Publicado por: Nuno Gouveia | Setembro 23, 2008

A raça nestas eleições

Barack Obama é o primeiro candidato negro com reais hipóteses de chegar à Casa Branca. Nos últimos meses pouco se tem discutido sobre a raça. Mas, infelizmente, não podemos esquecer que na sociedade americana (muito menos que na politicamente correcta Europa) ainda existe um racismo dissimulado, que poderá influenciar, de uma forma negativa, o resultado final.

Em 1982, o Mayor de Los Angeles, Tom Bradley, afro-americano, liderava as sondagens com 10% de avanço sobre o seu adversário republicano para a eleição do governo estadual. Na noite da eleição, as sondagens à boca da urna indicaram que a corrida estava virtualmente empatada, acabando por vencer o candidato republicano. Por medo de serem acusados de serem racistas, muitos eleitores diziam nas sondagens que iriam votar no candidato negro, mas acabaram por votar no adversário branco. O efeito Bradley, como ficou conhecido este fenómeno, poderá voltar a atacar?

Os tempos são outros, e muitos dos problemas com a questão da raça foram ultrapassados. A vitória de Obama perante uma das famílias mais poderosas do establishment democrata é uma prova disso. Joe Trippi, que trabalhou com Bradley em 1982, defende também que os tempos são outros, e os 10% não terão uma correspondência nestas eleições. Mas numas eleições renhidas, pequenas diferenças podem fazer a diferença. E a verdade é que nas primárias, salvo raras excepções, Obama teve sempre melhores resultados nas sondagens.

Esta semana saíram alguns estudos que indicam que Obama poderá sair prejudicado, devido às atitudes racistas. E esses preciosos votos poderão sair das fileiras de democratas mais velhos, que rejeitam votar num negro, e pior ainda para Obama, das classes trabalhadores que poderão influenciar o resultado final no Midwest.

A Associated Press publicou um estudo que indica que o racismo pode custar 6% no apoio a Obama nas sondagens. Não se qual critério que regeu este estudo, mas é um sinal de alerta. E avisa ainda para o facto que 2,5 dos democratas votantes em Kerry poderão transferir o seu voto para Mccain, devido ao racismo.

Obama tem-se apresentado como um candidato pós racial, e raramente discute em público esta questão.  Fê-lo num brilhante discurso em Março passado. Mesmo na Convenção Democrata, as referências a Martin Luther King e à luta do movimento dos direitos civis foram escassas. E os republicanos estão avisados para não caírem na armadilha racista. Em Julho Obama jogou subtilmente a “carta” racista quando afirmou que os republicanos o iriam atacar por ser diferente dos anteriores presidentes, mas a resposta dura de John Mccain terminou com esta discussão. A verdade é falar sobre isto não interessa a ninguém. Obama não fala muito, pois pode aumentar a percepção negativa das pessoas com tendências racistas. E Mccain seria trucidado se a sua candidatura demonstrasse sinais de racismo.

Por fim, outro tipo de racismo, que quase nunca foi mencionado nesta campanha: o voto massivo dos afro-americanos em Barack Obama, por ser um dos “deles”. Se nestas eleições gerais isso não será relevante (já que os negros votam de forma esmagadora nos democratas), nas primárias isso foi notório, com percentagens de 10% apenas a suportarem Hillary Clinton.


Responses

  1. O caro Nuno escreve “E a verdade é que nas primárias, salvo raras excepções, Obama teve sempre melhores resultados nas sondagens.”

    Na verdade, tal não aconteceu. Este post do Nate Silver mostra-o claramente (http://www.fivethirtyeight.com/2008/08/persistent-myth-of-bradley-effect.html)

    Obama teve 3.3% melhores resultados do que as sondagens previam, seguindo a média do “Pollster.com”. Em 19 Estados as sondagens deram piores resultados do que a contagem efectiva.

    Como disse antes, eu acho que há racismo e que isso vai ter um papel importante na eleição (na Europa o problema nem se põe, não porque não haja racismo, mas porque os europeus jamais considerariam a hipótese de ter um chefe de Estado negro!). Mas a ideia de que Obama terá melhores sondagens do resultados efectivos não se baseia em nenhum dado científico. Pode suceder? Claro que sim! As sondagens são um instrumento de trabalho, não uma bola de cristal…

    Um grande abraço!

  2. Era uma percepção que tinha, mas não estava fundamentada em termos práticos. Lembrava-me de ouvir falar nisso, principalmente nas ultimas primárias.
    Abraço

  3. “outro tipo de racismo (…) o voto massivo dos afro-americanos em Barack Obama, por ser um dos “deles”.

    Outro tipo porquê? Um branco que escolhe o candidato pela cor da pele é diferente de um negro que escolhe o candidato pela cor da pele?


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