Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 4, 2008

Noite em “cheio” para o GOP

À terceira noite da Convenção, o Partido Republicano encontrou a sua alma, e saiu do Xcel Energy Center preparado para combater os democratas. O alinhamento já fazia prever uma noite de emoções fortes, mas pela primeira vez senti um entusiasmo genuíno na sala, e uma vibração contagiante. Ontem assisti a um belo espectáculo. Mas hoje finalmente estive numa Convenção americana.

John Mcain apostou muito nesta noite, e não terá sido por acaso que Rudy Giuliani apenas hoje teve a sua intervenção. O antigo Mayor de Nova Iorque foi o perfeito antecessor de Sarah Palin, com um discurso mordaz, mas incisivo e certeiro. Para os que podem criticar o tom negativo desta noite (que o foi de facto), lembro que estamos a falar de uma campanha americana e que este tipo de estratégia funciona. Relembremo-nos dos discursos da semana passada de Joe Biden, Al Gore ou John Kerry, por exemplo.

E a noite até começou muito calma, com as intervenções de Meg Whitman e Carly Fiorina. Estas duas mulheres, que chegaram a ser apontadas como Veeps de Mccain, claramente não conseguiram “pegar” na audiência, sendo o ruído de fundo por vezes incómodo para quem desejava ouvir as propostas económicas de Mccain. Uma desilusão completa.

Michael Steele, que foi vice-governador do Maryland, e uma estrela em ascensão no Partido Republicano, começou com o espectáculo verdadeiramente. Num discurso poderoso, o afro-americano fez jus aos valores da liberdade, da economia de mercado e do conservadorismo social que define o Partido, e lançou um dos motes da noite: “Drill, Baby Drill”. E foi muito aplaudido por isso. Com esta prestação, certamente terá um papel de relevo no futuro do Partido Republicano.

Os oradores seguintes “excitaram” o Excel Energy Center, como este ainda não tinha estado. Mitt Romney fez a apologia de Mccain e uma critica devastadora aos liberais da costa leste, algo que é sempre muito aplaudido neste partido. Tal como Rudy Giuliani, que deixou uma mensagem muito dura para os democratas, focando esta campanha na segurança nacional e política externa. E aqui poderá estar o erro desta convenção, direccionando a campanha para temas como o terrorismo, segurança nacional e Iraque. Mike Huckabee possui uma excelente oratória, e isso ficou demonstrado esta noite. Apelou à alma dos conservadores para apoiar o ticket Mccain-Palin. Uma das tiradas da noite foi quando disse que Palin teve mais votos na sua vitória para Mayor que Biden na sua candidatura à presidência dos Estados Unidos (esta informação é afinal mentira). Estes três pesos pesados do GOP cumpriram o seu papel e devastaram os democratas e Obama, elevando o moral do Partido Republicano, e abriram caminho para o quarto discurso da noite. Mas que acabou por funcionar muito bem.

Sarah Palin passou no teste. Diria com distinção. Fez o que se impunha, com a convicção e palavras que lhe competiam. A sala estava completamente “eléctrica” com a sua presença. Fez um discurso de attack dog (que lhe fica bem) e tentou apelar à América rural, que será fundamental a dia 4 de Novembro. Lembram-se do problema que Obama teve nas primárias, em estados como o Ohio ou Pennsylvania, nas comunidades rurais? Este discurso foi para elas, e poderá ser um bom complemento para Mccain nos estados do Midwest. A dúvida será saber se vai conseguir passar a sua mensagem nas comunidades suburbanas. Mas o seu estilo agressivo, com toques de humor, pode resultar na América profunda, e será uma mais-valia nesta campanha.

No final falei com alguns republicanos e estavam todos em êxtase sobre esta noite. Muito confiantes e convictos que podem vencer em Novembro. Foram discursos muito “partidários”, motivadores da base ideológica do partido. Resta saber se foram eficazes para os moderados e independentes, que são aqueles que vão decidir as eleições. Mas para mim, esta foi uma noite muito positiva para John Mccain. Veremos se ele amanhã estará à altura, com o discurso mais importante da sua vida. Ontem alguém falava num comentário que não se notava grande entusiasmo na sala. Hoje era notório.


Responses

  1. Vamos a ver como se portam os republicanos nas sondagens a partir de agora, mas fico com a mesma pergunta que alguém tinha, aqui há dias, no Larry King Live: «Se McCain tinha conhecimento de todos estes potenciais problemas em redor de Palin, será que ele não conseguia encontrar outro republicano, mulher ou não, jovem, governador e conservador para ter no ticket?».

    Penso que será esta a questão em que os democratas se concentrarão nos próximos tempos. Questionar as escolhas de McCain.

    Quanto ao escrutínio de Palin, é absolutamente normal. Obama, mesmoq ue jovem e inexperiente, começou a ser notado a nível nacional quando fez o keynote speech na convenção democrata de há quatro anos (altura em que já se preparave para vir a ser candidato, parece óbvio). Isso significa que a sua história começou a ser cuidadosamente alimentada aos media ao longo destes anos.

    Palin, por seu lado, apesar de ser governadora, é-o de um estado insignificante a nível nacional (pequeno e sempre eclusivamente republicano). Como é absolutamente desconhecida, é normal que os media agora comecem a pesquisar o passado e presente dela à lupa, o que significa que irão encontrar variadíssimos podres, verdadeiros ou falsos (ela terá criado inimigos ao longo da sua vida, o que significa que haverá quem minta para a atacar). Assim, este aparente ataque (que em alguns casos será absolutamente real) não passa de um escrutínio intenso e que terá de surgir nos poucos meses que faltam para a eleição. Pessoalmente, creio que não foi uma boa escolha para McCain, mas a ver vamos.

    Quanto ao argumento da experiência, convém lembrar que os vice-presidentes são frequentemente escolhidos para trazer qualidades que faltam aos presidentes. No caso de Obama, foi precisamente para trazer a experiência e peso no senado. Já tinha sido essa a razão para a escolha de Cheney ou de Lieberman há 8 anos. E, tendo McCain experiência de senado a rodos, Palin não lhe traz absolutamente nada. Nesse caso, a escolha pode ser criticada em volta da experiência, especialmente porque foi este um dos argumentos mais usados para criticar Obama. E, em política como noutras coisas, o lado que usa um argumento pela última vez, é normalmente quem acaba por beneficiar dele (neste caso, a crítica de inexperiência pode colar-se a Palin mais facilmente que a Obama, apenas porque foi usado sobre ela mais recentemente).

  2. Contundente no estilo, eficaz para quem vê, sarcástico, vaguíssima no conteúdo. Com as expectativas tão baixas era o esperado. Um discurso guerrilheiro (tudo contra Obama) que lhe deve ter valido o estatuto de herói para o partido republicano, pelo menos para as bases mais conservadoras do partido. O que não deixa de ser sintomático de como se encontra o partido: há uma semana uma perfeita desconhecida, hoje uma herói. Herói do nada.

    Se o discurso era somente para as bases, para aquela franja mais radical, resultou na perfeição. Se o discurso pretendia chegar aos independente e indecisos falhou.
    O uso insistente de termos como “liberais” e de expressões como os “média elitistas” funciona com aquela plateia, e funcionou muito bem, não funciona com mais ninguém.

    A partir de hoje sim, veremos quem é Palin. O cenário ontem era-lhe todo favorável, uma plateia desejosa por uma herói. Agora vêm as entrevistas sérias que Palin não poderá evitar nem se esconder. As mil perguntas que terá de responder de improviso. Os discurso não preparados. Se para os mais experimentados políticos isto é difícil, não cometer gaffes, veremos como se sai Palin. O debate com Biden (e Biden depois de ontem deve estar desejoso de lhe fazer perguntas). As respostas que terá de dar sobre os casos que a assombram. Etc. Vai começar o teste a Palin.

    E verificar o passado do que afirmou no discurso como a ponte para nenhures – Palin ontem afirmou-se como forte opositora e há já provas em contrário (http://andrewsullivan.theatlantic.com/the_daily_dish/2008/09/oh-yes-and-she.html). E como se pode fazer pouco dos “community organizers” tão descaradamente?

  3. Meu caro Nuno,
    Aquilo que vou escrever não tem nada a ver com este post.
    Parabéns pelo teu blog e por esta tua iniciativa. Li já alguns dos teus posts e sem dúvida que estes estão revestidos de imparcialidade q.b.
    Vou continuar a acompanha o teu blog e os teus comentários em directo de Minneapolis.

    Abraço amigo

  4. Caro amigo,

    Estás de parabéns. Continua o teu excelente trabalho.
    Tenho pena de não estar naquele que considero o meu segundo país para irmos jantar e debater estas questões.

    Até breve

  5. “I saw John McCain’s attack squad of negative, cynical politicians. They lied about Barack Obama and Joe Biden, and they attacked you for being a part of this campaign.

    But worst of all — and this deserves to be noted — they insulted the very idea that ordinary people have a role to play in our political process.

    You know that despite what John McCain and his attack squad say, everyday people have the power to build something extraordinary when we come together. Make a donation of $5 or more right now to remind them.

    Both Rudy Giuliani and Sarah Palin specifically mocked Barack’s experience as a community organizer on the South Side of Chicago more than two decades ago, where he worked with people who had lost jobs and been left behind when the local steel plants closed.

    Let’s clarify something for them right now.

    Community organizing is how ordinary people respond to out-of-touch politicians and their failed policies.

    And it’s no surprise that, after eight years of George Bush, millions of people have found that by coming together in their local communities they can change the course of history. That promise is what our campaign has been about from the beginning.

    Throughout our history, ordinary people have made good on America’s promise by organizing for change from the bottom up. Community organizing is the foundation of the civil rights movement, the women’s suffrage movement, labor rights, and the 40-hour workweek. And it’s happening today in church basements and community centers and living rooms across America.

    Meanwhile, we still haven’t gotten a single idea during the entire Republican convention about the economy and how to lift a middle class so harmed by the Bush-McCain policies.

    It’s now clear that John McCain’s campaign has decided that desperate lies and personal attacks — on Barack Obama and on you — are the only way they can earn a third term for the Bush policies that McCain has supported more than 90 percent of the time…..”

  6. Alguns ideas-forças subjacentes nos discursos:

    – “Nada”, a explosão recalcada de Giuliani, pois foi buscar exactamente a anterior crítica que Biden lhe fizera, nas Primárias;

    – Persiste uma clara tentação de se esvaziar o controlo legislativo, pela via de “zero experiência executiva”;

    – Esforço em se distanciar da calamidade Buschiana sob a égide do mesmo PR, ao longo dos 8 anos;

    – ênfase na força bruta em detrimento da diplomacia para se resolver os eventuais diferendos -obsessão pela guerra.

  7. Já leu a notícia do Jornal Público de hoje, na página 3, sobre si?

    Miguel Direito

  8. Foram um pouco infeliz na questão “Community organizing”, o que pode ser bem explorado pelos democratas.

    Porque .como alguém citou:

    “Throughout our history, ordinary people have made good on America’s promise by organizing for change from the bottom up. Community organizing is the foundation of the civil rights movement, the women’s suffrage movement, labor rights, and the 40-hour workweek. And it’s happening today in church basements and community centers and living rooms across America.”

  9. Palin cumpriu plenamente no estilo, mostrando que é carismática e agressiva se necessário. O entusiasmo que o Nuno descreveu sente-se pela primeira vez na candidatura Republicana e isso só pode ser positivo.

    O ataque a Obama foi demolidor, embora em certos momentos excessivo (como já escreveram acima, a crítica aos “community organizers” foi rasteira). O contraste de culturas (elites vs. “small-town” people) foi bem exposto e pode valer votos no Midwest e no “Rustbelt”.

    Bem mais fraca pareceu-me a sua aposta na imagem de uma reformista e de uma política “acima dos partidos”. A sua biografia política é demasiado curta para se apresentar como uma figura de peso, e depois de um discurso tão partidário é extremamente difícil apelar a uma lógica “independente”.

    Conclusão: estou com o Nuno. Palin foi entusiasmante e a base Republicana está totalmente conquistada. Pergunto-me, porém, se a agressividade e os excessos “ruralistas” dos discursos de ontem não afastam os moderados, os independentes e boa parte das comunidades suburbanas que decidem as eleições.

  10. pelo que tenho lido aqui e noutros blogues, o mais incrivel no meio disto tudo ainda é pessoas que babam com os discursos de Obama e Gore, virem dizer que os discursos dos republicanos sao vazios de ideias. a semana passada deviam estar de férias, ou entao, viram muitas ideias transparentes dentro do “change”.
    comparados com os discursos dos democratas os dos republicanos não sao nem mais nem menos populistas. só para quem quer ver mais populismo nuns do que noutros.
    esta convenção parece estar a correr melhor do que o que eu previa, mesmo assim, duvido muito que os republicanos cheguem lá.
    ah e já agora, como “republicano” moderado, a escolha de sarah palin foi uma desilusão. como ontem se viu, mitt romney era muito melhor escolha, mesmo olhando do ponto de vista puramente eleitoral. vamos ver se as más preces contra a senhora não se concretizam.

  11. Ah, e uma nota paralela. Ouvir Giuliani, ex-mayor de Nova Iorque, criticar o “cosmopolitismo” de Obama é francamente desconcertante. E ver Romney, um multi-milionário, ex-Governador do Massachusetts, zombar das elites liberais da Costa Leste, é mesmo de ir às lágrimas.

    Aqui discordo ligeiramente do Nuno: podem ter sido discursos entusiasmantes para a base Republicana, mas foram demasiado artificiais e falsos para o público “lá fora”.

  12. “E ver Romney, um multi-milionário, ex-Governador do Massachusetts, zombar das elites liberais da Costa Leste, é mesmo de ir às lágrimas.”

    Discordo: Romney criticou o snobismo da grande maioria da elite liberal da costa leste para com a “américa profunda”. Esse snobismo é demais evidente.
    Onde está o falso e o artificial? Não se pode fazer um esquema: milionário-> costa leste -> snob. Porquê que não pode ser milionário -> costa leste -> não snob ?

  13. Hoje vamos assistir Mccain, aquele que aposta “ na força bruta em detrimento da diplomacia para se resolver os eventuais diferendos [internacionais] -obsessão pela guerra.”

    Obviamente, os traumatismos do Vietname e mais recentemente do Iraque fazem-no o homem do século passado.

    América não esta, presentemente, preparada, psicologicamente, para mais guerras. Está exausta dos erros excessivos dos “super executivos” republicanos.

  14. Caro Miguel, não me pareceu que fosse esse o argumento de Romney. O que Romney atacou foi a lógica política e económica das “elites liberais” da Costa Leste. Irónico, a meu ver, justamente porque Romney é um excelente representante dessas mesmas elites.

  15. Caro Nuno e caros amigos,

    Apesar de tudo o sucesso da RNC vai depender, na minha opinião, do que for hoje o discurso de McCain. E se aqui a forma vai ser pobre, espera-se sobretudo o conteúdo. Deixo alguns pontos sobre o que espero em http://ovalordasideias.blogspot.com/2008/09/o-pai-de-todos-os-discursos.html
    Abraço,
    Carlos Santos

  16. A ex-primeira-dama dos EUA Nancy Reagan apóia o candidato republicano à Casa Branca, John McCain, mas está “muito impressionada” com o seu rival democrata, Barack Obama, a quem considera “uma pessoa com boas intenções”, disse o filho, Ron, em entrevista publicada nesta quinta-feira (3) pelo “Washington Post”.

    “Ela tem carinho por John McCain… Mas também posso dizer que está muito impressionada com Barack Obama”, disse Ron Reagan.

    “Simplesmente está impressionada com o seu porte. Não é só que ele seja um tipo eloquente que faz bons discursos. Muitos diziam isso também do meu pai (o ex-presidente Ronald Reagan, já morto)”, disse.

    Segundo Ron, Nancy está há suficiente tempo no mundo político para “ver além dos rostos”. E, ao ouvir a oratória de Obama, “ela percebe que ali existe carácter”.

    Ron elogiou os discursos de Obama e criticou os de McCain. “McCain é um péssimo orador, e creio que parte do problema é que, muitas vezes, diz coisas que na realidade jamais pensou”,


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