Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 12, 2008

Entrevista de Sarah Palin

Política externa e Deus dominaram a primeira entrevista concedida por Sarah Palin depois de ter sido nomeada candidata a Vice-presidente por Obama. E apesar de algumas declarações polémicas, o saldo é positivo.

As suas declarações mais polémicas? Se a Geórgia fosse membro da NATO e se fosse invadida pela Rússia, isso significaria guerra com os Estados Unidos.  Mas não será isso o que diz o Tratado da Aliança, nomeadamente no artigo 5? A pergunta foi bem feita pelo jornalista, para tentar apanhar uma contradição no discurso de Palin, que neste caso conseguiu dar a volta à questão.

Questionada sobre se concordava com a Doutrina Bush, notou-se que a candidata não sabia do que estava a falar. Quando Gibson lhe falou na guerra preventiva, então sim, ela afirmou que concordava com a estratégia. Este poderá ter sido o momento mais confrangedor para Sarah Palin, que obviamente não é nenhuma expert em política externa, mas também não foi por isso que Mccain a escolheu para VP. A entrevista reforçou as suas fracas credenciais nesta matéria, mas não me parece que vá ser muito prejudicial nesta campanha. Afinal de contas, ainda há pouco tempo Obama pediu que a ONU forçasse a Rússia a retirar da Georgia, demonstrando desconhecimento da forma como funciona o Instituição. E nem por isso a sua campanha retraiu-se sobre por essa tirada.  Os pundits e activistas políticos tendem a reagir com demasiada agressividade em relação aos adversários, e brandura para com os seus candidatos. É preciso ver os dois lados da questão e não tirar conclusões precipitadas. Já era esperado que Palin cometesse erros relativosà política externa, mas apesar disso, acabou por sair-se relativamente bem.

Na restante parte da entrevista que vi, Sarah Palin pareceu-me segura de si, falando com a convicção que se impunha. Não cometeu gaffes, e pode-se dizer que passou no teste. Mas sem distinção. Veremos hoje a segunda parte da entrevista.

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Responses

  1. Caro Nuno,

    “Afinal de contas, ainda há pouco tempo Obama pediu que a ONU forçasse a Rússia a retirar da Georgia, demonstrando desconhecimento da forma como funciona o Instituição.”

    No espirito de salutar discordância, permit-me dizer que o que Obama disse está longe de mostrar como funciona a instituição. É evidente que eu percebo o seu argumento: a Russia tem poder de veto no Conselho de Segurança. Mas devo concluir que se usa esse argumento, então discorda de uma ordem mundial assente no Conselho de Segurança? Isso confere legitimidade a todo o tipo de ataques unilaterais que violem a ordem jurídica internacional. Legitimia, no limite, invadir o Iraque porque não se gosta do ditador. Sabe que nisto dos ditadores tanto os americanos como os Russos sempre tiveram os que gostavam e os que não gostavam.
    Palin, sim, demonstrou desconhecer o papel da ONU e a palavra diplomacia. Eu recomendava-lhe o Kissinger. Em todo o caso, eu percebo que a resposta dela seja eleitoralmente eficaz: o straight talk ganha sempre mais votos que a reflexão. Só que alegadamente nós somos o Homo Sapiens.
    O Conselho seria ineficaz, dir-me-á. Não necessariamente. Putin precisa de um adversário externo para alimentar o sonho de uma grande Rússia aos esfomeados do seu país. Quem lhe garante que a Russia, ou a China não faltariam à votação no Conselho de Segurança, autorizando o confronto…como já fizeram?
    Os homens pequenos como Putin, são bullies. Mais conversa que outra coisa…
    Além disso, esta não é a primeira falha da Palin nesta matéria. Quando se pronunciou sobre Guantanamo na RNC ridicularizou que houvesse preocupação com os direitos dos presos. Ela sabe o que diz a convenção de Genebra? Para todos os efeitos há uma Bill of Rigts. E se há uma War on Terror, os prisioneiros em Guantanamo são POW. Um homem como McCain devia ter mais cuidado antes de escolher alguém a quem a ordem internacional não diz nada….

  2. Não que tenha muito a ver com este debate, mas sinceramente eu não confio muito numa organização onde países como a China e a Rússia têm poder de veto. Birmânia, Tibete e Darfur são três exemplos onde a ONU simplesmente não faz nada, porque estava amarrada aos desejos destes países, especialmente da China. A ONU pode ser eficaz em conflitos onde os cinco países não tenham interesses directos. Eu até acho incrível como uma estrutura assente na velha ordem mundial pós II guerra ainda gera tantos consensos. A comunidade internacional precisa de mecanismos mais eficazes, que não dependam tanto de tiranos e ditaduras…. Mas não era sobre isso este post.

    A Rússia nunca iria deixar de exercer o poder de veto para impedir que o seu país fosse condenado por qualquer agressão que cometesse. Talvez a única vez, em grandes acontecimentos internacionais que isso aconteceu foi na Guerra da Coreia, quando Estaline cometeu um erro de cálculo. ao ausentar a URSS da votação, permitindo às forças das Nações Unidas defender a Coreia do Sul. Por isso, Obama também demonstrou algum desconhecimento no que a ONU pode ou não fazer no mundo. Mas isso é um fait-diver, sem relevância nesta campanha.

    Aliás, analisando de forma séria, uma boa parte dos episódios com mais destaque nesta já longa campanha são verdadeiros fait-divers, sem relevância política: jeremiah wright, filha grávida de Sarah Palin, Bitter and Guns, Huckabee sobre Mormons, comentários de Jesse Jackson, velhice de Mccain, Hillary na Bósnia, declarações de Ferraro, o uso das drogas de Obama, as contas de Mccain, a possível infidelidade de Mccain…

    Mccain é contra Guantanamo, e é com essa plataforma política que está a concorrer. Se Ossama Bin Laden e os seus comparsas são POWs? O Supremo Tribunal diz que sim, mas a maioria dos Republicanos não concorda. Sarah Palin faz parte dessa maioria. Mccain não.

    Sarah Palin não é uma expert em política externa, e certamente não precisávamos de ver a entrevista para saber isso. Mas Barack Obama também não é. E está a cometer um erro ao atacar Palin por este facto, porque está a discutir com o VP. No final, a escolha dos americanos será sobre o top of the ticket. E, como bem têm avisado analistas, Obama tem de esquecer Palin e concentrar-se em Mccain.

    Se continuarem neste debate a conclusão será: “Obama sabe mais que Palin, isso é verdade. Mas quem sabe mesmo mais é Mccain”.

    Abraço

  3. Uma correcção Nuno: se não me engano, o artigo 5 precisa de ser invocado pela organização. Não é automático. Ou seja, se a Rússia invadisse uma Geórgia pertencente à NATO, esta não estaria automaticamente obrigada a uma resposta, apenas o faria se a organização no seu todo (não me lembro por que tipo de voto) assim o decidisse. Um exemplo foi a invasão das Falklands, território britânico, que não implicaram uma acção de toda a NATO. E em termos administrativos o caso seria semelhante.

    Aliás, apontar a ignorância de Obama na situação do Conselho de Segurança da ONU passa por o tornar ingénuo relativamente às movimentações geopolíticas. Nesse caso, a afirmação de Palin é semelhante, uma vez que é mais que óbvio que a Geórgia (nem, possivelmente, a Ucrânia não aderirá à NATO num futuro próximo (que envolverá a próxima administração americana). Ninguém quer uma guerra com a Rússia.

    Quanto ao teu comentário: “Obama sabe mais que Palin, isso é verdade. Mas quem sabe mesmo mais é Mccain”, tens razão, mas essa é uma situação que Obama nã pode mudar. Creio aliás, que é boa ideia atacar Palin por esse lado por duas razões simples: por um lado, Obama demonstra saber mais do que outra pessoa (mesmo que tenha que ser o VP de McCain). Por outro lado, Palin tem sérias possibilidades de vir a ser presidente no caso de incapacidade de McCain (maiores que as de Biden por incapacidade de Obama), o que significa que o VP republicano tem que ser mais sólido que o democrata (pelo menos é esta a mensagem que os democratas devem fazer passar). Qualquer falha de Palin deve então ser exagerada ao máximo, especialmente porque foi muito por Palin que os republicanos recuperaram este alento todo.

    Quanto à entrevista, ainda não a vi (li apenas umas coisas nos blogues e nos jornais online). Fá-lo-ei mais logo.

  4. A abordagem de João André afigura-se , seguramente, mais consistente.

    Importa agora ver as implicações das explusões dos Embaixadores americanos na Bolívia e na Venezuela.

  5. Isto de Mccain não dominar computador, telenóvel, etc. Demostra claramente que refractário ao progresso, à modernização….

  6. Caro João André,

    De facto em relação ao ponto 5, concordo que o processo não é automático. Também porque ninguém desejará violar as fronteiras territoriais da Nato. A última vez que me lembro do artigo 5 ser invocado pela NATO foi no ataque às Torres Gémeas, na altura do 11 de Setembro.

    Eu acho que Obama faz mal em criticar directamente Palin. É óbvio que a sua campanha deve explorar ao máximo as gaffes de Palin. Mas Obama deve afastar-se desse conflito. Os candidatos presidenciais devem confrontar-se com o seu adversário directo, deixando o o trabalho “sujo” para outros…

  7. Caro Nuno Gouveia,

    “Se continuarem neste debate a conclusão será: “Obama sabe mais que Palin, isso é verdade. Mas quem sabe mesmo mais é Mccain”.”

    No entanto, entre todos, quem cometeu a maior gaffe foi McCain quando baralhou sunitas e xiitas.

  8. Numa nota sobre números, houve algum optimismo republicano sobre a sondagem de hoje da Rasmussen relativa a Washington. Parece-me absurdo como argumento em http://ovalordasideias.blogspot.com/2008/09/washington-state-metro-seattle-e-o-west.html.
    Em todo o caso, sobre Palin e a ONU uma observação apenas adicional: O Nuno concordará que o entendimento do Supremo Tribunal deve prevalecer sobre o de uma candidata a VP, não? E que as dissidências McCain-Palin (apesar de esta começar a admitir que talvez quem sabe o homem tenha alterado o ambiente….) são claramente maiores que as sentidas em Obama-Biden. O que não me parece bom para os primeiros….

    Carlos

  9. Só uma nota em relação ao tratado.

    O ponto 5 é automático, apesar da interpretação que tem sido dada é de que o estado atacado necessita de pedir auxílio (o que é normal em alianças, para evitar escaladas automáticas de conflitos menores).

    Em relação às Falklands, o problema prendeu-se antes com o ponto 6 , que limita o raio de acção ao Atlântico NORTE do Trópico de Câncer (excluindo, portanto, as Falklands). Portugal teve uma resposta idêntica aquando da invasão de Goa, Damão e Diu pela União Indiana.

  10. O que os Obamaníacos têm tentado fazer:

    The network teased the interview on its Web site this afternoon with this eye-popping bulletin: “Exclusive: Gov. Sarah Palin warns war may be necessary if Russia invades another country.” But the transcript showed that she was merely repeating Mr. McCain’s position and had not used provocative language. And we’re wondering if the McCain camp is reconsidering its selection of ABC, since it hyped the teaser to sound like Ms. Palin was ready to press the button.

    E este texto é do…. NYT. Até o NYT tem de reconhecer as distorções…

  11. Caro Carlos Santos,

    Obviamente as decisões do Supremo Tribunal são para serem seguidas….. Mccain prometeu fechar Guantanamo, por isso, não tenho dúvidas que tal aconteça, caso vença as eleições…

    O ticket Mccain-Palin é muito diferente de Obama-Biden. Mas a plataforma com que os republicanos estão a concorrer são com as propostas políticas de Mccain, que aliás, Palin tem abraçado.. A menos que Palin viesse a público criticar Mccain, o que não parece verosímil, essa diferenças, que existem, não vão afectar muito…

    Caro Jorge A.
    Não sou eu quem diz que John Mccain é o mais indicado para lidar com a política externa. São as sondagens americanas…

  12. A barbie conservadora fez mais uma de suas peripécias..é fogo cerrado na Rússia se se meterem a besta..esse partido retrógrado é alimentando pela indústria bélica..são aficcionados por invasão e por guerra..não tem jeito!Esta é a verdade!E os apelidos “SEITA MACABRA” e “VAMPIROS SANGUINÁRIOS” são mais do que condizentes com a realidade!Vivo em um País em desenvolvimento,mas graças a Deus somos um povo pacífico..me recuso a escutar certas insanidades sem contestar.

  13. Estive a dar uma volta hoje por blogs próximos de think-thanks democratas e parece que existe um consenso que a campanha democrata devia pura e simplesmente “esquecer” a Palin (salvo alguma gaffe / escândalo monumental).

    A campanha desenfreada que a base democrata desenvolveu contra a Palin acabou por virar contra eles… Citando Chesterton:

    “‘When a man believes that any stick will do, he at once picks up a boomerang”

    E que, como efeito secundário, acabou por revestir a Palin com uma camada bastante resistente de Teflon… o que não dá jeito nenhum a oponentes políticos.

    Espero francamente (salvo estarem em modo kamikaze) que os democratas voltem a refocar a campanha no McCain, até porque estarão eventualmente mais sólidos nesse campo.

  14. Caro Nuno,

    “Não sou eu quem diz que John Mccain é o mais indicado para lidar com a política externa. São as sondagens americanas…”

    Não é isso que as sondagens dizem. O que as sondagens dizem é que os americanos tendem a ver McCain melhor no campo da politica externa do que Obama – ou seja, as sondagens nada indicam sobre qual o melhor preparado, apenas indicam qual a percepção das pessoas sobre o assunto.

    Se reparar aliás, há pouco tempo Obama perdia no campo da politica externa, mas liderava no campo da economia – hoje há sondagens que colocam McCain com vantagem em relação a Obama na questão económica – a percepção varia e nada diz sobre o que constitui a verdade.

  15. O artigo que explica melhor as razões da recente queda de Obama:

    http://www.timesonline.co.uk/tol/comment/columnists/gerard_baker/article4735295.ece

    “Barack Obama the speechmaker is being rumbled

    There is a yawning gulf between what the Democratic candidate says and how he has acted. That’s why the race is so close.”

    Vale a pena ler na totalidade.

    Este é o problema de Obama: ele apresenta-se como uma coisa, mas durante toda a sua carreira política, fez outra.

  16. É verdade que é essa percepção que os americanos têm dos candidatos. Não quer dizer que isso seja verdade… Mas não será isso que é mais importante numa eleição?

    Por alguma coisa, a mensagem principal da RNC foi a capacidade de Mccain para lidar com a política externa. Os pollsters não dormem….

  17. Caro Carlos Duarte,

    Já lhe deixei a pergunta no seu comentário em http://ovalordasideias.blogspot.com e como não respondeu e aqui insiste no mesmo ponto eu repito: consegue-me dizer com um ar sério que SE Portugal tivesse pedido a intervenção da NATO contra a Indonésia por um ataque territorial contra Timor a teria obtido? Lembre-se quem esteve na véspera em Jakarta.
    O meu argumento é o mesmo: os tratados internacionais têm leituras políticas consoante as circunstâncias. Palin está demasiado “fired up and ready to go”.

  18. Caro Nuno:

    a) a mensagem principal da RNC foi que McCain era um herói e um POW. Se isso qualifica alguém para Presidente é duvidoso. Mas acima de tudo aquilo foi uma parada militar de veteranos para impressionar a Virginia.
    b) quanto aos pollsters não dormirem, depende dos que estiver a falar. Eu durmo pouco…:)
    c) “as propostas políticas de Mccain, que aliás, Palin tem abraçado.. ” Na segunda parte da entrevista à ABC temos o prazer de ver essa concordância sobre o offshore drilling no Alasca, por exemplo….

    Jorge A.

    Subscrevo o que diz. Mas pensar que McCain é mais habilitado para lidar com a Economia, diz-nos muito sobre o entendimento de Economia do eleitor americano. Como expliquei em tempos, o plano McCain para a Economia é irrealizével.

  19. Caro Carlos,

    A RNC foi um sucesso eleitoral, como se depreende das sondagens desta semana e da reacção da esmagadora maioria dos analistas políticos americanos. Não só esbateram a vantagem que Obama tinha alcançado em Denver, como ainda ficaram ligeiramente à frente.

    Os discursos da RNC foram essencialmente: ataques a Obama quase sempre baseados na sua incapacidade para lidar com as ameaças externas, elogio do passado de Mccain ao serviço dos EUA, como POW e como senador, o elogio do sucesso da “surge” no Iraque, e a mensagem de reforma e mudança de Washington, representado pelo ticket Mccain-Palin. A segurança nacional foi um dos temas mais abordados pelos diferentes oradores que passaram por Minneapolis. Reduzir isso a uma parada militar para impressionar a Virgínia parece-me redutor, e um pouco depreciativo para os estrategas republicanos…

    Sobre a minha ideia das propostas que Palin tem “abraçado” de Mccain, acho que esta noticia não poderia ter sido mais conveniente:
    http://thepage.time.com/2008/09/12/mccain-palin-go-on-stem-cell-offense/
    É evidente que será impossível que os dois concordem em 100%. Tal como Biden e Obama não o farão. Mas o que me parece evidente é que não haverá problemas na campanha devido a esses desacordos…

  20. “Mas pensar que McCain é mais habilitado para lidar com a Economia, diz-nos muito sobre o entendimento de Economia do eleitor americano. Como expliquei em tempos, o plano McCain para a Economia é irrealizével.”

    Uma excelente ideia é o proteccionismo económico.

    O Obama quer proibir as importações da China. Diz-nos muito sobre as habilitações do Obama para lidar com a Economia.

  21. http://www.cbsnews.com/stories/2008/09/11/politics/politicalplayers/main4442492.shtml

    Ex-Clinton Aide: Media Tougher On Palin
    Political Players: Former Clinton Chief Strategist Mark Penn Argues The Press Has Lost Its Credibility

    CBSNews.com: So you think the media is being uniquely tough on Palin now?

    Mark Penn: Well, I think that the media is doing the kinds of stories on Palin that they’re not doing on the other candidates. And that’s going to subject them to people concluding that they’re giving her a tougher time. Now, the media defense would be, “Yeah, we looked at these other candidates who have been in public life at an earlier time.”

    What happened here very clearly is that the controversy over Palin led to 37 million Americans tuning into a vice-presidential speech, something that is unprecedented, because they wanted to see for themselves. This is an election in which the voters are going to decide for themselves. The media has lost credibility with them.

  22. Caro Tsss,

    Mark Penn também não será propriamente alguém que deseje que Obama seja eleito….

  23. Caro Nuno,

    “Mas não será isso que é mais importante numa eleição?”

    É. Mas a minha percepção nesse campo é diferente: Obama domina mais as exigências que se colocam à actual politica externa norte-americana do que McCain – e curiosamente parte da actual politica de Bush segue as orientações que Obama estabeleceu para a sua campanha. Parece-me, aliás, que McCain, com experiência ou sem experiência, com conhecimento ou sem conhecimento, pode resultar num presidente perigoso para os tempos que se avizinham.

    Caro Carlos,

    “Mas pensar que McCain é mais habilitado para lidar com a Economia, diz-nos muito sobre o entendimento de Economia do eleitor americano.”

    Mas conhece algum país cujo eleitor médio tenho conhecimentos aprofundados de Economia? Mesmo assim, parece-me fácil argumentar que o eleitor médio americano é mais conhecedor dos principios básicos de economia do que, por exemplo, o eleitor médio português. Depois repare que a politica económica estabelecida por McCain não saiu da cabeça deste, mas antes da dos seus acessores (tal como a politica externa de Obama saiu da cabeça dos bons acessores que este tem). E conhecendo os acessores de McCain, não me parece que os mesmos sejam propriamente iletrados economicamente. No fim, tendo em conta a orientação liberal (no sentido europeu do termo) dos eleitores americanos, percebo perfeitamente que prefiram McCain – só acho que McCain falha quando fica-se pela promessa da baixa de impostos e pouco diz sobre o corte de despesas – pelo que promete uma repetição dos défices externos da administração Bush.

    “Como expliquei em tempos, o plano McCain para a Economia é irrealizével.”

    E era bom que parte do plano de Obama caso eleito presidente, também não se realizasse – porque apesar de “realizável”, não me parece que os fundamentos económicos por trás do mesmo sejam desejáveis.

    Claro que, em última análise, prefiro Obama a McCain, mas isto porque acho que a vertente da politica externa é mais importante do que a vertente da politica económica – e porque, de facto, os poderes do presidente americano são mais relevantes na vertente externa do que na vertente económica. Um bom exemplo em como os poderes presidenciais na vertente económica não são tão grandes quanto parecem, e por vezes resultam em paradoxos, pode ser encontrado aqui com explicado pelo Greg Mankiw:
    http://www.nytimes.com/2008/09/07/business/07view.html?ex=1378440000&en=4714b7da11d86f01&ei=5124&partner=permalink&exprod=permalink

    “Senator John McCain wants to maintain the current tax rate of 15 percent on dividends (while cutting the corporate tax), but it is a good bet that if Senator McCain is elected president, while Congress remains Democratic, Congress won’t give the Republican president what he wants. They would instead let the Bush tax cuts expire, returning the dividend tax for high-income taxpayers to about 40 percent.

    By contrast, if Mr. Obama is elected, Congressional Democrats will be less likely to balk at his proposed 20 percent dividend tax rate and thus embarrass the new president from their own party.

    This leads to one of the great ironies of the political season. On the issue of dividend taxation, Barack Obama may be the candidate with the best chance of preserving George Bush’s legacy.”

  24. “pelo que promete uma repetição dos défices externos da administração Bush.”

    Leia-se défice orçamental, obviamente.

  25. A pergunta sobre a Rússia foi teórica e a resposta esteve no mesmo nível. Os jornalistas liberais tentaram enfatizá-la mas não conseguiram; basta ver a parte da entrevista. Aliás, acho que Palin esteve bem nas entrevistas, mais à vontade na política interna (mas também nunca se apresentou como expert de política externa) mas sempre razoavelmente convincente.

    O Nuno Gouveia tem toda a razão: é um tremendo disparate os democratas centrarem-se tanto em Palin (e, de resto, os ataques têm tido efeito boomerang). Obama, então, está louco; ele não devia sequer referi-la! E só sublinha a sua própria fraqueza.

    Já agora, não tem mesmo nada a ver com o post ou o blogue, mas concordo em absoluto com o comentário do Nuno sobre a caquética ONU.

  26. Sobre o debate económico:
    – em linhas gerais, não é preciso muito para explicar o que corre mal com o plano McCain: ele tenta atingir objectivos a mais com instrumentos a menos, e isso, perdo-me amigo Jorge A. mas não é possíve. Em política económica o número de objectivos não pode ser inferior ao número de instrumentos. É um princípio antigo.
    – no caso mais concreto da política orçamental: diz-me o amigo Jorge A. que McCain tenta baixar imposto sem explicar onde curtará despesa e por isso o défice será do tipo de Bush. Acredite que a coisa é mais séria: no plano económico de McCain a proposta é baixar impostos, ACABAR COM O DÉFICE EM 2013, e selectivamente cortar a despesa. Onde? Your guess is as good as main.
    – os assessores de McCain não serão iletrados economicamente, mas 300 economistas prestigiados tinham subscrito o plano (em linhas gerais: baixar impostos, cortar défice, etc) e quando o documento final foi divulgado a esmagadora maioria acusou a campanha de McCain de lhes ter dados versões sincopadas para ler, demarcando-se do absurdo final;
    – ainda na parte economicamente simples: McCain é um defensor do chamado Gas Tax Holiday. Tal como HRC. O próprio Greg Mankiw, que foi assessor de Bush, se insurgiu contra isto, em coro com economistas de todos os quadrantes (publiquei no Público a 26 de Junho a súmula dos argumentos contra esta medida em artigo de opinião);
    – mais bizarro: o plano de saúde de McCain, de acordo com cálculos de entidades independentes, acaba a tributar ajuda que se dá às famílias para pagarem seguros de saúde — ou não equilibra o défice como promete;
    – num ponto mais técnico: o plano de McCain abre com um ponto mais técnico – o segredo é dar valor ao dólar. Pensemos juntos. Num mercado cambial livre, o dólar só sabe face ao Euro se as taxas de juro subirem muito nos EUA. Ora as famílias americanas que entraram na loucura do subprime já têm a corda ao pescoço para escapar à hipoteca. A subida dos juros seria a morte do artista.

    Como disse McCain “The issue of Economics is not something I have understood as well as I should”. E propôs-se ler um livro….
    Explico estas ideias com mais calma nesse artigo do Expresso disponível em http://ovalordasideias.blogspot.com/2008/08/o-plano-econmico-de-john-mccain.html.

    Caro tssss:
    – o comércio livre era uma discussão longa para o post adequado. Porque antes de mais não sei se é livre um comércio com países que praticam dumping social.

    Carmex:

    O debate sobre a ONU é bem vindo. Substituir a ONU pela West Wing é que me parece mais perigoso.

  27. “O Obama quer proibir as importações da China. Diz-nos muito sobre as habilitações do Obama para lidar com a Economia.”

    Eu tento fundamentar o que digo. É vício de profissão. Tenho a certeza que a sua afirmação não é leviana e há qualquer coisa de grave que me escapou: diga-me exactamente onde no plano económico de Obama se lê que se proibirão as importações da China. Escapou-me…..

    Ou é um bitaite, com perdão da expressão.

  28. Caro Carlos Santos,

    Por acaso respondi. Não, não ia ter apoio pois, e de acordo com o Tratado, NÃO tem direito a esse apoio.

    Timor fica a) no Pacífico e b) MUITO a sul do Trópico de Câncer, logo não está coberto no âmbito do tratado.

  29. Caro Carlos,

    “Acredite que a coisa é mais séria: no plano económico de McCain a proposta é baixar impostos, ACABAR COM O DÉFICE EM 2013, e selectivamente cortar a despesa.”

    Ora, e Obama promete ACABAR COM A DEPENDÊNCIA ENERGÉTICA dos EUA em 10 anos (verdade, McCain promete basicamente a mesma coisa, dilatando o prazo até 2025). Acha essa proposta realizável? Quer que lhe dê mais exemplos de propostas de Obama irrealizáveis, ou podemos ficar pelos principios gerais do que cada candidato defende, sabendo de antemão que muitas vezes os objectivos a que se proponhem é só para eleitor ouvir.

    Por exemplo na questão da “Capital Gains Tax” a que se refere o artigo do Mankiw que citei, Obama prometeu aumentar a mesma de 15% para 20%. Ora, essa taxa havia baixado de 28% para 20% durante a administração Clinton com ganhos nas receitas obtidas, Bush baixou-a de 20% para 15% e também viu subir as receitas da mesma. Qual a lógica então para Obama querer subi-la? Segundo o mesmo afirmou no debate em Filadélfia com Hillary Clinton, a taxa devia subir por uma questão de justiça e igualdade…


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