Publicado por: Nuno Gouveia | Outubro 31, 2008

Conselhos a Mccain

O José Gomes André desafiou-me para “oferecer” alguns conselhos a Mccain. Apesar de considerar que será tarde de mais para mudar o rumo dos acontecimentos, nesta fase final considero que os republicanos deveriam fazer quatro coisas:

Abandonar por completo todos os estados Kerry (a excepção seria a Pennsylvania, pela possibilidade de reter os votos dos democratas conservadores que votaram Hillary Clinton – a sondagem de hoje da Mason-Nixon terá dado algum alento ao GOP). Apesar das sondagens indicarem vantagem de Obama no Ohio, Florida, Virginia, Carolina do Norte, Missouri, Nevada, Colorado, essa não é assim significativa. Portanto concentrar os últimos recursos (financeiros e humanos);

A base republicana está motivada para ir às urnas. Sarah Palin teve esse efeito. Mas Mccain tem de ganhar estes estados tradicionalmente republicanos, e que apesar de tenderem para a direita, estes eleitores indecisos não fazem parte da ala conservadora. Mccain tem de fazer duas coisas nestes estados: Reforçar a mensagem sobre segurança nacional. Este vídeo de um soldado que perdeu uma perna no Iraque pode ser o estilo utilizado na publicidade institucional de Mccain. A retórica económica deve basear-se no ataque a Obama relativamente à subida de impostos e ao big governement que defende.

Campanha negativa. Mccain tem de conseguir colocar a dúvida sobre a capacidade de liderança de Obama. Como não o fez até ao momento, será tarde de mais para isso. Mas tem de continuar a lançar dúvidas sobre o candidato democrata, especialmente nas zonas mais conservadoras destes estados. Os grupos 527 e o RNC, que têm estado quase apagados nesta campanha, deveriam surgir nesta recta final.

O uso dos moderados do GOP. Do lado democrata temos visto Bill e Hillary Clinton em campanha por Obama. Amanhã será a vez de Al Gore. Os republicanos também deveriam estar a fazer o mesmo com os seus pesos políticos. O Governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, vai estar amanhã no Ohio com John Mccain, e deveria ter apostado mais em republicanos populares (que neste momento não são muitos) para os últimos dias da campanha. Como bem relembrou o José Gomes André, a utilização de Condoleeza Rice nesta campanha seria uma boa carta. Apesar de fazer parte da Administração Bush, continua muito popular nos Estados Unidos. Seria um risco, mas não há muito a perder neste momento.

Até ao momento, Mccain cometeu dois erros nesta campanha: Não conseguiu desligar-se da Administração Bush de forma clara; e partir do momento em que conquistou a base conservadora com Sarah Palin, deveria ter-se deslocado para o centro político. O que nem sempre fez.


Responses

  1. Acho interessante esse comentário sobre a possibilidade de McCain se ter virado para o centro depois de escolher Palin. Concordo com isso, mas acho que ele nunca teria tido essa possibilidade. A escolha de Palin foi obviamente influenciada pela ala mais conservadora do GOP (não imagino McCain a escolhê-la se fosse apenas por si) o que significa que esta ala passou a dar cartas e passou a influenciar a campanha daí em diante.

    Não creio que McCain se visse nestes apuros caso tivesse escolhido Palin e, depois, continuado a sua política habitual centrista. Abandonou completamente o centro e deixou-o para Obama. Não digo que ganhasse de outra forma, mas as sondagens apontariam para uma situação muito mais de empate.

    Última nota: creio que na noite eleitoral ainda surgirão surpresas. Há a questão do efeito Bradley mas também o facto de muitas das pessoas que dizem ir votar Obama serem pessoas mais jovens, as quais até podem acabar por não votar no dia 4 (um menor sentimento de dever cívico e a convicção de vitória podem deixá-los desleixados). Além disso, há que contar com o facto de o GOP conseguir sempre aqueles seus votos conservadores todos certinhos. É como o PCP no Alentejo, aqueles votos caem sempre. Já os votos centristas de que Obama depende para ser presidente podem ou não cair.

  2. Caríssimo Nuno. Se os chefes da campanha de MacCain lessem este tópico que na verdade resume como ganhar 5 pontos a mais e empatar com Obama eles mudariam totalmente de atitude, pontos forte de sua análise foram a utilização das escassas celebridades republicanas, o cabeçudo Rudy Giuliani só causou antipatia com aquela história “NADA”, Schwarzenegger além de popular atrai os jovens e não entendo a tardia presença.
    Mas existe uma coisa acontecendo agora que até o mais iludido correlegionário republicano não pode ignorar, ontem, às 01:00h da manhã estava assistindo ao vivo pela CNN discurso de Obama no Missouri em Columbia, o homem está motivado demais, parece aquela teoria cientifica do universo em expansão, ao invés de desacelerar ele aumenta sua velocidade. Como disse um jornalista, ele é uma luva de veludo com um punho de ferro.
    Nuno vc. provou que quando vc. observa uma estratégia de campanha ruim pelo lado de fora como vc. fez, é possível encontrar alternativas que são surpreendentemente ignoradas por quem está ali na mesa de brainstorming.
    Por favor evite contato com os estrategistas republicanos, pois precisamos de mudanças, nota 10 pela sua análise!

    Abraço à todos!

  3. Ótimo desafio José Gomes

  4. No dia 4, o efeito “devaliano” suplantará o efeito Bradley. Tb os republicanos estavam a contar com isto em MA.

  5. Zogby +7. Daily Kos +6. CBS/NY Times +11.

    Do GOP os unicos vencedores vao ser a Ms. Palin e o Joe “where are you” the Plumber.

  6. Fernando Vaz, acredite, Sarah Palin disse no programa Good Morning America na ABC que vai disputar a presidencia de 2012. Não discuto sua pretenção, mas me espanta a inocencia ou ignorância dela de decretar derrota do próprio companheiro de chapa.
    Imagine a campanha: Sarah Palin president end Joe the Plumber vice.

    Abraço à todos!

  7. GWU/Battleground +4 Rasmussen Reports +4 Diageo Hotline +7 RCP Poll of polls +6

    Para McCain ganhar teria de:

    1) Ganhar todos os estados em que esta em vantagem. Facil. 142 grandes eleitores.

    2) Ganhar todos os estados toss-up. Florida(21), N.Carolina(15),Missouri(11),Indiana(11), Montana(3) e Georgia (15). Possivel. Mais 85 GE, o que da um total de 227.

    Faltam 43 que teria de ir buscar a estados em que a vantagem e de Obama.

    a) Ohio (20) Obama + 5.8
    b) Colorado (9) Obama + 6.5
    c) Nevada (5) ) Obama + 7.0
    d) Virginia (13) Obama +6.5
    e) New Mexico (5) Obama + 7.3
    f) Pensylvannia (21) Obama + 9.8

    Para o conseguir, so se a campanha de McCain contratar o Ethan Hunt.

  8. Não sabia quem era Ethan Hunt e fui no google…
    Dei muita risada!
    Obrigado

  9. Uma simbiose entre a análise qualitativa de Nuno e a análise quantitativa de F. Vaz poderia conduzir a uma conclusão altamente interessante!

  10. Caro Nuno, muito obrigado por ter acedido ao meu desafio. Acho que estão neste post muitas ideias boas… A referência aos “moderados” do GOP é crucial, na minha óptica. Num ano onde o registo Democrata é muito superior ao Republicano, McCain tinha que apelar mais e mais aos independentes. E com o seu registo de votos, por que “abandonou” os hispânicos? O facto de o GOP se estar a marimbar para o Nevada e o Colorado ultrapassa a minha compreensão…

    Só fiquei com uma dúvida e gostava de saber a sua opinião: onde aconselharia McCain a fazer campanha nestes últimos dias? Um abraço!

  11. Caro João André:

    “Concordo com isso, mas acho que ele nunca teria tido essa possibilidade. A escolha de Palin foi obviamente influenciada pela ala mais conservadora do GOP”.

    Eu acho que teria. Se ele, antes de Palin, nunca poderia ter dito “I am not President Bush”, pois iria afastar os conservadores, depois poderia ter dito isso e muito mais, como o que tem dito nas últimas semanas. Newt Gingrich apontou o caminho da vitória (muito difícil, claro): Motivar a base conservadora e afastar-se de Bush. Ora, o melhor caminho para se afastar de Bush era ter falado mais vezes contra a Administração: condução da guerra do Iraque, Guantanamo, Tortura, Aquecimento Global e aumento da despesa federal. John Mccain sempre teve posições contrárias a Bush nestas áreas. Devia tê-lo referido mais vezes. E se tivesse este discurso, alinhado com uma Palin de attack dog (que até o faz bem), poderia ter feito uma campanha mais ao centro. Claro que do outro lado esteve uma campanha extremamente eficaz, que apostou bem no Bush-Mccain. E teve os recursos para o fazer. Em relação à escolha, tudo indica que gostaria de ter escolhido Ridge ou Lieberman, mas a ala conservadora não o deixou. Talvez tenha sido um erro.. talvez

    Caro Rogério,
    Eu não acho que a campanha republicana tenha cometido muitos erros (a resposta à crise financeira foi catastrófico, é verdade). Mas o contexto eleitoral é muito desfavorável a Mccain, e de facto, o entusiasmo e a energia que vem do lado de Obama demonstra que a história pode estar do lado dele. Mas, e como diz Ricardo Jorge Pinto, “Democratas fall in love, republicans falls in line”. E isso ainda pode contar na terça-feira.

    Caro Fernando Vaz e Silas,
    A situação é complexa para Mccain. Mas em política não há impossíveis. Já tivemos na história dos Estados Unidos vitórias improváveis. E então no mundo, o que não falta é exemplos destes. Lembro-me por exemplo da vitória de John Major em 1993. Por isso não gosto de utilizar a palavra impossível em Política. Se fosse uma ciência exacta…

    Caro José Gomes André,
    Obrigado pelo desafio. Já agora, penso que poderemos fazer um bem mais fácil, para a campanha de Obama. Tentarei ainda durante a tarde “postar” sobre Obama.
    Em relação ao seu comentário, parece-me incrível que Mccain não tenha cortejado mais o voto hispânico. Se nas primárias ele teve que acalmar o seu discurso pró-imigração, nesta campanha deveria ter assumido que foi um dos principais responsáveis pela tentativa de legalizar os 12 milhões de imigrantes ilegais. Os republicanos conservadores, que neste caso estiveram contra o presidente Bush e Mccain, serão responsáveis pela alienação deste voto, que em 2004 votou quase 40% em Bush. Mccain tinha as credenciais para ir de encontro aos hispânicos. Incrivelmente, desleixou-se.
    Fazer campanha: Ohio, Florida, Pennsylvania (apesar de tudo, se não vencer a Pennsylvania, o que será muito difícil, está obrigado a tentar) e Missouri. Despacharia Palin para a Carolina do Norte, Virgínia e Indiana. Romney para as comunidades mórmons do Nevada, Schwarzenegger no Nevada e Colorado, Ridge na Pennsylvania, Rudy na Virgínia e Indiana– zonas mais moderadas, Huckabee nas comunidades evangélicas do Sul (Georgia, Carolinas), Crist e Jeb Bush a percorrer a Florida. Todos os pesos pesados republicanos na rua (actualmente já nem são muitos). Thompson no Sul, Lieberman na Florida, junto às comunidades de judeus…

    Por fim, faria também o que disse, arriscava e colocava Condi na campanha.

    Ah, e claro, Joe The Plumber, no Midwest rural…

  12. Obrigado pela observação caro Nuno.

  13. Há, Há, Há, Há, Há! Joe The Plumber, no Midwest rural… Digno de David Letterman.

  14. “Motivar a base conservadora e afastar-se de Bush.”

    Acontece, Nuno, que McCain nao foi McCain nesta campnha. O GOP teve s RoboCalls e tambem o RoboMcCain.

    A comecar pela “wealth distribuiton”,

    Em 2000 nas primarias ele tinha posicoes contra a reducao de impostos propostas por Bush que ele hoje classifica de socialistas.

    Em 2004 ele estava tao afastado de Bush que foi falado para VP de Kerry.

  15. Não tenho nada contra as robotcalls. A campanha de Mccain não as utilizou para espalhar boatos falsos, mas sim para reafirmar a ligação com Bill Ayers. Achei estranho é não terem usado o Reverendo Jeremiah Wrigth. Para mim deviam-no ter feito. Aliás, Hillary Clinton também as usou, e o próprio Obama também o fez no Wisconsin.

    Obviamente que Mccain teria que condenar a “wealth distribution”. A própria campanha de Obama teve de explicar muito bem esta frase. Os Estados Unidos não são a Europa, e tudo que cheire a socialismo é rejeitado pelos políticos mainstream.

    Em 2004 foi falado para VP de Kerry, mas recusou, esteve na RNC de Nova Iorque e fez campanha por Bush.

  16. 2 erros?!? Acha mesmo? Sem comentários.

    “conquistou a base conservadora com Sarah Palin”

    Caro Nuno, a ser verdade isto é terrível, em termos de caracterização da ‘base conservadora’.

  17. Caro Paulo,

    Sim.Estes foram, para mim, os dois grandes erros estratégicos da campanha de Mccain. Onde a mensagem não foi a mais correcta.

    Mas esteja à vontade de apontar mais, sem capa ideológica, obviamente, diga…

    Por exemplo, até pode considerar um erro o seu apoio à “surge” no Iraque, mas ele devia ter insistido mais neste ponto, o que não fez. E sim, é evidente que Sarah Palin deu energia à base conservadora do GOP. Isso é uma evidência. Não me diga que ficou surpreendido?

  18. Nuno:
    Os erros da campanha de McCain são mais que muitos. Mas esbarramos sempre no mesmo, cá nas nossas diferenças: o Nuno faz análises utilitárias, em termos estratégicos, e eu procuro dar um pouco mais de crédito à inteligência dos eleitores. Ou seja, a velha história: afinal quem é que considera os americanos ignorantes e básicos? Corrija-me se me engano, mas uma campanha deve ter em conta o seu público-alvo. Assim sendo, basear os ataques a Obama em questões de carácter (muito forçadas, ainda por cima), boatos, ligações perigosas sem fundamento e tentativas desesperadas e constantes de o colar a rótulos hilariantes (mais ou menos 1 por semana: muçulmano, terrorista, marxista, inexperiente, antipatriota, etc etc); tal como escolher como icones conceitos e personagens tão primários e estafados como Palin e o Plumber, ou aquele patriotismo bacoco, que na cabeça das pessoas começa a representar tudo o que falhou em termos económicos e sociais; isso, na minha perspectiva, é o maior erro da campanha Rep. Quero eu dizer: os principais erros da campanha Rep foram os fundamentos em que a própria campanha Rep. se baseou.

    Olhe que tenho algumas dúvidas sobre os benifícios de Palin, mesmo junto da base conservadora. Posso estar enganado, mas julgo que aqueles que ela mobilizou, nunca na vida, com ou sem ela, votariam Obama. Claro que os pôs mais histéricos e tal, mas isso não dá mais votos. O que eu me pergunto é: e aqueles que ela afastou? Não serão contas mais relevantes?

    A questão da capa ideológica, ou melhor, da simpatia específica nesta eleição, aqui, nem se coloca: ambos (eu e o Nuno) estamos bem identificados, não há como fugir-lhe.

  19. “A campanha de Mccain não as utilizou para espalhar boatos falsos, mas sim para reafirmar a ligação com Bill Ayers.” NG

    Isso, caro Nuno, é uma falácia. E você sabe-o. Essa linha de argumento só se aguenta pelos códigos da mensagem Rep: <> remete, sem inter(-)ditos, para a velhinha ‘diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és’. Só que, aqui, Obama não ‘andou’ com o Ayers, apenas esteve envolvido em actividades comunitárias (ou lá como se chama àquilo) comuns. Toda a gente (com mais de 3 neurónios) percebe que a insinuação silenciosa é forçada. Mais uma vez: é um atentado à inteligência das pessoas. Suicídio político. É o tipo de jogo que, estou em crer, segura os votos que nunca estariam em risco, mas desperdiça alguns ou muitos dos que poderiam ser garantidos.

    3ª-Feira até pode haver um grande surpresa, mas entendo que esta corrida é geralmente considerada das mais fascinantes de sempre por uma razão simultaneamente simples e complexa: quando os candidatos simbolizam, de forma tão clara e inequívoca, maneiras tão diferentes de encarar a política, a sociedade, as ideias e o mundo; então, para lá da eleição de um presidente (que pode ou não, depois, cumprir as expectativas que conseguiu gerar), estamos face a um enorme subsídio para a caracterização, a vários níveis, de um povo, num dado momento.

    O bottom-line da coisa são sempre as pessoas. Com o tipo de campanha desgovernada e puramente tacticista que os Rep. fizeram, transmitiram a ideia de que consideram os americanos uma cambada de tolinhos, que só vêem aquilo que se lhes mostra. Se escavaram a vida do homem e o ‘melhor’ (pior) que arranjaram foi a cor da pele, um nome que remete para o universo muçulmano, o fantasma de Marx (como se isso fosse possível, nos EUA), um preacher maluco (e um silêncio sepulcral quanto às arrepiantes actividades para-religiosas da Sarah) ou a tia da prima da sobrinha que está ilegal; então, meu caro… deviam mesmo ter-se dedicado às ideias.

    Ninguém gosta de ser subvalorizado, e o povo americano foi enxovalhado pela campanha republicana. Espero que lho ‘expliquem’, na 3ª-Feira.

  20. […] entusiasmado com um candidato que denunciou inequivocamente o waterboarding como sendo tortura, recomendava a esse mesmo John McCain que falasse «mais vezes contra» a administração Bush, usando mormente […]


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