Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 9, 2008

Sarah Palin redefiniu esta eleição presidencial

Barack Obama era acusado de ser inexperiente em política externa. Optou por um veterano do Senado, um dos políticos democratas com mais credenciais na matéria. John Mccain era considerado demasiado moderado pela ala mais conservadora do Partido Republicano. Nomeou Sarah Palin, uma conservadora do Alaska. Obama desejava mudança, mas escolheu um insider Washington. Mccain falava em experiência, mas nomeou uma outsider do Alaska. Obama era a novidade e excitação desta eleição presidencial, mas jogou pelo seguro. Mccain era o candidato do status quo, mas arriscou e optou por uma novata. Obama foi pressionado para fazer uma “safe choice”, e seguiu os conselhos do partido. Mitt Romney era a opção clara do establishment do GOP, mas foi Palin que Mccain escolheu. Joe Biden não constituiu surpresa nenhuma, mas Sarah Palin apanhou os meios de comunicação social totalmente desprevenidos (devo referir que em Junho classifiquei Sarah Palin nos meus três nomes favoritos para VP).

A escolha do Veep não costuma ser decisiva para a eleição presidencial, e foi com essa assumpção que Obama seleccionou Biden. Pensou que este não lhe retiraria votos, acrescentaria algo que lhe faltava, e que acalmaria um pouco os ânimos dos apoiantes de Hillary Clinton. Mas ao apostar num político relativamente apagado de Washington, Obama criou uma oportunidade para os republicanos arriscarem e tentarem redefinir a sua candidatura. E foi nesse contexto que, numa estratégia melindrosa, mas que pode dar-lhe a presidência, Mccain foi buscar uma desconhecida Governadora do Alaska (mas não dos republicanos, como alguma imprensa portuguesa tem insinuado) e colocou-a no lugar de VP. As qualidades de Palin, como excelente “campaigner”, eram já conhecidas dos operacionais do GOP, e não será por acaso que era uma das preferidas de Newt Gingrich. O seu discurso da Convenção Republicana deverá ter sido um dos mais bem sucedidos da história da política americana. Depois de ser constantemente criticada pelos meios liberais, e também pelos media tradicionais, mais de 37 milhões viram Sarah Palin “calar” os comentadores, com uma intervenção, que foi elogiada pelos diversos quadrantes. A crítica mais feroz que lhe foi feita foi que não foi ela que escreveu o discurso, como se algum político moderno o fizesse.

As reacções dos democratas nos primeiros dias pós nomeação deixaram-me estupefacto: Será que eles pensavam que Rick Davis e Steve Schmidt iriam reavivar um Dan Quayle de 1988? A forma pretensiosa e condescendente com que receberam a nomeação de Palin, falando até na sua possível desistência, é explicativa da razão porque desde 1964 os democratas só ganharam umas eleições presidenciais com um candidato regular (Bill Clinton é um caso à parte). Enquanto os republicanos são objectivos nas suas decisões políticas, e agem para vencer, os democratas tendem a ser idealistas e muito pouco pragmáticos.

Os dias que se seguiram à RNC continuaram a ser de Palin (capa de revista da Time, US Weekly, Newsweek, People, National Enquirer, Newsmax, só para citar algumas que vi). Quer nas notícias negativas, mas também pela enorme onda de entusiasmo que introduziu na campanha de John Mccain: O dinheiro jorrou nos cofres republicanos, os comícios encheram-se de gente e energia, e Mccain subiu nas sondagens. Por alguma coisa Palin ainda está em campanha com John Mccain, quando era previsto ter regressado ao Alaska no fim-de-semana.

Barack Obama (as suas várias referências a Palin são, do meu ponto de vista, erradas) e Joe Biden têm concentrado os seus ataques em Palin, e têm estado a jogar à defesa. A dinâmica desta campanha alterou-se substancialmente: Mccain-Palin é a novidade e excitação do momento. Os “mavericks” prometem reformar e mudar Washington. E nota-se alguma descoordenação na campanha de Obama. Significa isso que Mccain-Palin irão vencer? Estão muito longe disso. Os estrategas democratas ainda estão a tentar acertar com a mensagem, mas a ligação Bush-Mccain-Palin parece-me a estratégia sensata para combater o fenómeno Palin. O mais difícil será concretizar essas ideias, pois Mccain tem um passado de independência, e não terá sido por acaso que em 2004 foi mencionado par VP de Kerry. Sarah Palin é ideologicamente muito próxima da actual Administração, mas está há pouco tempo na política nacional.

As constantes notícias negativas que têm saído sobre Palin podem constituir uma vantagem para os democratas, e talvez os eleitores se cansem de ouvir falar de Palin nos próximos meses. E pode sempre surgir uma “bomba”, que acabe com definitivamente com o fenómeno e, consequentemente, com Mccain. E teremos sempre as entrevistas. Sarah Palin ainda não deu nenhuma desde que assumiu a candidatura. A primeira será no final desta semana, com Charlie Gibson. Conhecendo o jornalista em questão, sabemos de antemão que as perguntas não serão de fácil resposta. Com esta expectativa criada, a audiência será novamente elevada. E o sucesso dependerá da prestação de Sarah Palin.

Barack Obama precisa de agarrar novamente o “momentum” desta campanha. E terá ainda três momentos decisivos, os debates presidenciais. E o confronto entre Biden-Palin, que poderá ser fundamental, pela primeira vez na história da política americana. O Senador do Delaware é um excelente “debater”, como tive a oportunidade de constatar nas primárias. E neste fórum, a experiência pode ser decisiva. E o estado de graça de Palin pode terminar tão repentinamente como começou.

vencerá, apesar de Biden. Mccain vencerá, devido a Palin. E esse foi o risco do candidato republicano nesta escolha para Veep. Se foi uma boa opção de governação? Obama cooptou alguém para o ajudar a governar, Mccain, quer ser Presidente.

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Responses

  1. “Estão 139 votos em discussão” referentes aos leaning Estados.

    A dinâmica das campanhas deverá passar por estes Estados, sobretudo se se houver tb, nestes Estados, eleição de Governador e/ou de Senador.

  2. “The McCain campaign has finally admitted that this election is about change.

    Their new ad uses what news organizations are calling “naked lies” to reinvent two politicians whose records embody the same culture of corruption and far-right policies we’ve seen from the Bush administration.

    The biggest whopper in the ad (that’s still being repeated day after day by McCain and Palin on the campaign trail) is that Governor Palin stopped the infamous “Bridge to Nowhere” — in fact, she supported it, and even hired a lobbyist in Washington to get more pork-barrel projects like it.

    If the McCain-Palin campaign wants to have a debate about who is prepared to bring the change we need, we’re more than ready.
    Here are the facts …

    Sarah Palin was a vocal supporter of the infamous “Bridge to Nowhere” — the symbol of the Republican culture of corruption — turning her back on it only after the project’s bloated pork-barrel waste was exposed.

    Their ad also claims John McCain has “reformed” Washington — which would undoubtedly come as a surprise to the Washington lobbyists who are running his campaign and the special interests who have been funding it.

    The most “maverick” thing about these two politicians right now is that they continue to support George Bush’s disastrous policies long after we have all seen the damage they are doing to our country.

    Barack Obama and Joe Biden are ready to bring the change we need to Washington. They’re on the campaign trail every day talking about it — just today, Barack laid out his plans to transform education.

    But we can’t let these ridiculous claims from the McCain campaign stand.”

  3. “– o estado de graça de Palin pode terminar tão repentinamente como começou.”

    Lendo o artigo mencionado por Joe tudo aponta que sim.

  4. Caro Jack,

    Esse texto em inglês é claramente retirado de um contexto de política partidária. Vou só rebater alguns exemplos, que são claramente errados:

    “embody the same culture of corruption and far-right policies we’ve seen from the Bush administration.”
    Dizer que Mccain é de extrema-direita e que faz parte de uma cultura de corrupção é mentira, e nem sequer acredito que isso tenha vindo da campanha de Obama. Relembro que foi Mccain que foi atrás do Jack Abramahoff

    Sobre a famosa “Bridge to Nowhere”, Sarah Palin apoiou durante a sua campanha, mas quando chegou a governadora retirou o seu apoio. Mas sejamos sérios: Obama e Biden apoiaram essa votação no Senado. http://www.cdobs.com/archive/our-columns/obama-and-biden-voted-for-bridge-to-nowhere,1628/

    Não me parece que seja por ai que Obama vá “abater” o momentum de Palin.

    Abraço

  5. Já agora, os artigos na Economist da passada sexta feira que dizem respeito a Sarah Palin:

    http://www.economist.com/world/unitedstates/displaystory.cfm?story_id=12066224

    http://www.economist.com/world/unitedstates/displaystory.cfm?story_id=12060464

    http://www.economist.com/world/unitedstates/displaystory.cfm?story_id=12066196

    E o artigo sobre a convenção republicana (ainda sem o discurso de McCain):

    http://www.economist.com/world/unitedstates/displaystory.cfm?story_id=12060472

    Isto de um jornal que não é minimamente liberal (do ponto de vista americano, embora o seja do ponto de vista europeu) e que é normalmente mais conotado com republicanos que com democratas (mesmo que tenha dado o seu endorsement a Kerry contra Bush).

    Pelo que tenho visto nisto tudo, a não ser que Palin demonstre ser uma brilhante oradora (os artigos na Economist declaram o discurso apenas como bom) e excelente em debates, não creio que traga votos acrescidos aos republicanos. Assegurará certamente o voto conservador que poderia não gostar da ideia de votar em McCain (mas que nunca votaria em Obama) e isso poderá explicar um pouco a forte subida na Carolina do Norte. Nesse aspecto creio que foi boa escolha pelos republicanos (pelo que tenho lido, tenho dificuldade em acreditar que tenha sido uma escolha pessoal de McCain). Ainda assim, não creio que traga vantagens no eleitorado mais ao centro.

    Por outro lado, a escolha de Biden pelos democratas vai no mesmo sentido. Trazer os votos dos democratas blue-collar workers que se identificariam com Clinton mas que não gostam muito de Obama. O eleitorado de classe média ou média alta ao centro não liga tanto a Biden como a Obama, por isso não haverá grande diferença neste campo. Biden terá sido, tal como Palin, uma escolha para atrair os partidários “não-convencidos”. Apenas uma diferença: Palin é, creio, uma escolha para vencer. Biden uma escolha para depois de vencer. Aí concordo completamente com a tua afirmação «Obama cooptou alguém para o ajudar a governar, Mccain, quer ser Presidente».

    Já agora, parabéns pelo trabalho na convenção republicana. Excelente e demonstra bem a tua dedicação a esta tarefa. Apenas uma crítica, se mo permites. As convenções são feitas para o espectáculo, sejam elas de que partido forem. Por isso mesmo, creio que poderás ter sido levado um pouco no espectáculo da convenção republicana e por isso ter sido levado a acreditar num entusiasmo maior que aquele que existe na realidade. Não por ser republicana. Tivesses ido à democrata e seria provavelmente o mesmo. Posso estar enganado, claro, apenas digo isto pelo que li noutros media (que leram o entusiasmo de forma mais branda) e pela minha própria experiência em ambientes semelhantes com partidos portugueses (até mesmo com partidos que não apoio senti entusiasmo). De resto, foi um trabalho notável Nuno. Parabéns, de novo.

    PS – não sei se este comentário surge em duplicado, mas da primeira vez não apareceu.

  6. Obama perdeu as eleições no momento em que não nomeou Hillary.

  7. O meu comentário inicial foi publicado? Não o vejo e não o consigo republicar…

  8. Caro João André,

    Não sei o que se passa. Alguns comentários estão a ir directamente para o Spam. E só quando vou lá ver é que os posso retirar. Peço desculpa pelo sucedido…

  9. Não faz mal Nuno, agora já surge. Provavelmente foi pela extensão e pelos links.

  10. Caro João André,
    Eu até acho que fez um excelente discurso, e foi elogiado pela imprensa americana, de forma genérica. Se vai dar muitos votos a Mccain, acho que ainda é cedo para dizer. Mas se fizer uma boa campanha, sair-se bem nos contactos com os media, e ficar acima das expectativas no debate com Biden, poderá mesmo acrescentar alguma coisa ao ticket. Claro que também poderá retirar votos a Mccain. Dependerá muito da sua prestação, mas acho que não será ficará indiferente.

    Em relação ao entusiasmo, considero essa uma crítica justa e séria. Talvez me tenha deixado levar, mas disse várias vezes que não senti um grande entusiasmo nos republicanos na terça e na quinta, dia do discurso de Mccain. Mas no dia de 4ª feira, a sequência Romney-Huckabee-Giuliani-Palin foi verdadeiramente diabólica, e posso testemunhar que os Reps estavam verdadeiramente entusiasmados, como talvez nunca tenham estado nestas eleições. Claro que estamos a falar de um puro espectáculo, criado para os ecrãs televisivos e nisso concordo em absoluto. E as pessoas tendem e participar no show. Mas acho mesmo que Palin mudou o curso desta eleição, nem que não seja pela energia e motivação que introduziu no GOP.

    Abraço

  11. Eu acho que Obama perdeu a cabeca! Descer ao nível de atacar a candidata a VP do oponente?! Kerry já fez isto há 4 anos e foi o que se viu…


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