Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 5, 2008

“Country First”

John Mccain passou no teste. Não fez um discurso brilhante, nem arrebatou por completo a audiência no Xcel Energy Center. Mas o seu alvo principal era os milhões de americanos que estavam em casa a vê-lo. E tentou transmitir a mensagem do verdadeiro Mccain, aquele que por diversas vezes ultrapassou as barreiras do seu Partido. Um independente que põe os interesses da América acima do seu partido. Foi interessante verificar que quando abordou temas como a luta contra a corrupção ou o despesismo federal do seu partido, a plateia quase não reagiu. A reforma da política em Washington foi outro dos temas principais desta noite. Apesar de estar no Senado desde a década de 80, a sua carreira política permite-lhe assumir-se como alguém capaz de mudar a forma como o país é dirigido. Manifesto algumas dúvidas se a ideia de reforma irá “colar” para o eleitor americano. Acabou por elogiar George W. Bush, o que entrou em contradição com outras passagens. Sem nunca criticar a actual Administração, falou várias vezes em colocar o país no rumo certo. Se isto não era uma reprovação implícita das políticas de Bush…

O patriotismo e a luta por uma América mais segura e próspera, a sua carreira militar, e a história sobre os anos que esteve prisioneiro em Hanoi foram momentos fortes do seu discurso. Foram também os mais eficazes na sala e acredito que também em casa.

Esta Convenção falou muito de John Mccain. “Country First” é o novo lema da campanha republicana. Pelo que se ouviu nestes três dias, os republicanos apostam em colocar a liderança, a honra e o patriotismo no topo da agenda desta eleição.

Mccain esta noite também falou de economia e como pretende dar a volta aos problemas actuais. Mas ao colocar ênfase na segurança nacional, o GOP pode estar a remar contra a maré. As sondagens indicavam que era a economia a principal preocupação dos eleitores, que a Convenção subestimou por completo. A energia foi outro dos momentos fortes do seu discurso, apresentando uma solução diferente dos democratas. Mais exploração dos recursos petrolíferos americanos, mais energia nuclear e aposta nas energias renováveis e não poluentes é a proposta energética de John Mccain.

Neste discurso, tal como na convenção, pouco ou nada se falou em educação ou em saúde, assuntos fortes desta campanha. Mais um risco do GOP.

John Mccain criticou Obama, mas quanto baste. Não foi agressivo nem destrutivo contra o seu adversário. Isso surpreendeu-me um pouco, e foi diferente do Senador do Illinois na semana passada. Esse foi um dos pontos positivos desta noite.

Acabou em apoteose, com o público finalmente a vibrar com ele: “Fight for what’s right for our country…. We never hide from history! We make history!”

John Mccain não é o candidato de sonho para os republicanos. Notou-se na forma como foi recebido em St. Paul. Mas pode ser o candidato certo para vencer em Novembro. Esta Convenção serviu mobilizar os republicanos. Mas a partir deste discurso, Mccain precisa de fazer mais para conquistar os votos dos eleitores independentes e moderados. Tenho algumas dúvidas que a mensagem de reforma e mudança possa ser eficaz nestas pessoas. Mccain tem uma história pessoal fascinante, muito empolada nesta noite, e isso pode angariar votos. Mas o que vai decidir esta eleição são os debates. E aí, Mccain é bem melhor do que a discursar.

Outras notas desta noite

Cindy Mccain deu o típico discurso de esposa do candidato, com palavras simpáticas e elogiosas dirigidas a Mccain e Palin. O seu passado de trabalho social no mundo pode ser uma vantagem nos lares conservadores. Mas, como vimos pela sua intervenção, não deverá fazer grande diferença nesta campanha.

Os restantes oradores principais, Tom Ridge, Lindsay Graham e Sam Bronwback, não tiveram o brilho de Romney, Giuliani ou Huckabee. O Iraque, John Mccain e Segurança Nacional foram os temas abordados. Tiveram uma reacção positiva na sala, mas não me parece que tenham influenciado alguma coisa. Serviram para preencher a noite.

Esta convenção teve poucos momentos fortes. Os governadores Bobby Jindal e Charlie Crist teriam oferecido mais animação e motivos de interesse.

Sarah Palin é a nova estrela do Partido Republicano. Cada menção ao seu nome recebe uma reacção quase histérica do público. No caso de fazer uma campanha competente, há que ter em atenção esta senhora para os próximos anos. Seja Mccain eleito ou não.

Achei incrível estarem dois manifestantes na sala. Não sei se eram delegados ou membros dos media. Mas com os níveis de segurança elevados que existiam na Convenção, apenas poderiam ser pessoas creditadas. O que foi muito estranho.

O Partido Republicano tem valores simples: patriotismo, liberalismo económico, fé, conservadorismo social e liberdade. USA, Country, Military, Free Market, Small Government, God, Faith, Life e Freedom foram as palavras mais utilizadas nesta noite e na Convenção.

Amanhã estarei umas horas no Aeroporto de Philadelphia. Espero escrever umas notas de balanço sobre esta Convenção. Mas adianto que foi uma experiência fascinante, onde aprendi muito sobre política americana, e principalmente sobre o Partido Republicano.

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Responses

  1. Estes discursos foram o tradicional. Tanto os dos democratas como os dos republicanos foram feitos para os convertidos. O problema é que tanto Obama como McCain têm de agradar a áreas do eleitorado que não são as deles (mais à esquerda e mais à direita, respectivamente) sem que percam as que são tipicamente deles (os centros). Nesse aspecto, creio que Obama poderá estar mais bem apetrechado do que McCain. Isso mesmo nota-se na escolha dos vices. Enquanto que Obama optou por alguém que o completa em competências, McCain optou por alguém que o completa ideologicamente. A ver vamos qual será melhor.

    Penso que os próximos meses serão preenchidos essencialmente com o escrutínio de Palin. McCain, Obama e Biden são por demais conhecidos de toda a gente. As suas histórias já foram escrutinadas, laudadas e atacadas. A de Palin não. Ainda viremos descobrir os seus esqueletos (alguns já começaram a surgir em menos de uma semana, o que não deixa de ser sintomático) e logo se verá se eles causarão problemas ao ticket republicano. Uma coisa é certa: Palin tem de passar uma imagem mais moderada, especialmente porque, considerando a idade de McCain e a dela própria, ela tem muito fortes probabilidades de vir a ser presidente, seja por uma qualquer incapacidade de McCain, seja porque, como vice-presidente jovem, é a mais indicada para ser a nomeada republicana dentro de 4 (caso McCain não se recandidate) ou 8 anos. No caso de Joe Biden, isso não se verifica. Caso Obama ganhe estas eleições e numa hipotética reeleição, o candidato dos democratas dentro de 8 anos não será nem Obama nem Biden.

    Li algures que Palin poderá ser uma excelente escolha para candidata a vice-presidente mas uma péssima escolha para vice-presidente. Pessoalmente, que prefiro uma vitória democrata (preferiria Clinton a Obama, mas isso é outra história), gostaria que fosse ao contrário. Que Palin fosse má candidata e boa vice. Pessoalmente, inclino-me para que seja má em ambos os casos, pelo que vi até agora. Caso McCain ganhe na mesma, isso poderá ser muito, mas mesmo muito mau.

  2. Ah sim, esquecia-me. É engraçado como os republicanos repetem até à exaustão a noção de “change”, “cleaning Washington”, “small government”, etc. Essas foram frases típicas de Bush há 8 anos. A realidade foi bem diferente. Aliás, com McCain, não só espero muito mais do mesmo, como espero isso feito da forma errada. McCain é fraco economicamente, ele próprio o confessa. Uma vez que o seu “forte” é a segurança, podemos facilmente esperar maior despesa nesta área, associada aos cortes de impostos que ele propõe. Isso pode levar o défice a valores monstruosos (claro que as reformas de Obama também o poderão fazer, mas essas são menos “straightforward”).

    PS – ainda estou para perceber o fascínio dos americanos pelo facto de McCain ter sido torturado e recusado a libertação por ser filho de um almirante. Sim, é verdade que demonstrou coragem e abnegação, mas é preciso mais que isso para se ser um verdadeiro comandante-chefe das forças armadas. Quando Wesley Clark o referiu teve muita razão. Espero bem que os democratas, especialmente pela voz de generais ou antigos generais, repitam este mantra.

  3. Caros amigos,

    Por ser demasiado longa deixo a minha análise do discurso de McCain em http://ovalordasideias.blogspot.com/2008/09/anlise-do-discurso-de-john-mccain.html

    E desejo bom regresso ao Nuno.

    Carlos Santos

  4. Deixo uma análise alongada do discurso de McCain no meu blogue, O Valor das Ideias.
    Bom regresso ao Nuno.

  5. Parabéns pelo excelente trabalho!

    Valeu a pena!

    Um abraço.

  6. As daily tracking polls dão ideia de algum bounce da RNC. A da Gallup mostra Obama com +4, contando já com um dia completo de entrevistas pós discurso de Sarah Palin. A da Rasmussen pensa num efeito maior. Há também sondagens novas no Indiana e Alaska. Desenvolvo no http://ovalordasideias.blogspot.com.

  7. As daily tracking polls dão ideia de algum bounce da RNC. A da Gallup mostra Obama com +4, contando já com um dia completo de entrevistas pós discurso de Sarah Palin. A da Rasmussen pensa num efeito maior. Há também sondagens novas no Indiana e Alaska. Desenvolvo no O Valor das Ideias.

  8. Meu caro,

    excelente trabalho, parabéns.
    Boa viagem de regresso.

  9. “Sarah Palin é a nova estrela do Partido Republicano”

    Isso em si mesmo e mau.

    “Mccain tem uma história pessoal fascinante, muito empolada nesta noite, e isso pode angariar votos.”

    A hostoria de McCain mostra o seu caracter. Mas tambem mostra que o candidato e velho, aleijado e arrasta a perna porque teve um AVC. O que nao e bom augurio quando a VP se chama Sarah Palin.

    Mas McCain e um american hero. Estive no Hanoi Hilton e percebo o que McCain tera sofrido. No Vietname McCain nao era propriamente um heroi ja que o seu papel era bombardear Hanoi, sem os cuidados com as populacoes civis que ha hoje.

    Parabens Nuno pelo excelente trabalho. Fly safely.

  10. A festa macabra acabou e eu continuo preocupado..tenho medo deste flutuante eleitorado Norte Americano..este discurso ufanista patriótico é muito bem quisto por esta Sociedade..o Príncipe das trevas tentou amenizar a culpa do Rei Rebublicano,exaltando falsos conceitos de “mudança”..o mesmo blá blá blá hipócrita para enganar os independentes e indecisos..tenho muito medo sim..medo que esta Nação continue na contramão do resto do Planeta.

  11. Obrigado pelos comentários.

    Foi uma experiência fascinante. Nos próximos dias escreverei mais sobre esta Convenção.

  12. “Manifesto algumas dúvidas se a ideia de reforma irá “colar” para o eleitor americano. Acabou por elogiar George W. Bush, o que entrou em contradição com outras passagens. Sem nunca criticar a actual Administração, falou várias vezes em colocar o país no rumo certo. Se isto não era uma reprovação implícita das políticas de Bush…”

    Penso que se trata mais de assumir o legado, ainda que discorde de algumas políticas. Isso demonstra carácter (político, é claro).
    Também creio que o resto da noite foi propositadamente vazio, para aumentar o protagonismo de McCain.

    “ainda estou para perceber o fascínio dos americanos pelo facto de McCain ter sido torturado e recusado a libertação por ser filho de um almirante. Sim, é verdade que demonstrou coragem e abnegação, mas é preciso mais que isso para se ser um verdadeiro comandante-chefe das forças armadas”

    Concordo com o João André que o heroísmo em guerra não significa uma melhor gestão da Defesa, mas há-de concordar comigo que alguém que assume tamanho sacrifício pelo país não pode nem deve deixar isso em branco.
    O fascínio de que fala é o reconhecimento que qualquer povo deve a quem o serviu. Não temos cá disso, em Portugal – o que não é nada bom; é mau, é péssimo, é sintomático da mediocridade do nosso espírito de missão.

  13. PS: o site The Live Feed, que o Nuno Gouveia referia a propósito das audiências de Sarah Palin revela que o discurso de aceitação de McCain ultrapassou o de Obama, tornando-se no mais visto de sempre.

  14. Caros amigos,

    Eu acreito em sondagens. Audiências são importantes mas muita gente pode ter visto o discurso de McCain esperando o erro…não era por aí que eu concluiria alguma coisa. Quanto a Palin e ao nascimento de uma estrela, eu sugeria que vissemos o andamento da campanha: parece-me quase impossível que não continuem a saír gatos do saco do Alasca e que as gaffes não comecem a surgir. Ademais, um confronto HRC-Palin em 2012 ainda seria, em minha opinião um prato cheio para Hillary.


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