Publicado por: Nuno Gouveia | Novembro 4, 2008

John McCain: um candidato extraordinário*

*Por Joaquim Miranda Sarmento

Independentemente do resultado das eleições, e a apenas 24 horas do início da contagem dos votos, McCain provou ser um candidato extraordinário.

Não falo do seu passado:

Dos 5 anos e meio como POW, recusando a libertação, apenas porque era filho e neto de almirantes (o pai na altura comandava a frota do pacífico. O avo, já falecido, tinha recebido a rendição japonesa a bordo do USS Missouri, juntamente com o General MacArtur), impedindo uma magistral jogada política dos Norte – Vietnamitas.

Da forma como se candidatou ao congresso pelo estado do Arizona, estado esse onde não tinha qualquer raiz (embora a actual mulher Cindy e a sua família fossem uma das famílias mais ricas e influentes do Arizona). Ficaria famosa a resposta que deu a um adversários nas primárias estaduais, quando interrogado sobre o porque de concorrer pelo Arizona: “ quando estamos no serviço militar vivemos um pouco por todo o sítio … de facto, o sítio onde estive mais tempo seguido na minha vida foi numa prisão em Hanoi”.

Ou dos vários mandatos que serviu, e da inúmera legislação que propôs e elaborou. Das medidas que defendeu, e das várias posições que assumiu em ruptura com o seu partido.

Ou quando criticou Rumsfeld pela táctica no Iraque, e defendeu o “surge” que Petraus e Odierno têm levado a cabo. Como ele próprio disse: “prefiro perder uma eleição a ver este país perder uma guerra”.

Sempre frontal, corajoso e dedicado.

Falo sim desta campanha:

Em Maio de 2007 pouca gente apostaria no “maverick” para ganhar as primárias republicanas. Depois no verão a campanha quase implodiu por falta de verbas. Mais uma vez McCain mostrou de que fibra é feito. O mesmo McCain que por diversas vezes não se inibira de criticar os seus e de dizer aquilo que pensava, agarrou-se ao New Hampshire e obteve aí o seu “comeback kid”. Teve sorte? Claro que sim. Sobretudo na candidatura de Mike Huckbaee, que afastou Rommey das vitórias iniciais que lhe dariam um “momentum”. Mas a sorte protege os audazes.

Depois, venceu de forma rápida e inquestionável as primárias, quando muita gente esperava que o partido republicano se digladiasse em várias candidaturas.

Mas falo sobretudo do extraordinário homem, que aos 72 anos aguenta uma campanha de mais de um ano e meio, percorre dezenas de milhares de km de autocarro e avião, e não dá mostras de cansaço. As últimas semanas nas eleições americanas então são sempre de loucos. E McCain tem aguentado todas as provas físicas e mentais a que tem estado sujeito.

E evidentemente, independentemente do resultado final, ter um candidato republicano, com o Presidente Bush com a taxa de aprovação mais baixa desde Watergate, com o GOP em franco declínio desde 2006, perdendo eleição atrás de eleição, estar com algumas hipóteses de vencer, é preciso de facto ser um excelente candidato.

E pensar, que se não fosse a crise financeira, e sobretudo aquelas duas semanas horríveis, em que o sistema financeiro parecia que ia colapsar, e hoje talvez muita gente se inclina-se para a vitória de McCain e não de Obama.

Claro que contra um cataclismo deste, é quase impossível um candidato que representa o partido no poder não sofrer com isso. E quando tal cataclismo acontece poucas semanas das eleições torna-se quase impossível recuperar.

Cometeu erros? Sim, alguns. Mas o principal motivo da derrota chama-se Wall Street, e vem da enorme incerteza que se gerou nos EUA após a falência de vários bancos.

Quanto a Pallin, não sei se terá sido um erro. Não está lá para agradar aos europeus que tanto gozam com ela, ou para agradar ao New York Times. Está lá para motivar a base republicana, sobretudo a religiosa e a direita ruralista (para os fiscal conservatives o próprio McCain chega). E isso parece-me que a senhora tem conseguido.

Outros tempos e McCain teria ganho, até com alguma margem. Mas teria de ter um candidato a VP diferente, não poderia ter uma crise económica desta dimensão e não poderia defrontar um candidato, também ele extraordinário, pela novidade, que é Obama.

Porque os americanos têm um forte respeito por McCain.

E tem motivos para tal.

Como escreveu Shakespeare, em Julius Cesar: “And say to all the world, “This was a man!”


Responses

  1. Péssimo post, apesar de ter razão (McCain é sem dúvida um homem extraordinário).

    Diz que não fala do seu passado e lá vem a história de ser PoW e ter passado o seu tempo em Hanoi. Não que seja má, bem pelo contrário, mas depois de dizer que não fala do passado, começa precisamente por aí.

    Quanto a ter ainda hipóteses de vencer, há que notar que qualquer candidato que o Partido Republicano escolhesse estaria ainda nesta situação. A razão é simples: os democratas poderiam ter escolhido FDR e os republicanos Hitler que os republicanos nunca estariam (hoje em dia) completamente fora da corrida. Têm simplesmente um apoio muito forte no país e os eleitores mais fiéis.

    Palin foi a demonstração da atitude not-so-maverick de McCain. Foi escolhida pela direita religiosa independentemente dos desejos de McCain, isto parece-me óbvio. O McCain senador nunca teria escolhido alguém que viu apenas duas vezes e por pouco tempo. Já o McCain candidato, aquele que fez propostas nada condizentes com o seu registo do Senado, que tomou uma atitude negativa na campanha contra o seu passado bipartisan, esse McCain não foi admirável, antes foi odiável. Não é por acaso que uma publicação como a Economist, que sempre o admirou, acabou por dar o seu endorsement a Obama.

    Não sou um entusiasta de Obama. Teria preferido Hillary Clinton. Por outro lado, uma vitória do Senador McCain não me incomodaria por aí além, especialmente se acompanhada por um congresso e senado democratas. Já uma vitória do McCain candidato, com a Palin vice-presidente, isso seria desastroso. Resistência física não é tudo para se ser presidente. Boa capacidade de julgamento é fundamental. E McCain demonstrou ter pouco disso.

  2. Caro João André
    Desculpe, mas não posso concordar consigo em vários aspectos.
    Começa por dizer que qualquer candidato republicano estaria na mesma situação de McCain. Desculpe, mas as sondagens (dezenas delas), publicadas durante as primárias não dizem isso. Dizem exactamente o oposto. Que Huckabee, Rommey ou mesmo Giuliani ficariam entre 10% a 15% atrás de qualquer candidato democrata.
    Aliás foi por isso que McCain venceu. O GOP percebeu cedo que este era o único candidato que poderia dar-lhes a vitória (pelo menos entre os que foram a jogo nas primárias).
    Depois não posso concordar quando diz que o McCain senador é muito diferente do McCain candidato. Existem diferenças, como é obvio. Mas o contrário é que seria estranho. Ou Obama não mudou o discurso entre as primárias e a campanha eleitoral? ou lembrar o nosso próprio PM e o discurso que tinha durante a campanha e depois de ser eleito (embora no caso do Sr Pinto de Sousa, é de aplicar a velha máxima do Bismarck: “nunca se mente tanto como antes de uma guerra, durante uma eleição e depois de uma caçada”).
    E seria impossível pedir a um candidato republicano que não tentasse encostar um pouco à base do partido, mesmo que não se morra de amores por ela.
    quanto ao passado de McCain, eu apenas o coloquei para frisar que a prestação do candidato, embora influenciado pelo seu passado, pelo respeito que os americanos nutrem por ele, vai muito mais além disso.
    cumprimentos

  3. Dois reparos:

    “falo sobretudo do extraordinário homem, que aos 72 anos aguenta uma campanha”

    Isso não é uma virtude, é uma desvantagem. Ninguém fala da capacidade de Obama aguentar uma campanha. Nem de não chegar ao final do mandato. Com McCain esse problema existe. Sobretudo quando…

    “Palin…Está lá para motivar a base republicana, sobretudo a religiosa e a direita ruralista”

    Também estaria lá para governar se McCain ficasse impedido. Deus nos livre de tanta impreparação. A senhora não foi capaz de citar uma decisão (uma só que fosse do Supreme Court, que tem força de lei nos USA). Seria como um candidato a Presidente da Républica não citar um artigo da Cosntituição. Invocou erradamente os preceitos da 5ª emenda. Falou erradamente dos poderes do VP. Demonstrou total impreparação a nível de política externa (apesar de ver a Rússia do Alaska). Basta ver o que dizem dela os conselheiros de McCain .Para já em off, depois da campanha veremos. Até porque é no GOP que haverá mais gente interessada em queimar a senhora, já a pensar em 2012.

    McCain (ou Al Gore) teria(m) sido bom(ns) Presidente(s) em 2000. McCain foi vítima de uma campanha suja. Gore, de uma contagem dúbia. Todos ficamos a perder.

  4. Como para mim a questão é sobre a concreta novidade/mudança do Obama, nesse caso fico com a análise de que a crise foi o que deu mais voto ao Obama e de que até uma mula(símbolo dos Democratas) venceriam no lado Republicano(alias, o schwarzenegger comprova o que digo).

    Não sei se minha impressão está correta, mas o que pude assistir me trouxe a convicção de que o Partido Democrata é extremamente pragmático, enquanto o Partido Republicano é extremamente ideológico. Isso torna o primeiro um partido bem eficiente, mas sem identidade, sem tomar posicionamentos definidos o que passa a impressão que pra mim foi gritante, de que é um partido oportunista, sem cara, sem lado, sem compromissos, despolitizado.

    Já o Partido Republicano é extremamente coeso em suas tolices ideológicas, mesmo sendo tolices. Essa coerência, posicionamento e decisão demonstra uma aparência mais franca, mais empática, mais transparente. Isso explica como um asno como Bush tenha ganhado uma eleição presidencial.

    Como entusiasta que sou de Obama, infelizmente sei que sua gestão na melhor das hipóteses será marcada com uma gestão macroeconômica eficiente(tal como Bill Clinton) que provavelmente reabilitará o processo de acumulação, mas politicamente apagada, medíocre e vulnerável.

    Acho que o problema é que falta uma esquerda ou um partido socialista(há uma crise que é mundial nesse aspecto), ou até mesmo um partido social-democrata nos moldes clássicos. Apesar de que os Democratas serem tratados como se representassem isso em termos americanos. A meu ver nos Estados Unidos há apenas conservadores ideológicos e conservadores pragmáticos. Uma ditadura bipartidária, que se demonstra pela freqüente baixa participação eleitoral.

    Claro, esse ano é exceção, a participação já demonstra está acima da média… mas Obama é apenas um Democrata. No final frustrará por suas vacilações e dará um governo economicamente sanado para um próximo republicano.

    Será assim mais uma vez ou vocês acreditam que agora será diferente?

  5. endorsement FERNANDO VAZ

  6. Johny. Já que perguntou… Jamais conseguirei intender esse descrétido que as pessoas dão sobre a Vida e o o Ar que respiramos, se pareço efêmero demais é por que para uma parcela da população mundial é muito mais fácil subestimar a capacidade de um líder se acomodado na arquibancada esperando o fogo consumir o estádio e no final dizer assim: Está vendo eu não falei, eu disse que ele ia ganhar a eleição, mas ele restringiu seu governo à apenas salvar o mundo do caos econômico.
    Intelectuais como Obama na década da grande depreção eram menos que lixo para maioria dos americanos, mas curiosamente foram eles quem resolveram os problemas de 1929 e convenhamos mesmo que pareça pouco um governo pragmático que “APENAS?” resolveu essa urgente crise financeira, está ótimo. No futuro quem sabe depois de 8 anos de recuperação Democrata os Republicanos trabalhem para destruir tudo financiando tecnologia alienígena por que são fiéis a ideologia de burros. mas pelo menos são fiéis a algo.

    Abraço à todos!

  7. Antes de mais Joaquim, peço desculpa pelo termo “péssimo”. Foi um exagero. Mas mantenho que o acho mau.

    Quanto à posição de McCain, não expliquei bem. Talvez um outro candidato não estivesse exactamente nesta situação, mas não estaria necessariamente muito atrás. Sondagens são o que são. Romney, Giuliani ou Huckabee não são os candidatos, por isso essas sondagens são descartáveis. Se há algo que os republicanos fazem bem é colocar-se atrás do candidato do partido, independentemente de gostarem dele ou não. Como se vê, com os democratas é mais complicado.

    Quanto às diferenças entre o McCain candidato e o McCain senador, elas parecem-me óbvias. Especialmente porque o McCain senador é um verdadeiro maverick com historial disso (Obama vota mais que a esmagadora maioria dos democratas nos projectos do partido e sempre foi muito mais populista) e o candidato não o é, antes segue a linha do establishment republicano dos últimos 8 anos.

    É aí que me desiludo. McCain, com a escolha de Palin (ou outro/a semelhante) deveria ter-se deixado de preocupar com os candidatos conservadores. Deveria ter voltado à sua agenda habitual. Palin mobilizaria a Bible Belt e outros estados de god, guns & babies. McCain trataria da sua política normal. Um apontaria aos conservadores e outro ao centro. O facto de ainda haver centristas a querer votar em McCain é um testemunho do passado de McCain no Senado e do facto de Clinton não ser a candidata. Contra Hillary Clinton, tal estratégia nunca funcionaria.

  8. Tenho absoluta certeza que JMcCain seria o melhor presidente que os EUA teriam visto em décadas.O mundo todo perdeu ontem


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