Publicado por: Nuno Gouveia | Dezembro 3, 2008

A equipa de segurança nacional e política externa

Barack Obama escolheu ao centro. É notória a surpresa em certos quadrantes republicanos pela equipa que o presidente eleito nomeou, para os cargos de responsabilidade na área de segurança nacional e política externa. Vamos por partes.

Admito que fiquei surpreso quando surgiram os rumores que Hillary Clinton seria a Secretária de Estado de Obama. Depois de ter derrotado Clinton numas eleições primárias muito duras, e não a ter escolhido para sua Vice-presidente, apesar das pressões que sofreu do Partido Democrata, imaginei que Obama quisesse Hillary, e principalmente Bill, longe do seu Cabinet. Mas, como o tempo veio a provar, estava errado. Esta opção tem várias explicações e todas elas válidas. Em primeiro lugar, e a mais simplista, é que Obama pretende ter um governo de pesos pesados, e ambiciona ter os melhores e mais capazes. Entre o “cinzento” John Kerry, o pouco mediático Richard Holbrooke ou o apagado Bill Richardson (só para citar alguns dos nomes referidos pela imprensa), preferiu apontar alguém que tem as mesmas ou mais qualidades na diplomacia internacional, mas é respeitado no mundo inteiro, e tem conhecimentos vastos na comunidade internacional. Uma voz moderada, que será capaz de fazer a ponte com os republicanos em matérias de política externa. Hillary não será um corte radical com o passado recente, pois apoiou a guerra no Iraque, suporta o aumento de tropas no Afeganistão, e por diversas vezes ameaçou o Irão por causa das suas pretensões nucleares (durante as primárias, criticou diversas vezes a postura “ingénua” de Obama). Outra razão para explicar esta nomeação, e esta mais maquiavélica, é que Obama quis afastar uma potencial voz dissonante do Senado. Com a vasta maioria que o Partido Democrata tem no Senado, os maiores incómodos poderão vir do seu partido, e a história já nos mostrou que os candidatos derrotados nas primárias podem ser uma pedra do sapato dos presidentes que os derrotaram. Veja-se o caso de John Mccain no primeiro mandato de George W. Bush.

O principal problema desta opção poderá ser a relação pessoal entre os dois. Este é provavelmente o cargo de maior confiança política no governo americano, e não poderá haver duas agendas. Barack Obama é o presidente, e Hillary terá de impor as suas orientações, sem hesitações, e mostrar convicção na defesa dos princípios. Se Condoleezza Rice foi uma Secretária de Estado eficaz, Colin Powel não o foi, devido ao distanciamento que tinha com o presidente. Veremos se Hillary terá a habilidade para desempenhar este papel de executora das políticas de Obama.

Já a manutenção de Robert Gates não me surpreendeu, pois sempre se falou dele desde a campanha eleitoral. O seu trabalho à frente do Pentágono tem sido elogiado por ambos os partidos, e depois da inabilidade de Donald Rumsfeld em conduzir a guerra no Iraque, a entrada de Gates no Departamento de Defesa foi fundamental para implementar a “surge” do general David Petraeus, que finalmente colocou a situação no terreno em condições favoráveis. E esta opção cumpre a promessa de Obama em ter um governo com republicanos. Apesar de Gates não ser registado como eleitor do GOP, a sua carreira política tem sido sempre feita ao lado de republicanos, primeiro como director da CIA no mandato de George H. Bush, e depois como responsável do DOD com W. Bush. E ele próprio admite que é republicano. À parte de alguns sectores mais liberais do Partido Democrata, Gates gera quase unanimidade na arena política norte-americana. Até Rich Lowry elogia as escolhas de Obama.

O general Jim Jones, antigo Comandante da NATO, foi nomeado National Security Advisor. Ora, este militar que foi crítico da condução da guerra no Iraque, é um velho amigo de John Mccain, e partilha a maior parte das ideias do Senador do Arizona. Durante a recente campanha eleitoral, foi conselheiro de ambos os candidatos, tendo sido referido como potencial VP de Obama. Colaborou com a Administração Clinton e foi enviado especial do presidente George W. Bush ao Médio Oriente. É um pragmático, e o seu nome poderia também surgir numa Administração republicana.

Barack Obama compreendeu que os tempos são perigosos, e que será necessário uma equipa experiente para os enfrentar. Como defendeu David Brooks hoje no New York Times, esta é uma “Continuity We Can Believe In”.


Responses

  1. Caro Nuno,

    Gostava de ouvir a sua opinião sobre isto: Como fica com isto a vice-presidencia de Biden? Sabemos que era um expert em política externa, mas a sua influência não ficara comprometida com a escolha de Hillary? Ou poderá ter sido uma escolha menor para um cargo “menor”?

  2. Também tenho uma pergunta para o Nuno. Na rádio falaram que Bill Clinton pode ficar com o lugar do Senado que era de Hillary. Isto é possivel? E não é um downgrade politico para ele?

  3. Caro Mário,
    Biden tem estado completamente desaparecido desde a eleição. Parece-me que será um vice-presidente pouco influente. Com uma Secretária de Estado como Hillary Clinton, fica difícil ter alguma influência na politica externa americana. Tendo a concordar consigo. Depois da influência de Dick Cheney, o cargo de VP voltará a ser ocupado por alguém low profile… Provavelmente era isto que Obama desejava para o lugar.

    Caro Xavi,
    Bill Clinton já negou esta possibilidade, apesar de ter sido veiculada pela imprensa. Não me parece que Clinton deseje voltar a ocupar cargos de relevo na política americana. O que ele desejava ficou-lhe vedado com a derrota de HRC nas primárias democratas.


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