Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 3, 2008

2º Dia da Convenção

Assisti a um belo espectáculo político. Se foi eficaz, em termos eleitorais? Sinceramente não sei. Os primeiros momentos da convenção foram utilizados para promover valores como a coragem, o patriotismo ou a independência de John Mccain. Este tipo de mensagens é muito eficaz na base conservadora, e parece-me que um dos objectivos desta convenção já está alcançado: o Partido Republicano está totalmente unido em redor de John Mccain. E no dia 4 de Novembro vão todos às urnas. Notou-se na sala que os delegados estão totalmente com o candidato republicano.

Durante a noite decorreram várias homenagens a antigos presidentes republicanos. Abraham Lincoln, o primeiro presidente republicano, Teddy Roosevelt, o progressista com que Mccain se identifica, Ronald Reagan, o herói republicano, e por fim George H. Bush, que estava presente na sala e foi alvo de uma ovação impressionante.

Momentos verdadeiramente políticos, tivemos três. Laura Bush fez um discurso em defesa do legado do seu marido, e elogiou a escolha de Sarah Palin, a “primeira mulher a ser Vice-presidente será republicana”, o que foi muito bem recebido pelos presentes. O actual presidente fez um discurso sóbrio de apoio a John Mccain, sem ser muito efusivo. Mas mais uma vez se notou a popularidade que ainda detém no GOP,  pois recebeu ovações de pé várias vezes.

Finalmente, entrou em cena o antigo candidato Fred Thompson, com um discurso muito agressivo em relação aos media, e também a Barack Obama. Esta convenção necessitava urgentemente de “red meat” contra os democratas, e Thompson proporcionou isso, acusando Obama de ser “o mais inexperiente candidato presidencial” da história americana. Mas a parte mais interessante do seu discurso foi a apresentação que fez de John Mccain, elogiando a vida e obra do candidato republicano. Durante esta parte , a sala estava completamente silenciada, em sinal de respeito pelo sacrifício de Mccain no Vietname. Segundo Thompson, o que os americanos desejam é o carácter e a honra que Mccain representa. O antigo Senador do Tennessee não é um grande orador, mas penso que foi uma opção certa da candidatura de Mccain, pois cumpriu vários objectivos: animou os ânimos na convenção, apresentou Mccain ao povo americano e atacou Barack Obama e os liberais.

Por fim, o discurso de Joe Lieberman. O antigo candidato a Vice-presidente de Al Gore explicou que estava na convenção por causa de Mccain, porque o país está primeiro que o partido. Desqualificou totalmente aqueles que dizem que Mccain é o típico republicano, pois “se pensam que John Mccain é apenas outro republicano, então eu sou o democrata preferido de Michael Moore”.

Com um discurso de apoio ao seu amigo, Lieberman não deixou de criticar a falta de experiência de Obama, a quem acusou de não ter o currículo de lutar contra os poderes instalados de Washington. Acrescentou de seguida que Obama nunca fez esforços para trabalhar com os republicanos, em contraste com Bill Clinton, o último presidente democrata. Não deixou de causar estranheza o elogio público a um Clinton numa convenção republicana, tendo ainda por cima recebido tímidos aplausos. Claro que os votos de Hillary Clinton são muito importantes, e a candidatura republicana está à procura deles.

Este foi um discurso de apelo ao voto dos independentes e moderados democratas, com Lieberman expressou: “Esta noite quero pedir-vos, sejam independentes, Reagan Democrats, Clinton Democrats, ou democratas do velho estilo: este ano, quando votarem para presidente, votem na pessoa que acreditam que é melhor para o nosso país, não pelo partido a que pertence”.

Lieberman não se escusou em elogiar Sarah Palin, com quem terá mantido uma conversa esta semana em Minneapolis, que o terá impressionado. Apesar de discordarem de vários temas, o Senador do Connecticut fez questão em apoiar a opção de Mccain.

Esta intervenção foi muito aplaudida pelos delegados, que apreciaram a coragem e a frontalidade de Lieberman. Pode não ter sido um grande discurso, que de facto não foi, mas a sua presença terá servido para influenciar o voto dos independentes e democratas que não estão convencidos com Obama.

“Sen. Barack Obama is a gifted and eloquent young man who can do great things for our country in the years ahead. But my friend, eloquence is no substitute for a record — not in these tough times for America.”Joe Lieberman, na Convenção Republicana.

PS: Hoje voltarei a escrever sobre esta noite, mas agora é tarde aqui nos Estados Unidos, e ao dia começará bem cedo.


Responses

  1. Das intervenções que vi, madrugada dentro, os republicanos não se preparam para eleger um presidente, mas um comandante militar. Será que alguém lhes lembra que em 2000 perderam porque “It´s the economy, stupid?”.

    A única intervenção com alguma chama foi a de Fred Thompson, um bom actor.

    Se as eleições se ganhassem com discursos os democratas goleavam.

  2. Tenho de concordar com o Fernando. Eu achava que um presidente se devia eleger pela sua capacidade acima de tudo. E bom senso. De McCain disse-se que era uma homen de fibra moral e um homem audacioso. Alguém explicou como pretende ele reduzir o histórico défice de GW Bush? Como escrevi há tempos no Expresso, o plano McCain é incoerente na economia. Não tem nexo. E por isso suspeito que se falará mais de valores e de baixar impostos do que de economia real nesta convenção.
    Para o Nuno, uma opinião: se eu fosse um democrata moderado, o discurso de Lieberman tinha-me soado a traição. Como disse, acho que ele exagerou no tom. Não me pareceu politicamente eficaz.

    Carlos Santos

  3. Pode até ser uma impressão minha sem qualquer impacto nas eleições, mas do que vi ontem parece-me que o entusiasmo da convenção republicana está ainda a milhas de distância do entusiasmo da convenção democrata.

  4. Efectivamente, subsiste, grosso modo, na América uma sociedade a duas velocidades :

    – Uma, claramente compactada («unicolore») e mais virada para o Manifest destiny ( respeito e medo), para o passado e reivindicadora do «american values»;

    – Outra, diversificada (“multicolored”), dinâmica, optimista e virada para o futuro.

  5. A propósito de Lieberman:

    Viva o YouTube.

  6. Quente: o excelente discurso de Thompson. Emotivo na descrição do percurso pessoal de McCain, e acutilante nas críticas que fez a Obama. Domina o palco como poucos outros políticos.

    Morno: quem diria que Bush é o Presidente dos EUA? Falou da Casa Branca (situação incrivelmente invulgar), durante apenas 8 minutos, como um verdadeiro ostracizado pelo partido. Todavia, disse o essencial: que McCain é o político mais preparado para assumir o cargo desde o primeiro dia.

    Frio: Liebermann. Tive o prazer de assistir em directo e por pouco não adormecia. Pouco claro, pouco entusiasmante, quase pareceu à deriva. Criticou o espírito partidário, mas definiu-se mil e uma vezes como Democrata. Atacou Obama quando ainda há pouco tempo o considerava um político genial. Fez trocadilhos sem graça e a referência positiva a Bill Clinton foi um monumental tiro no pé. Atraiu independentes? Só mesmo aqueles que já estariam 90% do lado de McCain…

    Continuação de bom trabalho, Nuno! Está a ser excelente ler os seus textos e acompanhá-lo ao longe… Um abraço!


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