra a lei da vigilância doméstica. Um blogger liberal, Markos Moulitsas, fundador do Daily Kos, diz que apesar desta revolta, estes irão votar em Obama em Novembro. O Today ouviu outros bloggers, como Arianna Huffington, fundadora do influente e liberal blogue The Hunffington Post, que acredita que esta viragem ao centro de Obama não vai funcionar, como também aconteceu com John Kerry, e que ele deveria a continuar a atrair novos eleitores, como fez nas primárias. “Esta é uma estratégia vencedora para ele: apelar aos 83 milhões de pessoas que não votaram em 2004”, defendeu Arianna.

Obama foi considerado como o senador mais liberal pelo National Journal no ano passado, mas os critérios destas atribuições não são bem fidedignos, como demonstrou Miguel Madeira neste post. Obama tentou construir uma imagem de centrista e moderado, como se compreende ao ler “Audacity of Hope”, um bipartisanship que conseguiu aguentar até às primárias terem aquecido no Partido Democrata. Como já referi várias vezes, os candidatos durante a época das primárias sentem-se “obrigados” a apelar aos sectores mais “radicais” dos partidos. Mas para conquistar os importantes votos dos moderados e independentes nos Swing States, é necessário ter outro discurso na campanha para as eleições gerais. Obama não pode fazer campanha no Ohio como se estivesse em San Francisco. E vai ser assim a sua campanha. Se vai perder muitos votos, isso não é linear. Os liberais nos Estados Unidos acabarão por votar em Obama, pois este é o candidato. Apenas os sectores mais radicais vão afastar-se e votar, por exemplo, em Ralph Nader.

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Responses

  1. Obama nunca foi um “liberal” muito ortodoxo.

    Desde o início da sua carreira politica a nível nacional que tem adoptado um discurso muito próprio em questões de fé e patriotismo, por exemplo. Hillary estava à esquerda de Obama em muitos dos assuntos relevantes da campanha. Mas cometeu o erro de votar a favor da resolução que autorizou Bush a intervir no Iraque (provavelmente por se querer posicionar ao centro para estas eleições, ironias…) o que desde logo afastou a ala esquerda dos democratas.

    Um candidato do partido democrata para ganhar as eleições nos estados unidos tem que se posicionar ao centro, ou pelo menos é aquilo que a história nos diz. E parece-me que o exemplo de 2000 deve ter chegado para os liberais não muito contentes com o candidato do seu partido terem aprendido a lição. Convém também não esquecer Bob Barr, que também pode tirar votos preciosos a Mccain na Georgia e na Carolina do Norte.

    Por outro lado basta um eleitor típico dos democratas pensar se quer que seja Mccain a nomear os dois juízes do supremo que vão substituir dois juízes liberais que poderão estar de saída. O supremo ficaria controlado por juízes conservadores, salvo imprevistos por pelo menos 15/20 anos e decisões como roe vs wade poderiam ser alteradas.

    Parabéns pelo excelente trabalho de acompanhamento destas eleições. Tem sido um prazer ler comentário de tão grande qualidade sobre este tema escrito em português

  2. Caro Daniel,

    Obama está a centrar o seu discurso, como Kerry o fez em 2004. Resta saber se os Reps não irão conseguir cataloga-lo como liberal. Mas com Obama a ter este discurso, isso não será fácil.

    E também me parece que os liberais dos Dems não vão votar em Nader, como fizeram em 2000. Aliás, em 2004, já não voltaram a fazê-lo.

    Obrigado por acompanhar o blogue, e também pelo seu comentário pertinente. Esteja sempre à vontade para comentar por aqui. Um dos aspectos que valorizam imenso o blogue é a participação activa e inteligente de muitos leitores.

    Cumprimentos

  3. Caro Nuno,

    a economist desta semana traz um artigo interessante sobre o assunto:
    http://www.economist.com/opinion/displayStory.cfm?source=hptextfeature&story_id=11670343

    “American elections classically involve a two-step: the candidate runs to the extreme in the primary, then back to the centre for the general. Mr Obama is doing that. Mr McCain seems to be doing precisely the opposite. It is a mistake.”

  4. Não percebo muito de centralismo, direitismo e esquerdismo, ainda mais nos USA.

    O que sei é que o próximo presidente deste país será Obama, como já tinha previsto ainda antes da luta com Clinton.

    Não tenham dúvidas, este orador como nunca foi visto antes atrai as pessoas, tem um carisma próprio que McCain nunca terá.

    Por isso podem continuar a discutir o eleitorado, as estratégias de campanha, etc, é tudo inútil perante esta onda victoriosa de Obama.

    É apenas a minha opinião, e não estou a menosprezar o vosso trabalho ao longo destes meses todos que tem sido excelente e tem-me feito aprender algumas coisas.

  5. Caro Jorge,

    Obama há muito resolveu o seu problema com a esquerda do seu partido. Mccain ainda tem dificuldades em segurar o seu eleitorado mais à direita, e por isso, tem necessitado de manter a sua mensagem mais ideológica, ao contrário do que deveria estar a fazer. Mas não poderá manter muito mais tempo este rumo, sob pena de ser cilindrado por Obama.

    Mas não concordo com a totalidade do artigo da Economist. Não me parece que Mccain seja mais flip-flop que Obama. E nem me parece que Mccain vá fazer campanha pelo 3º mandato de Bush, como sugere o artigo. Ele tem-se distanciado de Bush em diversas matérias (Ambiente, Guantanamo). E a critica que fazem a Mccain de estar a cortejar os evangélicos, quem não o faria? E até acho que é Obama quem tem falado mais de religião do que Mccain. Claro que o Republicano irá precisar dos votos desta importante faixa do eleitorado. Se não cortejar os seus votos, estará condenado.

    Mas na essência, concordo que Mccain precisa de ser o político que sempre foi, o maverick do GOP, para vencer estas eleições. Se tentar ser um republicano igual aos outros, irá perder…

    Caro Stuffie

    Adivinhação é uma qualidade na qual não acredito. Se fosse assim tão linear, nem precisaria de haver eleições. A política americana é fértil em candidatos vitoriosos à partida, que obtém derrotas imprevisíveis (Dukakis, Bush pai em 1992, Gore e Kerry). É preciso de ter calma com as previsões que se fazem.

    De resto, continue a aparecer e sinta-se à vontade para fazer os comentários…É sempre bem vindo.

    Abraço

  6. “Obama tentou construir uma imagem de centrista e moderado, como se compreende ao ler “Audacity of Hope”, um bipartisanship que conseguiu aguentar até às primárias terem aquecido no Partido Democrata. Como já referi várias vezes, os candidatos durante a época das primárias sentem-se “obrigados” a apelar aos sectores mais “radicais” dos partidos.”

    Mas, nas primárias, Obama terá mesmo tentado apelar à esquerda, ou que aconteceu terá sido, sobretudo, Hillary Clinton a tentar apelar ao centro, o que deixou Obama na esquerda?

  7. Caro Daniel,

    então você acha que uma decisão baseada na mentira de “Jane Rose” (já entretanto admitida), que foi usada até ao limite por advogados sem escrupulos, não deveria ser alterada?
    Você sabe oquê que a “Jane Rose” ou Norma McCorvey (nome verdadeiro) tem feito actualmente?
    Ou será que para si vale tudo? Os fins justificam os meios?

    Cumprimentos

  8. “Mas, nas primárias, Obama terá mesmo tentado apelar à esquerda, ou que aconteceu terá sido, sobretudo, Hillary Clinton a tentar apelar ao centro, o que deixou Obama na esquerda?”

    Eu tenho para mim que nas próprias primárias democratas existiram dois momentos distintos. Um primeiro onde Obama ganha (e faz politica a pensar) ao centro e Hillary assume-se como a campeã da esquerda americana e dos democratas – basta pensar na forma como durante muito tempo o Plano de Saúde foi o tema central da senadora de Nova Iorque para marcar a diferença face a Obama (o plano de Obama é claramente menos liberal, no sentido americano do termo). Ou recordar as declarações de Obama sobre Reagan e como Clinton viu nisso uma forma de encostar Obama à direita.

    Um segundo momento onde, fruto do desespero de Clinton (e nesse ponto dou alguma razão ao Miguel Madeira), mas também ao reposicionamento estratégico de Obama que na altura já pensava em como unir o partido em seu torno (resumindo e concluindo, precisava do apoio dos superdelegados), este último centrou-se mais no eleitorado à esquerda e na base dos eleitores do partido democrata (e aqui concordo com a “obrigação” a que o Nuno Gouveia se refere de apelar aos sectores mais “radicais” dos partidos).

    Junta-se a isto tudo o facto de que os grupos e movimentos mais à esquerda preferiram Obama a Clinton, e que o partido republicano, assim que percebeu que Obama seria o nomeado democrata, começou a apelidá-lo constantemente do “mais liberal de todos” – para perceber que o binómio percepção/realidade também não ficou afastado do assunto em questão.

    No fim de contas, e várias sondagens atestam isso, Obama aproveitou as primárias para reforçar o seu peso junto do eleitorado tipicamente democrata, mas perdeu-o junto de alguns sectores moderados e independentes. Julgo que McCain sente o contrário, que junto do eleitorado moderado e independente continua a ter muita força, mas que dentro da base de votantes que garantiram a vitória a Bush nas últimas duas corridas está nitidamente em baixo (e bem pode queixar-se da fraca competitividade das primárias republicanas para o efeito – é que pelos vistos aquele período de tempo que mediou entre a certeza da sua nomeação e a certeza da nomeação de Obama, e onde supostamente o candidato republicano andou a unir o partido em seu torno, de pouco lhe valeu). Ao contrário, Obama, que supostamente tinha um partido dividido em dois, já parece ter o apoio em massa dos democratas e foca a sua atenção ao centro.

    Claro que o problema de McCain e a sorte de Obama tem nome: George W.Bush.

  9. Caro Miguel,

    Norma Mccorvey desde meados dos anos 90 que passou para o campo dos anti-choice. Parece que não pensou nas consequências dos seus actos, nunca esperou que as decisões dos tribunais levassem o direito á escolha no caso do aborto tão longe.

    A minha opinião neste caso é irrelevante (pese embora já dever ser clara nesta altura) , o meu argumento era apenas que a esquerda do partido democrata nos EUA ia acabar por votar maioritariamente em Obama, com medo de possíveis recuos nessa decisão que embora controversa é vista como quase sagrada pela maioria daqueles que se identificam como very liberal nas sondagens e podiam ficar revoltados com o facto de o seu candidato ter abandonado outras “bandeiras” que lhes são queridas (FISA, financiamento publico…).

    Ou seja, não estava a fazer nenhum juízo valorativo…

    Quanto á questão do centro, direita ou esquerda é lógico que é sempre uma terminologia relativa e pouco precisa, mas torna mais fácil o entendimento sem explicações mais complexas.

  10. Caro Daniel,

    “o meu argumento era apenas que a esquerda do partido democrata nos EUA ia acabar por votar maioritariamente em Obama, com medo de possíveis recuos nessa decisão que embora controversa é vista como quase sagrada pela maioria daqueles que se identificam como very liberal nas sondagens e podiam ficar revoltados com o facto de o seu candidato ter abandonado outras “bandeiras” que lhes são queridas (FISA, financiamento publico…)”

    sim sim, nisto estamos completamente de acordo. já o escrevi no post posterior.

    Cumps


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