Publicado por: Nuno Gouveia | Novembro 8, 2008

Umas eleições espantosas

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Nos últimos meses acompanhei John Mccain e Barack Obama quase diariamente, através dos seus discursos e acções de campanha. Para alguém que admira os Estados Unidos, estas foram umas eleições fantásticas. De um lado tínhamos John Mccain, um republicano com um histórico fabuloso, alguém que lutou ao longo da sua vida por aquilo que considera justo. Um político que inspira confiança em todos os seus actos, onde a decência e a honestidade são qualidades inquestionáveis. Do outro lado, talvez o melhor político desta geração, capaz de mobilizar o mundo inteiro através da sua retórica e das suas ideias. Alguém que conseguiu unir o mundo democrático, e não só, em seu redor. Para quem acredita no carácter excepcional da nação americana, estas foram umas eleições extraordinárias. O resultado seria sempre uma grande vitória da sua democracia.

Fez-se história ao eleger Barack Obama, membro de uma minoria étnica dos Estados Unidos. Poucas nações podem gabar-se de ter como líder alguém que não pertence à sua maioria. Basta analisar os cargos de poder na Europa. Mas muito mais do que isso. Ainda há pouco mais de 40 anos, o movimento dos direitos civis de Martin Luther King lutava nas ruas pela igualdade de direitos na sociedade americana. Quando Obama nasceu, em alguns estados ainda se praticava a segregação. Num espaço de cinquenta anos, cumpriu-se o sonho de MLK. E essa foi a história que se fez na noite de 4 de Novembro de 2008. Mesmo os republicanos mais fervorosos, que desejavam a eleição de John Mccain, sentiram-se orgulhosos por esta vitória da democracia americana. Basta analisar as declarações do próprio John Mccain, de George W. Bush ou Condoleezza Rice para atestar este sentimento. O Presidente eleito Barack Obama conquista o seu lugar na história, ao provar que todos os americanos, ricos ou pobres, brancos ou negros, hispânicos ou asiáticos, podem aspirar ao cargo mais elevado da nação. A simbologia do American Dream, onde todos podem chegar mais alto, cumpriu-se na íntegra com a eleição de Obama.

A tolerância e a diversidade da sociedade americana é algo que muitos europeus não compreendem. Ainda há quem não aceite a forma como Al Gore concedeu perante George W. Bush. Mas a democracia é isso mesmo: aceitar o veredicto do povo e das instituições. Barack Obama foi um crítico acérrimo de George W. Bush. Mas a partir da última terça-feira, serão poucas as vezes que o ouviremos atacar o antigo Presidente. Nos Estados Unidos há o respeito pelas instituições e pelos cargos. Passado o período eleitoral, as recriminações irão terminar. E Obama terá sucesso mediante a sua capacidade de empreender as mudanças prometidas, e não pela herança recebida.


Responses

  1. Realmente quem tem que lidar com o que nós lidamos no nosso país, onde um partido só brilha se conseguir criticar outro, e não existe um real debate de ideias, pode parecer estranho esta democracia americana..

  2. Eu acertei na Carolina do Norte porque confiei nas percepções da minha Tia e ela tem um olhômetro desgraçado..quem deu a vitória a Obama lá,foi o grande contigente de negros que foram as urnas.

  3. Ele não sorri gratuitamente e jamais impõe um discurso triunfalista. O nome de Bush raramente irá sair de sua boca a partir de agora, pois todos estão virando esta triste página da história humana e a lembrança dela só voltará à tona em 2012 seja lá quem for que estiver no GOP. Com sua elegância desarma inimigos. Fico admirado de ver um país que consegue perceber que uma postura austéra e pragmática tem mais importância do que estrelismos e apresentações cosméticas. Muita seriedade e união entre todas as vertentes políticas americanas, ele, é a pessoa certa para esta função.

    Abraço à todos!

  4. Uma coisa é aceitar “aceitar o veredicto do povo”, outra coisa é ignorar a vontade das pessoas e o aceitar uma derrota que não ocorreu! O discurso do Al Gore em 2000 é uma das coisas mais tristes que eu já vi…

  5. Cara Diana, sinceramente concordo que aquela vitória de Bush foi ilegítima.

  6. A diferença de hoje para 1929 está no tecnicolor:

    http://veja.abril.com.br/historia/crash-bolsa-nova-york/especial-quebrou-panico-acoes-wall-street.shtml

  7. Caro Nuno, não é assim tão claro que se esteja na Europa tão longe assim de ter cidadãos de «minorias étnicas» em cargos de responsabilidade política.

    No meu blogue Café Margoso, gerou-se um interessante debate sobre o tema, aqui – http://cafemargoso.blogspot.com/2008/11/perguntas-cafeanas_07.html – e acho que vale a pena a visita.

    Apenas dois exemplos:

    – Sarkozy é descendente de imigrantes;
    – Na Holanda existem 2 ministros que nasceram em Marrocos e Turquia. O proximo Burgo-mestre de Rotterdam, a segunda cidade da Holanda e capital industrial deste país vai ser um marroquino. Nomeado pela rainha pois os burgo-mestres não são escolhidos mas sim nomeados. Nasceu em Marrocos e que emigrou quando tinha 16 anos.

  8. Caro João Branco,

    Sarkozy é descendente de imigrantes, mas dificilmente poderá ser considerado membro de uma minoria étnica. A meu ver, é um branco como outro dos seus antecessores.
    Em Portugal, por exemplo, temos apenas um deputado negro, do CDS. E temos o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, descendente de pais indianos, acho eu.

    A mim não me satisfaz o facto dos membros de minorias chegarem ao poder. Satisfaz-me é saber que ninguém é prejudicado pela sua cor, religião ou etnia. E eu acho que na Europa ainda há muito preconceito em relação a isso. Será que se Sarkozy fosse descendente de argelinos teria chegado lá?

    Já agora, excelente a discussão no seu blogue sobre este tema.
    Abraço

  9. Diana,
    Essas teorias da conspiração nunca me convenceram. Até porque não passam mesmo disso.

    Neste assunto, tenho a mesma opinião que Al Gore. Numa democracia como a americana, não há lugar para roubos.


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