Publicado por: Nuno Gouveia | Outubro 11, 2008

A retórica negativa

Na última semana muito se escreveu sobre o clima de ódio que se está a espalhar nesta corrida americana. Esta discussão tem sido motivada pela campanha negativa que Mccain está a empreender contra Obama, nomeadamente através da associação de Obama a Bill Ayers, terrorista dos anos 70. Estes ataques são perfeitamente legítimos e dizer que a campanha republicana está a enveredar por um caminho “racista” parece-me errado e falacioso. Este tipo de investidas são perfeitamente comuns na política americana, e não precisamos de ir mais longe. Nas últimas primárias, HRC “devastou” Obama pela sua relação com Jeremiah Wright, obrigando-o mesmo a “renegar” a sua amizade com o Reverendo. Este tipo de ataques estão inseridos na cultura política americana, e não é por Obama ser negro que eles acontecem.

Um clima de guerrilha política é o que, infelizmente, os Estados Unidos vivem desde o final dos anos Clinton. Os radicais de ambos os partidos têm um profundo ódio pelos adversários, e isso manifesta-se nestes períodos quentes, onde observamos declarações perigosas de ambos os lados. Esta semana vieram a público alguns comentários que têm sido veiculados por activistas republicanos (terrorista, muçulmano – apenas porque é mentira- entre outros epítetos menos simpáticos). A verdade é que se nota um profundo desdém pelo Senador Obama nas facções mais radicais do GOP. Mas o inverso também sucede. Eu próprio assisti nas ruas de Minneapolis a alguns insultos semelhantes dirigidos a Mccain vindos de apoiantes de Obama. O radicalismo, infelizmente, está em ambos os lados.

Mas a retórica de Mccain-Palin nos últimos dias exacerbou ainda mais os ânimos, e foi por isso que John Mccain ontem sentiu a necessidade de refrear os espíritos mais exaltados. “Tenho de vos dizer que o Senador Obama é uma pessoa decente e que vocês não devem ter receio dele poder vir a ser Presidente dos EUA”, disse Mccain num Town Hall Meeting no Minnesota. Questionado sobre Obama seria árabe, Mccain respondeu: ”Não. Ele é um homem de família decente e um cidadão com o qual eu tenho desacordos em assuntos fundamentais, e esta campanha é sobre isso”. Por fim, Mccain afirmou que “nós queremos lutar e vamos lutar, mas serei respeitoso. Admiro Senador Obama e o que já conseguiu alcançar”. Durante o dia de hoje, Obama agradeceu a Mccain os seus esforços de apaziguamento, e retribuiu os elogios que recebeu ontem do adversário republicano.

Todas as campanhas políticas, principalmente nos Estados Unidos, são muito emotivas. A retórica negativa é uma constante na política norte-americana. Os políticos têm a fama de ser cerebrais, mas também cometem os seus erros e deslizes. E isso pode levar os activistas a empreender por caminhos perigosos e nefastos para a discussão política. E nesses casos, os políticos devem intervir para serenar a discussão. Foi isso que Mccain e Obama fizeram. Com muito mérito.


Responses

  1. Creio que as acusações de racismo vieram da associação entre terrorista (que para muitos significa “islâmico”) e Obama. Não importa que Ayers tivesse uma lógica completamente distinta, a palavra chave ali é “terrorista”, especialmente depois de dizerem que ele era muçulmano.

    Quanto à campanha de ódio, convém distinguir entre duas vertentes: uma a dos apoiantes, onde se encontrarão radicais e idiotas de toda a espécie, seja lá qual for o partido. Outra a dos candidatos, e aí temos visto os candidatos republicanos a inflamar os ódios dos apoiantes.

    Relativamente a esta acção de McCain, estou em crer que uma de duas coisas sucedeu: ou McCain voltou ao que era, um homem que até é respeitoso e deixou de ouvir os partidários das campanhas sujas ou, possivelmente, se apercebeu que essas campanhas apenas caíam bem nos ouvidos daqueles que já eram seus apoiantes e acabavam por alienar independentes (pelo menos levados a estes extremos, especialmente lembrando que o próprio Karl Rove considerou os anúncios excessivos).

  2. Mas foi a retorica negativa que levou a que muitos americanos apoiantes de McCain acreditem que Obama e muculmano associado a terroristas. Porque nas mensagenspublicitarias Obama e tratado como mentiroso e perigoso. E em todas as mensagens negativas la aparecia o John a dizer que aprovava a mensagem.

    E isto vindo do McCain que disse que havia um lugar no Indferno para a gente da campanha de Bush que nas primarias de 2000 lancou ataques infames sobre McCain.

    Felizmente os spin doctors de MCCain chegaram a conclusao que essa estrategia nao atrai os eeitores indecisos dai que parecem querer centrar o debate na politica.

    Ja vao tarde.Perderam a honra e nao ficam com o proveito.

  3. Podia só dizer que subscrevo os comentários anteriores. Mas acrescento uma nota pessoal: depois do “that one” do debate, do tom irado de Palin, dos anúncios, McCain quer passar por conciliador? Ele convence-me que o será se no próximo debate olhar Obama nos olhos meia dúzia de vezes e lhe chamar Barack. Acham-no capaz?


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