Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 4, 2008

Notas sobre os discursos de ontem

Tenho lido várias críticas sobre os ataques aos liberais e a Obama que foram feitos ontem à noite. Eu gostava de acrescentar que Romney, Huckabee, Palin ou Giuliani não estavam a falar para Nova Iorque, Boston ou San Francisco, porque aí eles já sabem que os republicanos não tem possibilidades de ganhar. Por isso é que considerei que foram eficazes. E passo a explicar. Os ataques eram para a América profunda, do Midwest e dos estados das montanhas rochosas, que têm um intenso sentimento anti-elites, e apreciam este tipo de mensagem. Falando concretamente de Romney e Giuliani, revela alguma hipocrisia e um volte-face estrondoso em relação ao seu passado político. Mas isto é território que os estrategas americanos conhecem bem, e parece-me que os discursos poderão funcionar como pólo atractivo para os eleitores. Ontem um blogger (claro que estava a falar com um republicano) dizia-me que na maior parte dos Swing States, os independentes tendem a inclinar-se para direita, mas estão muito descontentes com o rumo do país e com a Administração Bush. E por isso, tentam “encostar” os democratas aos liberais da costa leste para dar frutos eleitorais. Veremos na próxima semana se as sondagens indicam isto.

Outra das críticas que li, e concordo em absoluto, foi que os discursos foram inteiramente populistas. Não há a mais pequena dúvida disso. Basta ver as passagens que mais entusiasmaram a audiência, como “Drill Baby Drill” de Michael Steele, ou o “Nada” de Rudy Giuliani. A própria Sarah Palin usou e abusou de tiradas populistas, até apelando ao sentimento “das mães com filhos deficientes” e o ataque aos media de Washington, sempre popular por estes lados. O populismo é uma componente muito forte da mensagem política nos Estados Unidos, e todos os candidatos são populistas, democratas ou republicanos. E não me digam que esta é uma característica republicana, porque basta revisitar Denver.

Muito se tem falado de patriotismo. A estratégia delineada é divulgar o sentimento patriótico de John Mccain. Acho que esta frase de Sarah Palin resume a principal mensagem desta Convenção: “There is only one man in this election who has ever really fought for you … in places where winning means survival and defeat means death … and that man is John McCain.”

Algumas coisas não terão corrido bem a Mccain. A crítica ao passado de Obama, e ao seu trabalho de “Community organizer” poderá não cair bem em certos sectores urbanos dos Estados Unidos. A ideia era comparar com o trabalho de Palin como Mayor, e favorecer a candidata nas cidades pequenas dos Estados Unidos, mas duvido da sua eficácia.

E um apontamento pessoal. Nesta campanha eleitoral tem-se criticado muito as elites. Na minha visão portuguesa e europeia, isto não faz sentido nenhum. Começou com Hillary Clinton, prosseguiu com Obama e tem continuado nesta Convenção. Sejamos claros: todos os candidatos e políticos que estamos a falar pertencem a uma elite. Desde o veterano de guerra casado com uma multimilionária herdeira das cervejas, à Senadora que recebeu mais de 100 milhões de dólares nos últimos 10 anos e também ao político que estudou na Ivy League, e ficou milionário com a venda dos seus livros. Eu compreendo que estas críticas de elitismo são muito populares nos Estados Unidos. Mas vindas de quem vêm, não tem muita lógica. Mas vão continuar a persistir nesta campanha, de ambos os lados.


Responses

  1. Nuno,

    Excelente análise. A política americana tem de facto traços que causam estranheza na Europa. E em Denver houve também muito populismo. Só não me parece que Obama o tenha sido: porque, para azar dele, é demasiado Ivy League para o conseguir ser. Se Obama fosse um populista, provavelmente já tinha ganho a eleição. Não precisaria de Joe Biden para os discursos ham and cheese. E teria evitado alguns embaraços na Saddleback Church. Há traços de pretensiosimo em Obama (que não critico, apenas observo) e por isso o retiraria dessa lista de populistas.

    Um abraço,
    Carlos

  2. […] Room: Ainda a noite da nomeação na Convenção Republicana No seu blog, Nuno Gouveia faz a melhor análise da noite de ontem (e certamente mais séria do que a minha). Pedindo desculpa […]


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