Publicado por: Nuno Gouveia | Janeiro 19, 2009

Obama em busca da União?

abe

Abraham Lincoln* é a principal referência política de Barack Obama. O homem que acabou com a escravatura e derrotou o Sul secessionista e esclavagista, e que foi o primeiro presidente do Partido Republicano. Mas apesar deste percurso repleto de rupturas, que se iniciou ainda nos Whigs, Abe foi um político que tentou obter consensos. Lincoln venceu as eleições de 1860 não com a promessa de acabar com a escravatura, mas apenas de a impedir de expandir-se para os estados do oeste. E diga-se, a implosão do Partido Democrata do sul ajudou bastante, com a candidatura de John Breckenridge. O seu adversário democrata Stephen Douglas, depois da cisão com os esclavagistas do Sul, nunca teve reais hipóteses de vencer. O fim da escravatura foi apenas uma consequência da guerra civil, mas acabou por marcar o legado histórico de Abraham Lincoln.

Mas Lincoln foi um político de convicções, e apesar das adversidades, conseguiu mudar a face da América. A inspiração que gera em Obama provirá da abolição da escravatura, mas também da forma como Lincoln soube colaborar com os adversários. O seu arqui-rival de sempre, Douglas, e que viria a falecer pouco depois da sua tomada de posse, colaborou com Lincoln na primeira do conflito contra os estados confederados. Muitos foram os democratas do norte que lhe seguiram as pisadas, tendo havido mesmo um movimento de democratas que apoiaram Lincoln nas eleições de 1864. E o próprio gabinete de Lincoln estava composto por antigos rivais republicanos. Será esse o legado que Obama procura reproduzir?

A América vive, desde o segundo mandato de Bill Clinton, num estado constante de guerras culturais entre esquerda e direita. A vitória de Obama não terminou com esta divisão, mas Obama exibe sinais de querer unir o país, ao exemplo de Lincoln, mas também de Reagan, o último presidente que governou com o apoio de uma vasta maioria de americanos. Os indícios são muitos, resta saber se terá capacidade para corresponder às enormes expectativas que nele estão depositadas.

A equipa centrista que compõe a sua Administração é o primeiro sinal que Obama pretende governar para todos os americanos, e não contra os seus opositores. Este facto foi acentuado nas suas recentes declarações sobre a Administração Bush, onde até chegou a elogiar os conselhos de Dick Cheney, a bête noir dos liberais americanos. Já para não falar do civismo que existiu entre Obama e W. Bush. O New York Times refere que Barack Obama tem pedido conselhos a John Mccain em matéria de política externa, e o antigo candidato do GOP tem dito que algumas das escolhas de Obama para o governo também teriam sido as dele. Amanhã, e já depois de ter tomado posse, Obama irá estar presente num jantar de homenagem a Mccain. O convite ao pastor Rick Warren para elaborar a oração na tomada de posse demonstra o quão longe Obama está disposto a ir para atrair a simpatia da direita religiosa.

Mas será que Obama não vai tentar cumprir o programa que apresentou ao povo americano, de ruptura com o passado recente? A minha análise pode ser controversa, mas parece-me que Obama propôs um corte radical com o passado em termos simbólicos, e não propriamente de políticas. Na política externa, a linguagem e a retórica irá ser diferente da adoptada por George W. Bush. Mas em relação ao Iraque, ao Afeganistão, ao Irão ou a Israel, não estou a ver medidas adoptadas muito diferentes das perfilhadas nos últimos tempos. Mas a onda de simpatia e entusiasmo que gerou no mundo poderá ter reflexos benignos para os seus resultados práticos. A Europa irá ser forçada a ser mais cooperante com os EUA em certos dossiers, como no Afeganistão ou na resolução do problema de Guantanamo, por exemplo. A sua perseverança deverá trazer bons ventos para a política externa americana, até porque não haverá desculpas para não seguir a liderança de Obama.

A diferença deverá ser mais evidente na frente interna, onde Obama assumiu uma agenda divergente, nas frentes ambientais e da saúde, por exemplo. Mas mesmo aqui deverá haver algumas linhas de continuidade. Por exemplo, para a pasta da educação foi nomeado um republicano e os responsáveis da área económica são centristas da era Clinton. E Obama apresentado sinais que está disposto a trabalhar com os republicanos no Congresso para ultrapassar a crise. Mas não tenhamos dúvidas que a Administração Obama será julgada pela eficácia da resposta aos problemas económicos e sociais herdados de W. Bush. Com este capital de esperança, se tiver sucesso, será certamente alguém que fará história na Casa Branca.

A convergência em política deve ser de saudar, mas é perigoso pensar que se pode ter toda a gente no mesmo barco. Por isso, os 73% de americanos que hoje apoiam Barack Obama deverão ser efémeros. Mas o entusiasmo gerado deverá ser utilizado para implementar o seu programa político. E para isso, deverá olhar para o seu herói político. Poderá tentar conciliar opiniões divergentes, mas terá de ser inflexível na sua agenda programática. Sob o risco de comprar guerras com todos e não vencer nenhuma.

*Carlos Santos relembrou e bem a importância de Lincoln para Obama. Deixo aqui uma breve reflexão sobre o exemplo de “Honest Abe”.

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Responses

  1. Grande posta,

    Parabéns Nuno por estes 2 anos de “História”

    Abraço

  2. Caro Nuno, excelente análise. Deixo o link ao meu modesto contributo sobre a matéria http://ovalordasideias.blogspot.com/2009/01/livro-sobre-presidncia-de-obama.html que espero nos ajude a todos a perceber as contingências dos tempos.
    Abraço,
    Carlos Santos


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