Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 11, 2008

Profissionalismo na política?

As “entourages” dos candidatos são um dos aspectos mais fascinantes da política americana, com a  sua variedade de assessores políticos. Nestes destacam-se obviamente os consultores de comunicação. Rui Calafate deixou-me um desafio para escrever sobre o que penso, nomeadamente através da minha experiência na RNC. Apesar de não ter vivido tão de perto como desejaria esta relação que se estabelece entre os media e staff dos candidatos, aqui vai a minha opinião.

Os políticos portugueses são demasiado “inteligentes”, “genuínos” ou “sérios” para usufruírem de serviços de profissionais. Pelo menos é o que manifestam publicamente. Se calhar é por isso que tanta gente se interessa pelo nosso debate político. Exemplo: o dislate com que a nova direcção do PSD enfrentou as agências de comunicação e o marketing político. Claro que ele existe, mas é dirigido por “amadores” ou profissionais “camuflados”, que desejam manter uma aparência realista e “verdadeira”. Os PRs e os consultores de comunicação são encarados como agentes da deturpação e do logro. Nada mais falacioso e demagógico.

Nos Estados Unidos, e como todos sabem, as coisas são muito diferentes. E num patamar bem mais elevado, se comparado com a nossa realidade. Os assessores de comunicação são fundamentais na divulgação da mensagem e na condução de uma campanha. Se a política é uma componente decisiva da vida em democracia, porque razão não deverá ser conduzida por profissionais e experts?

Para quem segue esta campanha, os nomes de Howard Wolfson, Steve Schmidt, Rick Davis ou David Axelrod não são estranhos nenhuns. São os elementos que definem as estratégias globais para captar o voto dos eleitores. Moldam e preparam a mensagem dos candidatos, para que estes a apresentem ao público. E são também emissores da mensagem.

Nas estruturas de campanha, temos centenas de assessores, que mantêm a pressão sobre estruturas mediáticas. E nada escapa a estes profissionais da comunicação, sejam jornais, revistas, apoiantes, blogues ou programas de televisão. Há várias dimensões no seu trabalho, mas gostava de me concentrar na sua relação com os media. “Stay on the Message” é um dos elementos mais difíceis numa campanha. Estes assessores são os principais responsáveis pela sua sustentação: No media training aos apoiantes, escrevendo artigos, colocando comentários em blogues ou no envio de memorandos para os jornalistas. É normal estarmos a ver um programa de televisão, e alguém dizer: ”recebi agora uma informação da campanha do Senador…”. A monitorização e resposta imediata é uma das componentes mais fascinantes do trabalho destes consultores.

Na RNC’08 estes profissionais estavam por todo o lado. Talvez eu não sentisse isso muito de perto, pois era um simples blogger, e, ainda por cima, estrangeiro. Mas mesmo assim foi destacado um assessor para transmitir a notícias aos credenciados como bloggers. Através dele recebíamos as informações para cobrir a RNC com precisão: antecipações dos discursos, programa do dia, widgets para usar nos blogues, e claro, algum spin. Mas havia profissionais que cobriam todas as áreas de comunicação: assessores de imprensa, new media, bloggers, speakers, etc. O que apreendi, até em conversas com operacionais republicanos, é que política é sinónimo de comunicação. E quem não souber comunicar, não sabe fazer política, seja através da escrita, da imagem, do vídeo ou da oralidade. E como os americanos gostam de ser os melhores, qualquer operacional com responsabilidades é um profissional.

Também na análise política, as coisas são muito diferentes. Em Portugal, quando vemos um programa televisivo de discussão, salvo raras excepções, temos uns analistas “independentes”, que fazem de conta que não têm preferências políticas, e oferecem a sua visão sobre os nossos políticos. Nos Estados Unidos é tudo muito mais transparente. Podemos ver Karl Rove ou Howard Wolfson na Fox News ou James Carville ou Alex Castellanos na CNN. E quem são estes? Antigos operacionais da politica, e completamente conotados com os candidatos. Não estão a enganar ninguém.

Eu prefiro esta clareza de procedimentos. Sabemos quem são os políticos, os estrategas e os analistas. Cá, às vezes tenho a sensação que nem sabemos quem são os políticos.

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Responses

  1. […] * Se você estava esperando uma piada, sinto decepcionar. É um post do blogueiro português Nuno Gouveia, que passa um período de estudos nos Estados Unidos e aproveita para cobrir muito bem as […]

  2. Ca tambem sabemos. Ou quando ouve i Luis Delgado acha que ele e independente?

  3. Nem Luís Delgado, nem obviamente outros, como Rui Tavares ou André Freire.. Esses de certeza que não são independentes. Mas referia-me a termos estrategas comentadores perfeitamente identificados com uma candidatura. Luís Delgado pode ser de direita, mas nem por isso está lá a defender o PSD ou CDS. Rui Tavares ou André Freire são de esquerda, mas nem por isso estão lá a defender o governo socialista. Era esta a minha ideia…..

    Se calhar também advém da pobreza que existe em Portugal nas pessoas politicamente comprometidas com um partido, e os meios de comunicação sentem a necessidade de ir buscar outras pessoas para comentar.


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