Publicado por: Nuno Gouveia | Agosto 23, 2008

As (des) vantagens de Joe Biden

Joe Biden era a opção mais aguardada dos últimos dias. Não houve surpresa neste ticket democrata, mas nem por isso considero que Obama optou por uma jogada segura.

Em primeiro lugar, é importante falar dos outros, os que não foram escolhidos. Tim Kaine e Evan Bayh poderiam ajudar Obama a vencer os estados cruciais da Virgínia e Indiana. Ao preferir Biden, Obama não quer ganhar nenhum estado em particular. É um apelo mais vasto ao eleitorado Americano. E Hillary Clinton? Será que encarou bem a selecção de Biden? Os seus apoiantes irão reagir de forma aceitável por Obama ter escolhido alguém que teve 1% no Caucus do Iowa? Será que não vão dizer que os 18 milhões de apoiantes não contaram para nada? A notícia de que expunha que Hillary Clinton nem sequer foi “investigada” pela equipa de Obama poderá ter caído mal nas hostes de Clinton. A convenção será um excelente palco para curar as feridas passadas. Veremos se isso será obtido, já com Joe Biden no ticket democrata.

Joe Biden não irá acrescentar o Delaware aos democratas, porque o pequeno estado da costa leste é território seguro. Mas tem outras qualidades que o levaram a ser seleccionado para parceiro de Obama.

Biden é uma das vozes mais autorizadas do Partido Democrata no que respeita a política externa. É um político respeitado a nível mundial, como recentemente vimos na recente crise na Geórgia, onde foi requisitado por Mikheil Saakashvili para visitar o país. Uma recente sondagem indicou que os americanos consideravam que John Mccain é o mais credenciado para lidar com a política externa. Esta inexperiência levou Obama a completar o ticket com alguém que possa colmatar essa lacuna. E Biden surgiu como a melhor opção. Neste aspecto, a equipa democrata estará muito mais equilibrada. Em 2000 Bush também escolheu o antigo secretário da defesa do seu pai, Dick Cheney, para contrapor os ataques que alegavam que teria pouca experiência em política externa.

A história de vida de Biden é também ela algo heróica. Foi eleito para o senado em 1972, pouco antes de completar 30 anos, o limite mínimo para ser Senador. Dois meses depois, a sua vida sofre uma tragédia, com a morte da sua esposa e filho num acidente de carro. Biden esteve para abandonar a política activa, mas os seus amigos convenceram-no a continuar. Já se candidatou ao cargo de Presidente duas vezes, embora sem grande sucesso nas suas aventuras. Mas é uma das caras mais conhecidas dos americanos.

Joe Biden é católico. Em 2004, George W. Bush conseguiu obter a maioria dos votos dos católicos, com 52% contra 47% de John Kerry. Em 2000 Al Gore bateu Bush com 50%-46%. O voto católico será relevante nestas eleições e Biden poderá ser um bom auxílio para Obama.

Biden é um centrista e moderado do Partido Democrata, apesar de ter um registo liberal no Senado. Os republicanos têm tentado encostar a candidatura de Barack Obama à esquerda, até ao momento diga-se, sem sucesso. Com o Senador do Delaware no ticket, isso será ainda mais difícil. Apesar de ter apoiado a guerra do Iraque, tem sido um dos seus críticos mais ferozes nos últimos anos. E, tal como Mccain, e ao contrário da maioria esmagadora dos políticos americanos, tem um filho no exército, que se prepara para ir para o Iraque em Outubro.

Apesar de ser um insider de Washington, é muito respeitado pela classe operária americana e pelos líderes dos sindicatos. Vai ajudar Obama a chegar a estes eleitores, que têm demonstrado resistência à sua candidatura. No Midwest será uma carta importante para impedir a deserção dos trabalhadores para o GOP.

Por fim, Biden é um excelente orador, tem uma linguagem muito perspicaz e incisiva, e consegue transmitir a “mensagem”. Os candidatos a Vice-presidente costumam ser verdadeiros pontas de lança das candidaturas. Joe Biden parece ter nascido para o papel, e será precioso para a candidatura democrata. E possui excelentes performances em debates, que lhe será muito útil para o debate entre VPs.

Mas Biden não é uma aposta segura, porque carrega consigo vários defeitos, e que podem ser muito prejudiciais. Não havendo nunca a escolha perfeita, Obama teve de arriscar e preparar-se para combater estas imperfeições.

O Senador do Delaware é famoso pelas suas gaffes embaraçosas. No dia que anunciou a sua candidatura à presidência, em Fevereiro de 2007, referiu-se a Barack Obama como “articulate and bright and clean and nice-looking guy”. Apesar de ter pedido desculpa, a sua candidatura nunca mais arrancou. Desistiu no fim do caucus do Iowa, depois de ter 1% dos votos.

A história pode estar esquecida, mas em breve será relembrada pelo GOP. Em 1987, Joe Biden era uma das grandes esperanças do Partido Democrata. Apesar de não ser o favorito dessas eleições (inicialmente foi Gary Hart e depois Michael Dukakis acabou por arrebatar a nomeação), era um dos principais candidatos. Durante essa campanha, foi apanhado a plagiar um discurso de Neil Kinnock, o líder do Partido Trabalhista Inglês. Mais tarde, três meses antes do Iowa, viu-se obrigado a desistir. Este será um episódio que será explorado pelos republicanos.

A mensagem de Barack Obama é de mudança. Será que ter no ticket um político que está em Washington desde 1973 está de acordo? Biden foi eleito como uma brisa de mudança e esperança, mas há 35 anos, não em 2008. E quem passou mais de metade da sua vida como Senador não ajudará muito a passar a mensagem da renovação da classe política. À excepção da carreira política de Biden, não lhe é reconhecido outro contributo para a sociedade. Apenas trabalhou no sector privado quatro anos, antes de entrar para o Senado. E faz parte do establishment democrata, algo que Obama prometeu lutar durante as primárias.

Por fim, outro aspecto negativo para Biden é o próprio Biden. Ou seja, as declarações que proferiu nas primárias em relação a Barack Obama e John Mccain. O GOP já tem um anúncio a passar em alguns swing states a explorar as palavras de Biden, onde criticava a inexperiência de Obama para ser presidente, e elogiava John Mccain. Se isto valerá muito? Neste capítulo, seria bem pior que a VP fosse Hillary Clinton. Mas Biden terá muitas declarações do passado que vão regressar para ensombrar esta campanha. Uma boa opposition research fará o seu trabalho.

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Responses

  1. Um interessante Helicóptero view ou overview sobre J. Biden.

    A “dinastia kennediana” terá jogado um papel crucial nesta escolha apertada de Obama, possivelmente.

    Força Nuno!

  2. Obrigado Silas,

    Foi uma escolha convencional. Os VPs não costumam ser muito importantes para decidir eleições. E Biden, se não acrescentar muitos votos, também não acredito que irá retirar muitos…
    Claro que E. Kennedy e C. Kennedy foram muito ouvidos nesta escolha…

  3. além dos excessos de “and”, qual o problema da frase do biden: “articulate and bright and clean and nice-looking guy”.

    PS. parabéns pelo blog, caro homónimo

  4. É uma escolha prudente de Obama. Por um lado complementa Obama em pontos que se revelam escorregadios com o eleitorado, e isso é bom. Por outro lado corre o risco de acentuar as “falhas” de Obama. Sucederá o mesmo com a capacidade de McCain para lidar com os problemas económicos se o escolhido for M Romney.

  5. Biden seria uma boa aposta. O objectivo era o correcto: conquistar o centro. Só há aqui um pequenino problema nisto tudo: Biden é a antítese de Obama. Mais: Biden representa tudo aquilo que Obama ferozmente criticou durante as primárias. Pior: Biden está ideologicamente mais próximo de John Mccain, em muitas politicas de fundo, do que de Obama.
    Conclusão: Obama, que se dizia um politico diferente, anti-washington e essas coisas todas muito bonitas para se dizer nas primárias, vai buscar um gajo que está à 35 anos em washington para ver se aquela coisa do sonho e da esperança chega lá.

  6. Segundo Mccain, Obama , ao escolher Biden, fez uma “sábia escolha”. Ele será um “adversário temível”, todavia, Mccain o considera como “ um bom amigo e um bom homem”.

  7. McCain, ao elogiar desta maneira Biden, está a tentar retirar o focus de Barack Obama. É uma jogada inteligente…

  8. Caro Nuno Sousa Gouveia,

    Essa frase não está completa, mas foi encarada como uma “tirada” pretensiosa e de superioridade sobre Obama, além que descaracterizava os outros negros americanos. Biden pediu depois desculpa a Obama. Seja bem vindo ao blogue…

    Mccain nunca poderia ser critico de Biden, e optou por uma estratégia inteligente, como disse o RPN, ao elogiar Biden.


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